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Coronavírus pode se manifestar primeiro no sistema digestivo em crianças, alerta artigo

fonte: BBC Brasil

Cinco crianças de 2 meses a 5 anos de idade chegaram ao hospital infantil de Wuhan, cidade chinesa que registrou o primeiro surto de covid-19, apresentando problemas gastrointestinais como diarreia, vômito, dor abdominal e falta de apetite.

Alarmados com o novo coronavírus, médicos pediram que fossem feitas tomografias computadorizadas, que então revelaram uma surpresa: apesar de os pequenos não apresentarem naquele momento sintomas respiratórios como tosse ou dor de garganta, seus pulmões estavam infectados por um vírus.

Depois, testes moleculares do tipo PCR diagnosticaram a presença do coronavírus em todas as cinco crianças — apesar de, em um dos casos, um menino de 1 ano, a sequência de dois testes negativos e um positivo deixar dúvidas se ele pode ter sido infectado depois, no hospital. Quatro delas já tinham outros problemas de saúde ao entrar no hospital, como apendicite e hemorragias.

Os casos foram descritos detalhadamente em artigo publicado no periódico Frontiers in Pediatrics, com revisão de pares (ou peer review, uma revisão independente por outros especialistas da área).

No artigo, os autores lembram que, em geral, a covid-19 tem baixa letalidade para crianças, e a maioria delas terá sintomas leves ou mesmo nenhum sintoma. Os casos mais graves normalmente estão associados a outros problemas de saúde, como estes analisados no Frontiers of Pediatrics.

É importante lembrar que, como a maior parte dos casos de coronavírus é leve, tanto para crianças quanto adultos permanece no Brasil a recomendação do Ministério da Saúde de isolamento domiciliar por 14 dias em casos suspeitos ou confirmados. A ida a unidades de saúde como hospitais só deve acontecer em caso de falta de ar. Confira no site do ministério as indicações para quem ficar doente e contatos de canais de atendimento.

“Estas crianças (cujos casos foram analisados no Frontiers in Pediatrics) foram levadas à emergência por outros problemas, como pedra no rim e lesão na cabeça. Ao dar entrada no hospital ou pouco depois, todas tiveram pneumonia diagnosticada por tomografia, e depois confirmação para covid-19 (por teste molecular)”, explicou em comunicado à imprensa Wenbin Li, médico do Departamento de Pediatria do Hospital Tongji, em Wuhan, e líder do estudo.

Assim, além das condições pré-existentes, os autores observaram sintomas do sistema digestivo em quatro dos cinco casos, atribuindo-os ao coronavírus.

Mas, mesmo para crianças que não tenham problemas de saúde pré-existentes, os autores dizem que suas descobertas devem servir de alerta de que o coronavírus pode infectar não só o trato respiratório, mas também o digestivo, trazendo sintomas como vômito e diarreia, e não a clássica tosse.

“Uma vez que a covid-19 em crianças é relativamente oculta ou leve, é fácil perder o diagnóstico (para a doença) no estágio inicial quando não há um quadro respiratório (…) Em áreas epidêmicas, uma infecção por SARS-CoV-2 deve ser suspeitada quando a criança apresentar sintomas no trato digestivo, especialmente se tiver também febre e histórico de exposição”, diz um trecho do artigo.

Quatro das cinco crianças tiveram febre durante a internação, que os pesquisadores admitem não saber dizer se foi causada pelas condições de saúde pré-existentes ou pela covid-19.

De acordo com Li e os outros cinco autores do artigo, seu trabalho é o primeiro a descrever detalhadamente casos clínicos de crianças diagnosticadas com covid-19 e cujos primeiros sintomas foram não-respiratórios.

As envolvidas no estudo foram hospitalizadas entre 23 de janeiro e 20 de fevereiro, e uma delas morreu por falência múltipla de órgãos durante a internação.

