Perfis SOBED-RJ

Dia das Mães: SOBED-RJ mostra um pouco da rotina de ser mãe e endoscopista

O segundo domingo de maio é o dia delas. Assim, é comemorado desde 1932, quando a data foi instituída no Brasil! Com muito orgulho, a SOBED-RJ parabeniza todas as mães endoscopistas e, neste dia especial, conversou com duas associadas, tendo em vista retratar a rotina de ser mãe e endoscopista.  As Dras. Elizabeth Castro e Paula Peruzzi têm muito em comum além do “malabarismo”, como elas mesmo definem, para conciliar maternidade e carreira.

Casada e mãe de três filhos, Dra. Elizabeth Castro é especialista em Endoscopia Digestiva. Formou-se pela UERJ em 1982, fez residência e mestrado na UFRJ, e depois passou no concurso como médica do HUCFF-UFRJ. Primeiramente, atuou na área clínica, no CTI, e depois foi admitida no tão sonhado Serviço de Endoscopia, o qual já acompanhava extra oficialmente desde a sua tese de mestrado sobre hepatites autoimunes.

“Quando eu terminei a minha residência, houve concurso para área clínica, no CTI, e passei, em 1989. Então, fora do meu horário, eu frequentava, o serviço de Endoscopia Digestiva. O meu treinamento foi feito dessa forma, até que eu consegui ser liberada do CTI, para integrar o staff da endoscopia, em 1992. Sempre tive esse objetivo, mas atingir não foi algo tão direto assim. Naquela época, eu acho que eu tinha uma carga horária de trabalho de 70 horas por semana”, brinca.

Dra. Elizabeth treinou diversos residentes e se dedicou ao trabalho no HUCFF, como membro do staff da endoscopia, até 2002. De 2016 a 2018, foi presidente da SOBED-RJ. Hoje, ela continua no time de endoscopistas do Hospital Federal de Ipanema, onde sempre trabalhou em paralelo, desde 1992. E se sente uma mãe e uma profissional realizada:

“Eu fui mãe aos 34 anos. Primeiro, veio a Lilian. Eu já tinha terminado o mestrado e minha carreira já estava mais definida. Ao retornar da licença maternidade, iniciei no Hospital de Ipanema, em outubro de 1992. Lembro que foi o nascimento dela que me deu coragem para tomar decisões que foram importantes na minha carreira, como a minha transferência do CTI do HUCFF para o serviço de endoscopia, no mesmo ano, pois fui assertiva ao deixar claro que não mais poderia acumular as duas funções. Três anos depois, vieram os gêmeos Fabio e Gustavo. Foi uma loucura. Foi difícil. Mas não me arrependo de nada. Mesmo com todas as dificuldades que tive no caminho, eu acabei fazendo o que gosto. Acho que isso é um privilégio. São poucas mulheres que tem o privilégio de trabalharem naquilo que gostam. E acho que hoje em dia está bem melhor. Existem muitas mulheres fazendo Endoscopia Digestiva. A Paula foi minha residente. Eu participei do treinamento dela e vê-la hoje como uma pessoa de referência é uma satisfação enorme. Me orgulho muito de vê-la”, conclui a Dra. Elizabeth.

A Paula que a Dra. Elizabeth Castro menciona é a Dra. Paula Peruzzi, casada e mãe de dois filhos e uma enteada, que é especialista em Endoscopia Digestiva Pediátrica. Formou-se pela UFRJ, em 1999, onde realizou residência, mestrado e doutorado em Gastroenterologia. Hoje, atua nos Serviços de Endoscopia Digestiva Pediátrica do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e do Hospital Estadual da Criança.

“A escolha da Endoscopia Pediátrica aconteceu antes de engravidar. Eu sempre quis trabalhar com crianças, mas não me interessava pela área clínica da pediatria. Durante a residência me interessei muito pela Endoscopia Digestiva. Tinha um turno que a querida Beth, Dra. Maria Elizabeth Castro, com quem tenho a honra de participar junto nesta entrevista, fazia exames no HUCFF-UFRJ de crianças escolares e adolescentes. Eu adorava participar! Ao acabar a residência, uma grande amiga de faculdade, anestesista pediátrica, me sugeriu fazer a especialização no Instituto Fernandes Figueira. E eu me apaixonei pela Endoscopia Pediátrica”, recorda Dra. Paula.

Em 2003, Dra. Paula concluiu a Capacitação Profissional em Endoscopia Digestiva Pediátrica do IFF. Em 2005, terminou o mestrado. E em 2006, veio a maternidade junto com a aprovação no concurso da Fiocruz.

