Na rede federal, a crônica da falta de médicos e leitos

fonte: O Globo

Em dois anos, o número de clínicos, pediatras, intensivistas e anestesiologistas caiu pela metade nos seis hospitais federais no Rio. Esse era o quadro no fim do ano passado. Em junho deste ano, a redução dos profissionais em relação a 2016 ainda é de 8,5%. Mas não é só isso que levou ao fechamento de 301 leitos e à interdição de duas das três emergências abertas à população—as dos hospitais de Bonsucesso e do Andaraí.

Segundo a Defensoria Pública da União, o Ministério da Saúde não cumpriu decisão judicial que determinava a contratação de 4.040 médicos e demais profissionais de saúde. O resultado mais cruel desse déficit é visto nas portas das emergências e nos corredores das unidades. Segundo dados do Departamento de Informática do SUS (Datasus), do Ministério da Saúde, entre 2016 e junho de 2019, a quantidade de clínicos nos seis hospitais federais do Rio passou de 416 para 391, uma queda de 6%, mas chegou a 185 no ano passado. Já o número de pediatras caiu de 294 para 272 (redução de 7,5%), e eram 141, em 2018; o de anestesiologistas foi de 319 para 299 (6,2% a menos), mas se chegou a ter 153, no ano passado. Os intensivistas também ficaram mais escassos: a diminuição foi de 16,4%, de 274 para 229, chegando a 127 em dezembro. — Este ano, mais médicos pediram demissão por causa dos péssimos salários e da sobrecargadetrabalho.Afaltade concurso público piora o problema. As admissões são por contratos temporários precários — disse o conselheiro do Cremerj Raphael Câmara. No Bonsucesso, mais 20 leitos —dez da sala amarela e dez da emergência pediátrica — foram fechados na semana passada. De janeiro para cá, com os pedidos de demissão, o número de clínicos e pediatras no setor caiu de 47 para 27. No Hospital do Andaraí, a falta de estrutura obriga pacientes a ficarem internados em cadeiras, poltronas e macas.

Numa sala no quarto andar, Maria da Conceição Santos Marques, de 61 anos, passou a noite de quinta-feira sentada em uma poltrona. — Minha mãe tem metástase no cérebro. Esperou três horas por atendimento, ficou sete horas numa cadeira de rodas, passou a noite em poltrona e só foi para o leito na tarde de sexta —contou a técnica de enfermagem Ingrid Marques, de 37 anos. Sem citar novas contratações, o Ministério da Saúde informou que, nos cinco primeiros meses de 2019, os seis hospitais registraram aumento de 9% nos atendimentos ambulatoriais e de 5% nas cirurgias, em comparação com o mesmo período em 2018. O órgão destacou ainda que está aberta a renovação de contratos temporários.