A seguir, um resumo dos quadros das crianças segundo descrito no artigo:

  • Menina de 10 meses, tinha como condição pré-existente intussuscepção (uma obstrução no intestino). Apresentava também vômito. Não tinha histórico de exposição ao coronavírus. Passou por várias complicações e intervenções drásticas, mas morreu.
  • Menino de 5 anos, tinha uma apendicite do tipo supurada. Também apresentava dor abdominal. Avó teve confirmação para coronavírus. Após dez dias hospitalizado, teve alta.
  • Menino de 8 meses, chegou ao hospital apresentando um ferimento na cabeça e também convulsão. Não tinha histórico de exposição ao coronavírus. Após 14 dias no hospital, teve alta.
  • Menino de 1 ano, foi internado com pedra no rim e infecção por rotavírus. Também apresentava vômito e diarreia. Não tinha histórico de exposição ao coronavírus. Teve alta após 17 dias internado.
  • Menino de 2 meses, sem condições consideradas pré-existentes e internado com diarreia e falta de apetite. Pais e avós tinham suspeita de covid-19. Foi liberado do hospital após 15 dias.

Comparação com adultos

Citando outro estudo chinês, o artigo menciona que, entre adultos hospitalizados com covid-19 em Wuhan, cerca de 10% apresentaram diarreia e náuseas um a dois dias antes da febre e dispneia — estes sintomas típicos da nova doença.

“Na comparação com os adultos, não é que o trato gastrointestinal das crianças seja mais suscetível ao SARS-CoV-2, mas sim que os sintomas gastrointestinais das crianças são mais proeminentes”, explicou por email Wenbin Li, respondendo a perguntas da BBC News Brasil.

“As crianças são mais ativas e não têm tanta atenção com a higiene das mãos. É mais provável que, nas crianças, o vírus se espalhe por contato ou transmissão fecal-oral.”

O médico aponta também que, assim como o trato respiratório, o trato gastrointestinal é rico em receptores do coronavírus, o ACE2, presentes por exemplo em células do intestino delgado.

Controle do coronavírus pode levar 5 anos, diz cientista-chefe da OMS

fonte: Folha de SP

Ainda serão necessários quatro ou cinco anos até que o novo coronavírus esteja sob controle, disse na quarta (13) a cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde), Soumya Swaminathan.

Segundo ela, o tempo pelo qual o vírus continuará representando uma ameaça vai depender das mutações que ele possa sofrer, da eficácia de medidas de restrição do contágio implantadas pelos países e do desenvolvimento de uma vacina viável.

Em uma conferência digital promovida pelo jornal britânico Financial Times, Soumya disse que “não há bola de cristal” para essa previsão, e que a pandemia pode até “potencialmente piorar”.

Além disso, o fracasso de governos e famílias em aplicar as vacinas já comprovadas para doenças já conhecidas mostra que é um erro apostar todas as fichas em uma descoberta científica no caso do coronavírus, disse em entrevista em Genebra o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan.

“Desculpem se pareço cínico, mas vejam quantas doenças poderíamos ter eliminado com vacinas perfeitamente eficazes, como a do sarampo, e não o fizemos. Podemos até descobrir, produzir e entregar, mas as pessoas precisam também tomar as vacinas”, disse Ryan.

Segundo ele, o mais provável é que o coronavírus fique endêmico e a humanidade precise conviver com ele, como ocorre com o HIV. “Com tratamentos corretos, pode se tornar um vírus que não provoca mais pânico. Mas no momento é um patógeno novo, chegando aos humanos pela primeira vez, e é impossível estimar por quanto tempo ele ficará entre nós”, disse.​

Mesmo sem uma vacina, os governos podem controlar a pandemia com medidas básicas de epidemiologia e saúde, afirmou Maria van Kerkhove, líder técnica da OMS: “Vários países já comprovaram que com as medidas corretas para impedir o contágio e tratar os doentes é possível dominar a Covid-19”.

Para Peter Piot, diretor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres que também participou do evento do Financial Times, eliminar o coronavírus vai exigir “muito mais” do que desenvolver uma vacina viável.

“A única doença humana erradicada foi a varíola”, disse Piot, que se recupera depois de ter contraído o coronavírus e ter sido internado durante uma semana. Segundo ele, as sociedades terão que encontrar formas de conviver com o vírus com intervenções mais focalizadas, em vez de amplas e gerais.

Piot afirmou que “não há opção a não ser investir mais em testes”, nos setores público e privado. Os sistemas de vigilância também foram apontados como fundamentais pelo diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, em entrevista pela internet: “A melhor maneira de saber se a doença está voltando com o relaxamento de medidas não pode ser contando doentes nas UTIs ou corpos no cemitério”.

Pesquisa que vai estimar a dimensão da Covid-19 no Brasil precisa do apoio de todos

fonte: Folha de SP

Uma pesquisa que vai estimar a dimensão real da Covid-19 no Brasil inteiro já está em curso. Começou na quinta-feira (14), em todos os estados do país.

Já foram feitos mais de 5.300 testes rápidos para o coronavírus apenas no primeiro dia da coleta de dados. Até sábado, devem ser testadas 33.250 pessoas em 133 cidades, gratuitamente (veja abaixo a lista dos municípios). Com essa amostra, vamos ter uma primeira medida de qual é a proporção dos brasileiros infectada.

No entanto, as equipes que coletam os exames e os dados têm enfrentado algumas dificuldades. Embora o Ministério da Saúde tenha enviado ofício para as Secretárias de Saúde, em alguns casos aparentemente esses ofícios não chegaram ao conhecimento das autoridades locais. Estamos trabalhando em força-tarefa para dialogar com as prefeituras e evitar prejuízos para o trabalho.

Com esse estudo, haverá dados para planejar o combate à doença, informações que servirão a estudos científicos e poderão auxiliar autoridades a tomar decisões fundamentais no enfrentamento da epidemia. Para que seja realizada, precisamos do apoio de todos, das autoridades locais também.

As equipes da pesquisa têm sido muito bem-recebidas na grande maioria das residências, o que mostra que a população está muito interessada em ter a chance de realizar o teste para o coronavírus e contribuir para a pesquisa, que poderá ajudar a salvar muitas vidas com os dados produzidos.

O estudo, aprovado pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), vai estimar a proporção de pessoas com anticorpos para a Covid-19 e a velocidade de expansão da pandemia no Brasil.

As pessoas serão entrevistadas e testadas em casa por meio de um sorteio aleatório. Os agentes da pesquisa coletam uma gota de sangue da ponta do dedo do participante, que será analisada pelo aparelho de teste em aproximadamente 15 minutos. A participação na pesquisa é voluntária e o teste é realizado de forma gratuita.

É uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas, financiada pelo Ministério da Saúde, e realizada pelo Ibope Inteligência.

OS MUNICÍPIOS ONDE ESTÁ SENDO FEITA FEITA A PESQUISA:

Rondônia
Ji-paraná
Porto velho

Acre
Cruzeiro do sul
Rio branco

Amazonas
Lábrea
Manaus
Parintins
Tefé

Roraima
Boa vista
Rorainópolis

Pará
Altamira
Belém
Breves
Castanhal
Marabá
Redenção
Santarém

Amapá
Macapá
Oiapoque

Tocantins
Araguaína
Gurupi
Palmas

Maranhão
Bacabal
Caxias
Imperatriz
Presidente dutra
São Luís

Piauí
Corrente
Floriano
Parnaíba
Picos
São Raimundo Nonato
Teresina

Ceará
Crateús
Fortaleza
Iguatu
Juazeiro do norte
Quixadá
Sobral

Rio Grande do Norte
Caicó
Mossoró
Natal

Paraíba
Sousa
Campina grande
João pessoa
Patos

Pernambuco
Caruaru
Petrolina
Recife
Serra talhada

Alagoas
Arapiraca
Maceió

Sergipe
Aracaju
Itabaiana

Bahia
Barreiras
Feira de santana
Guanambi
Itabuna
Irecê
Juazeiro
Paulo afonso
Salvador
Santo Antônio de Jesus
Vitória da Conquista

Minas Gerais
Barbacena
Belo horizonte
Divinópolis
Governador Valadares
Ipatinga
Juiz de Fora
Montes claros
Patos de Minas
Pouso Alegre
Teófilo Otoni
Uberaba
Uberlândia
Varginha

Espírito Santo
Cachoeiro de itapemirim
Colatina
São Mateus
Vitória

Rio de Janeiro
Campos dos Goytacazes
Macaé
Petrópolis
Rio de Janeiro
Volta Redonda

São Paulo
Araçatuba
Araraquara
Bauru
Campinas
Marília
Presidente Prudente
Ribeirão Preto
São José do Rio Preto
São José dos Campos
São Paulo
Sorocaba

Paraná
Cascavel
Curitiba
Guarapuava
Londrina
Maringá
Ponta Grossa

Santa Catarina
Blumenau
Caçador
Chapecó
Criciúma
Florianópolis
Joinville
Lages

Rio Grande do Sul
Caxias do Sul
Ijuí
Passo Fundo
Pelotas
Porto Alegre
Santa Cruz do Sul
Santa Maria
Uruguaiana

Mato Grosso do Sul
Campo Grande
Corumbá
Dourados

Mato Grosso
Barra do Garças
Cáceres
Cuiabá
Rondonópolis
Sinop

Goiás
Luziânia
Goiânia
Iporá
Itumbiara
Porangatu
Rio Verde

Distrito Federal
Brasília

Formulário eletrônico irá medir subnotificação de Covid-19 no Estado do Rio de Janeiro

fonte: Faperj

A fim de tentar avaliar o grau de subnotificação de casos de Covid-19 no estado, o Governo do Rio de Janeiro lançou um formulário eletrônico a ser respondido pela população.

Primeira ação da Comissão RJ Ciência no Combate à Covid-19 (ComCiênciaRJCOVID), instalada pela Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), o formulário (disponível neste link) inclui perguntas sobre a presença e a data de início dos sintomas da Covid-19, a saúde de familiares e conhecidos, além da identificação da pessoa que está respondendo.

O questionário produzirá dados, com atualização em tempo real, a serem usados pelas secretarias estaduais no combate à pandemia e poderá ser adaptado e utilizado por outros Estados, já que é público.

Para o presidente da FAPERJ, Jerson Lima, que também preside a Comissão, a maior vantagem da ferramenta é a agilidade na resposta, além de ser simples e fácil de ser respondida. Segundo a subsecretária de Ensino Superior, Pesquisa e Inovação, Maria Isabel de Castro Souza, a comparação entre o percentual de casos notificados e subnotificados permitirá às autoridades de saúde e de gestão aperfeiçoar as ações preventivas contra o coronavírus.

Fiocruz diante da covid-19

fonte: Ciência Hoje

Mal atende o telefone, Nísia Trindade Lima avisa, com delicadeza, que precisará atrasar a entrevista em dez minutos porque recebeu um chamado do Ministério da Saúde. Seus dias têm sido assim desde que os casos da covid-19 passaram a se multiplicar no Brasil. São reuniões virtuais consecutivas, isolamento social até dos filhos e imensas e incontáveis responsabilidades como presidente da Fiocruz. É a primeira mulher no cargo nos 120 anos, completados em maio, da instituição que está no centro do combate à pandemia no país.

“É duro, é difícil, mas o tempo todo estou trabalhando, e isso nos dá esse sentido de urgência e da importância de estarmos dedicados a esse objetivo”. Comparo-a ao general Patton em meio à Segunda Guerra, mas Nísia discorda:

“Fala-se muito de guerra, não gosto dessa metáfora. Para mim, a imagem que expressa essa pandemia é uma crise sanitária e humanitária”. A desigualdade brasileira em meio a esse “desastre” é uma das maiores preocupações da socióloga.

“Não há democracia na circulação do vírus. Falam que o vírus é democrático, e ele pode, de fato, atingir a todos, como atinge, mas a capacidade de proteção e de resposta a isso é diferente num país desigual como o nosso”, diz ela, referindo-se aos milhões de brasileiros sem acesso à água e impossibilitados de evitar aglomerações.

Nesta entrevista exclusiva à Ciência Hoje, Nísia fala da importância do Sistema Único de Saúde, de como criar condições para quando uma vacina chegar estar disponível a todos e da iniquidade de gênero dentro da própria Fiocruz.

CIÊNCIA HOJE: Quando a Fiocruz foi criada, há 120 anos, as ameaças eram as epidemias de varíola, peste bubônica e febre amarela. Hoje, a instituição segue como referência para combater epidemias e está no centro do enfrentamento da covid-19. Pode falar um pouco dessa trajetória?

NÍSIA TRINDADE LIMA: A história do século 20 em relação à saúde pública, e até numa visão mais profunda do Brasil, passa pela Fiocruz. E por quê? O trabalho científico realizado na instituição se volta aos grandes problemas, epidemias urbanas de peste bubônica, varíola e febre amarela, além de outros problemas como as chamadas doenças dos sertões, a Doença de Chagas, marcante na trajetória da instituição. É possível pensar a própria história da sociedade brasileira por esse ângulo da saúde pública, porque a expansão de projetos vistos como modernizadores no território brasileiro sempre colocou questões ambientais, de qualidade de vida, da emergência de doença… E a Fiocruz representa essa história, sempre trazendo aportes científicos dos seus pesquisadores, associando a ciência às necessidades da saúde pública. Neste momento, estamos enfrentando a grande pandemia do século 21, algo que também vai além da saúde. É um grande desafio para uma instituição de ciência e tecnologia vinculada ao Ministério da Saúde (MS) e que, ao longo de sua trajetória, participou do movimento da reforma sanitária na Constituição de 1988, da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e busca unir esse esforço de ciência, tecnologia e inovação com a constituição de um sistema universal em um país continental e extremamente desigual. Se fizermos um paralelo em termos de pandemia, é importante lembrar que cientistas da saúde pública, como Carlos Seidel e Carlos Chagas, foram personagens chave na organização de ações de mitigação da Gripe Espanhola no início do século 20. Então é uma tradição que se atualiza hoje, com uma instituição que se espraia de Manguinhos, onde tudo começou, por todas as regiões brasileiras, com presença de institutos e escritórios em dez estados, e trabalhando toda a cadeia, do conhecimento até a produção.

“O mais importante é a necessidade de o país ter uma ciência forte e instituições científicas e universitárias onde se possa gerar conhecimento para compreender a dinâmica da doença na relação com a sociedade e o ambiente e também apoiar o desenvolvimento de políticas públicas”

CH: Quais lições podemos aprender com o combate às epidemias do passado na atual crise? 

NTL: Muitos falam que a perspectiva histórica nos ajuda a entender melhor o presente e os desafios que temos. Por outro lado, é difícil tirar lições do passado. Dizem que é como tentar mirar o futuro com um retrovisor. Mas é possível falar de alguns aprendizados e legados. O mais importante é a necessidade de o país ter uma ciência forte e instituições científicas e universitárias onde se possa gerar conhecimento para compreender a dinâmica da doença na relação com a sociedade e o ambiente e também apoiar o desenvolvimento de políticas públicas. O país precisa fortalecer sua base cientifica e tecnológica. Neste momento vemos, de uma maneira muito triste, que muitos insumos de saúde, como equipamento de produção individual (EPI) e respiradores, não estão acessíveis e isso independe do poder de compra, porque dependemos de importações de produtos que agora estão escassos. É importante ter um desenvolvimento industrial que permita ao país sua autonomia e impulsionar o desenvolvimento em outras áreas. Esses são os principais aprendizados: a importância de se investir em ciência e tecnologia e associá-las ao que chamamos de complexo econômico e industrial da saúde. O SUS requer inovação e tecnologia, requer uma base produtiva.

CH: A ciência tem ocupado um lugar central no combate à pandemia, no momento em que muitos movimentos anticientíficos buscam diminuir sua relevância. De que maneira a relação ciência e sociedade vai se estruturar após a atual situação?

NTL: Podemos ter esperança, mas não convicção absoluta de que o valor social da ciência venha a ser mais respeitado e fortalecido nesse processo. Cabe à ciência – nesse sentido amplo, em todas as áreas do conhecimento – dar as respostas e informar políticas públicas para proteger a sociedade. Essa é a aposta muito importante que nós temos, mas nada disso é dado. E aí entra a política com ‘P’ maiúsculo. Não podemos apenas fazer esse enunciado da importância da ciência e não trabalharmos cotidianamente para essa construção coletiva. Precisaremos de um pacto pela vida, como bem coloca a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência na Marcha Virtual pela Ciência.

CH: Você é autora do livro Louis Pasteur e Oswaldo Cruz: tradição e inovação em saúde. Por que se valoriza tanto a figura de Oswaldo Cruz, mas não se tem a mesma visão dos cientistas no Brasil contemporâneo?

NTL: São várias razões. Oswaldo Cruz se tornou um símbolo, assim como o castelo de Manguinhos simboliza a possibilidade de fazer pesquisa científica de alto nível num país de periferia e, sobretudo, uma ciência cujos resultados são mais visíveis à população. Talvez menos visível, mas quem sabe até mais importante, foi o fato de ele ter formado uma escola. Ou seja: sua memória, seu trabalho foi sendo atualizado por gerações de pesquisadores, entre os quais me incluo. Assim essa matriz histórica é permanentemente atualizada e tem o Oswaldo Cruz como pioneiro e referência maior. Outro fator é que a ciência era feita de uma forma diferente. Hoje em dia, cada vez mais, coletivos e grandes equipes são importantes, e, ainda que as lideranças continuem a pesar, essa figura individualizada do cientista já não existe da mesma forma. E um terceiro aspecto não menos importante é que a ciência no Brasil se democratizou, eram pouquíssimos cientistas no Brasil no início do século 20. Hoje temos muito mais pesquisadores e em todas as regiões do Brasil. Temos também a ideia de ciência cidadã, com a participação ativa da população na construção do conhecimento científico. A base científica se ampliou, e é essa base que precisa ser preservada neste momento. A figura de Oswaldo Cruz permanece na medida em que essa ciência vai se reproduzindo. Se não, ele vai virar um símbolo de um passado longínquo, e isso nós não podemos admitir.

“Não estamos chamando nosso centro hospitalar de hospital de campanha porque ele terá uma permanência, como uma ampliação das ações do nosso Instituto Nacional de Infectologia, que já carecia de melhor estrutura para o atendimento de pacientes graves”

CH: E o hospital de campanha? Além de tratamento dos pacientes, auxiliará nas pesquisas em andamento?

NTL: Não estamos chamando nosso centro hospitalar de hospital de campanha porque ele terá uma permanência, como uma ampliação das ações do nosso Instituto Nacional de Infectologia, que já carecia de melhor estrutura para o atendimento de pacientes graves. O hospital é um dos que vão fazer parte desse grande estudo clínico Solidariedade, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que está analisando medicamentos já conhecidos para avaliar sua eficácia e sua segurança quando administrados a pacientes da covid-19. Ele vai permitir também, como vai ser um complexo com um grande número de leitos, uma revisão de protocolos, um conhecimento mais amplo das características da doença em sua forma grave no Brasil. Será também um grande laboratório de estudo do comportamento dessa doença nas pessoas com a manifestação mais grave.

CH: Por que a Fiocruz foi considerada referência para a covid-19 nas Américas pela OMS?

NTL: Esse é um reconhecimento ao Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, que tem mais de 60 anos de atividade e a história marcada pela resposta à epidemia de meningite na década de 1970. Esse reconhecimento da OMS significa que o diagnóstico do vírus, e também o estudo de suas mutações – e aí o Brasil é um grande laboratório –, será feito em todas as Américas tendo como referência o nosso laboratório.

“O legado dessa pandemia é que esse sistema precisa ser fortalecido. E a estratégia da saúde da família e da atenção básica, que cresceu no início do século 21, também requer um olhar especial”

CH: Um dos compromissos de seu programa de gestão é defender o direito à saúde universal e o SUS. Como o sistema está enfrentando a covid-19?

NTL: A pandemia, pela velocidade de transmissão e pelos casos graves que requererem longos períodos internação e atenção especializada de alto custo, é um problema para todos os sistemas do mundo, até mesmo no inglês, que é robusto. Por outro lado, vemos os Estados Unidos, uma nação rica, mas que enfrenta com dificuldade a pandemia por não ter um sistema público. Então é importante acentuar que o SUS, neste momento, é uma fortaleza, mas também adoece, porque há outros problemas a serem enfrentados. Teríamos problemas em qualquer situação como o mundo todo, mas soma-se a isso um subfinanciamento histórico. O legado dessa pandemia é que esse sistema precisa ser fortalecido. E a estratégia da saúde da família e da atenção básica, que cresceu no início do século 21, também requer um olhar especial, porque tem proximidade nos territórios. Outro ponto no enfrentamento da pandemia é a extrema desigualdade no Brasil, que implica condições de vida sem saneamento, sem água, o que torna as medidas de higienização muito difíceis de serem implementadas. O mesmo se diz em relação ao isolamento. Além das medidas de saúde e fortalecimento da assistência, tem que se trabalhar medidas de proteção social. As pessoas não podem, ao escapar da covid-19, morrerem de fome.

“Salvar vidas, fortalecer o nosso SUS e ter uma agenda para um processo que vai se alongar, lutar por uma vacina e garantir o acesso de toda a população à vacina e a outros meios para proteger sua saúde, esses são os grandes desafios”

CH: Como é ser a primeira mulher presidente da Fiocruz em 120 anos e estar no centro do enfrentamento dessa crise só comparável à Gripe Espanhola?

NTL: Essa é uma crise planetária, que coloca em xeque o modelo civilizatório, expõe a vulnerabilidade do mundo todo. É um desafio impensável para a minha geração, que participou da construção do SUS, da retomada do processo democrático no país. Meu papel é coordenar esforços da potência que é a Fiocruz, a principal instituição de Ciência e Tecnologia em Saúde da América Latina, fazendo com que atue como um sistema de forma sinérgica. Lidamos com essa pandemia como uma grande crise sanitária e humanitária multidimensional, que requer conhecimento de todas as áreas da ciência. Salvar vidas, fortalecer o nosso SUS e ter uma agenda para um processo que vai se alongar, lutar por uma vacina e garantir o acesso de toda a população à vacina e a outros meios para proteger sua saúde, esses são os grandes desafios.

Como primeira mulher a presidir a Fiocruz, enfrento esse desafio com sentimento ambíguo. Tenho me esforçado para reforçar o nosso Comitê de Equidade e Gênero em torno de uma série de questões, mas destaco uma: mulheres são maioria entre nossos trabalhadores e pesquisadores, mas minoria nos cargos diretivos. Que a minha posição na presidência não sirva só como um exemplo, mas como um motor de reduzir essa iniquidade. E eu falo de um sentimento ambíguo porque, neste momento da pandemia, eu vejo várias colegas na linha de frente. Isso dá orgulho. Por outro lado, essa pandemia revela uma sociedade muito desigual, e essa desigualdade também se expressa entre os trabalhadores da saúde. Temos visto adoecimento dos profissionais e incidindo de uma maneira muito intensa sobre a enfermagem, e, nesta categoria profissional, a maioria é de mulheres. Vemos também aumentar a violência contra as mulheres, num momento que era para estarmos defendendo, como parte do pacto pela vida, um pacto pela paz e por relações sociais de respeito a direitos humanos, dignidade e respeito às diferenças.

“Que a minha posição na presidência não sirva só como um exemplo, mas como um motor de reduzir essa iniquidade”

CH: As ciências sociais têm sido deixadas em segundo plano nos investimentos do atual governo. Como socióloga, qual a importância das ciências sociais nessa pandemia?

NTL: As ciências sociais são importantes em várias áreas, mas, falando especificamente das emergências sanitárias, são fundamentais para pensarmos a dinâmica da circulação de um vírus e seu impacto na sociedade. Além disso, as ciências sociais trabalham com a percepção sobre risco, com as políticas públicas. É impossível enfrentar uma pandemia sem esses recursos. As ciências sociais é que vão permitir que entendamos, por exemplo, que medidas e que comunicação vão ser, de fato, eficientes numa sociedade tão desigual como a nossa. Como mostrou o sociólogo Norbert Elias em O processo civilizador, muitos hábitos que desenvolvemos têm a ver com diferenciação de classe, e esse trabalho foi uma referência importante para estudos sobre as epidemias. Há uma dimensão social muito importante quando falamos que todos podem pegar a doença, mas, ao mesmo tempo, são proteções diferentes de acordo com relações sociais e de poder desiguais. Se ainda tivéssemos entre nós um historiador como Eric Hobsbawn, ele talvez dissesse que o século 21 está começando agora, porque a pandemia vai botar em xeque essa circulação de pessoas e de mercadorias do mundo dito globalizado. Vai evidenciar também as diferenças entre os países com mais e menos condições de proteção e que a proteção depende também de um forte arranjo de política pública do Estado e de uma forte solidariedade social. Tudo isso é sociologia.

CH: Cientistas ligados a Fiocruz de Manaus, entre outros, foram ameaçados por conta das pesquisas que conduzem. Como vê essa situação de coerção da pesquisa e busca de cerceamento do livre pensar por certos grupos sociais?

NTL: A ciência só pode existir com liberdade e ética, são dois princípios básicos. Não quer dizer que os cientistas podem fazer tudo o que querem, por isso, temos comitês de ética que se fortaleceram muito no Brasil. No caso específico que você cita, a minha posição é a que está na nota do nosso conselho deliberativo.

AMB divulga nota sobre sigilo em laudos e exames médicos

fonte: AMB

A AMB tem recebido diversos questionamentos por parte dos seus associados sobre a emissão de atestados e relatórios médicos quando solicitados pela justiça. Em virtude disso, a Associação, respaldada pelo Parecer nº 5/2020 do Conselho Federal de Medicina e pela Lei n. 12.842/13 (Lei do Ato Médico), torna pública a sua posição contrária à apresentação de laudos e exames médicos sem autorização do paciente.

Quando solicitados, tais documentos devem ser apresentados à justiça. Entretanto, o magistrado tem obrigação de resguardar o direito de sigilo e intimidade do paciente, podendo serem divulgados os resultados somente após autorização expressa mesmo. Causa estranheza à AMB que se enxergue com naturalidade a quebra dos direitos de qualquer paciente em benefício da mera divulgação de informações e estatísticas à população.

Em seu entendimento, AMB reafirma que é prerrogativa do médico a realização de diagnósticos de doenças, e que a obrigação de entrega de um laudo complementar isolado, além de inócua, fere o sigilo profissional e a intimidade do paciente.

Leia na íntegra a nota da AMB, Parecer nº 5/2020 do Conselho Federal de Medicina e o ofício feito pela AMB ao Conselho Federal de Medicina, no dia 5 de maio de 2020.

Nota pública da AMB: https://amb.org.br/wp-content/uploads/2020/05/NOTA-AMB-RELATÓRIOS-MÉDICOS-08.5.20-1.pd

Parecer nº 5/2020 do Conselho Federal de Medicina: https://amb.org.br/wp-content/uploads/2020/05/Parecer-CFM-5-2020-relat%C3%B3rio-e-atestado-m%C3%A9dico-publicidade-e-seus-efeitos-1.pdf

Ofício da AMB ao Conselho Federal de Medicina: https://amb.org.br/wp-content/uploads/2020/05/Parecer-CFM-5-2020-relatório-e-atestado-médico-publicidade-e-seus-efeitos-1.pdf. 

Nota técnica da Anvisa aborda reuso de EPIs

fonte: Anvisa

A Anvisa publicou, nesta sexta-feira (8/5), a Nota Técnica 12/2020 da Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES), com informações sobre processamento (reprocessamento) de equipamentos de proteção individual (EPIs). De acordo com o documento, não há, até o momento, evidências científicas consistentes que assegurem a eficácia e a segurança do reúso, pelos profissionais de saúde, de EPIs enquadrados como “PROIBIDO REPROCESSAR” ou “O FABRICANTE RECOMENDA O USO ÚNICO”.

Caso o serviço de saúde ou a empresa processadora opte pelo reprocessamento de EPIs passíveis desse procedimento, deve ser elaborado, validado e implantado pelo serviço ou empresa um protocolo de reprocessamento, conforme estabelecido pela legislação vigente, seguindo as instruções de uso e as especificações dos produtos estabelecidos pelos fabricantes. Protocolos desenvolvidos por outras instituições devem ser revalidados de acordo com as especificidades do processo do serviço de saúde ou da empresa processadora, desde que contemplados todos os requisitos legais.

A legislação brasileira não exige que a empresa peticione autorização à Anvisa ou órgão de vigilância sanitária local para reprocessar um produto para saúde. Conforme a legislação vigente, os protocolos de validação, bem como as avaliações, processos de trabalho e procedimentos operacionais, devem ser elaborados e devidamente documentados pela empresa processadora e pelo serviço de saúde, devendo estar à disposição da autoridade sanitária para fins de inspeção e fiscalização.

Recomenda-se que o serviço de saúde elabore orientação para uso racional dos EPIs sem prejudicar a segurança do usuário, adotando o reprocessamento somente quando um procedimento seguro e factível demonstrar equivalência a um produto para saúde novo.

Confira aqui a íntegra da Nota técnica 12/2020 da GGTES.