“Me tornei mãe em junho de 2006, no início da minha carreira. Fiz concurso para ingressar no IFF no sexto mês de gestação do Lucas, e a prova de título de especialista da SOBED já grávida da Manu. Brinco com eles dizendo que sempre me ajudaram a passar nas provas, e eles adoram! Mas confesso que foi bastante difícil no início conciliar a maternidade e a Medicina. Os meus filhos tiveram que ir cedo para a creche do IFF e eu fiz questão de continuar amamentando. Então, foi uma fase bem cansativa, levava bomba de leite e geladeira térmica para o trabalho. No entanto, a parte mais complicada foi o doutorado, com dois filhos pequenos e trabalhando. Tive algumas mudanças na minha vida pessoal durante o período e, realmente, cheguei a pensar que não daria conta. Mas o suporte de avós presentes, meus pais e a babá da minha infância, foi fundamental para conseguir concluir meus projetos. Tinha pouco tempo livre para mim. Demorei mais do que pretendia para defender a tese, mas hoje vejo que valeu a pena toda dedicação. Meus filhos se orgulham e vibram com cada conquista”, ressalta Dra. Paula.

Dra. Paula, que concluiu o doutorado em 2016, ressalta que a Medicina não é uma profissão em que se pode exercer sem dedicação e atualização. Por isso, aliar esta escolha com a maternidade sempre foi desafiador.

“Eu nunca abri mão de estudar e me dedicar com seriedade ao trabalho que amo. No entanto, é impossível fazer tudo que gostaria profissionalmente, sem me ausentar ainda mais da vida dos meus filhos. Recentemente, fiz um estágio em um hospital pediátrico na Califórnia e fiquei um período bem menor do que desejava, pois seria bastante tempo longe deles. Muitas vezes não consigo aprender todos os métodos endoscópicos que gostaria, realizar todos os cursos que planejava, e nem aceitar alguns convites, até mesmo na SOBED. As crianças estão em uma fase que ainda precisam muito da minha presença e esse tempo não vai voltar. Algumas escolhas profissionais podem esperar, e talvez “essa espera” faça com que alguns projetos nunca aconteçam, perca o momento. Mas, tudo bem, essa é uma das maravilhas da maternidade: compreender que todas as escolhas envolvem renúncias. Sou bastante grata ao que consegui conquistar até aqui”, finaliza.

Dra. Elizabeth também reconhece que a especialidade escolhida sempre exigiu muita disponibilidade para o trabalho:

“Você tinha que ser insistente e o mercado de trabalho ainda é pior para a mulher em todas as áreas, principalmente, quando você está no início da carreira, que te exige tudo ou nada. Ou você estava disponível sempre para qualquer emergência, e naquela época as emergências em endoscopia eram muito mais frequentes do que hoje, ou você era aquela pessoa com quem não dava para contar. Você era riscada da lista de contatos”, lembra.

Segundo ela, os próprios filhos brincavam com essa questão de terem uma mãe muito ocupada:

“Quando a minha filha tinha 8 anos ela chegou a dizer que a minha profissão devia ser muito divertida. Ela questionou: se você diz que ganha pouco, que trabalha muito, que queria ficar mais com a gente, mas que não pode, e mesmo assim, você continua fazendo isso, é por que deve ser muito divertido!!”

E complementa com outra lembrança:

“Quando os meus filhos eram pequenos e o telefone tocava, eles já sabiam que iriam perder a mamãe para o trabalho. Principalmente, quando reconheciam os médicos que ligavam, como era o caso do Dr. José Flávio, pai do Dr. Djalma Coelho, atual presidente da SOBED-RJ”, brinca Dra. Elizabeth.

Para as duas endoscopistas, a maternidade aflorou o lado mais sensível no trato com os pacientes. Dra. Elizabeth diz:

“Ser mulher já te dá uma visão um pouco diferente das coisas, independente de ser mãe, em termos de cuidado. Eu acho que a maternidade me fez ficar muito mais sensível quando eu vejo uma mãe sofrendo com a doença de um filho ou um pai sofrendo. Eu sabia que era uma coisa dolorosa, mas eu não sabia quão dolorosa poderia ser”, comenta.

Já a Dra. Paula ressalta:

“Após me tornar mãe, compreendi melhor este amor incondicional entre mãe e filho. Compreendi que a expectativa de um filho é de alegria, e que o processo de adoecimento de uma criança envolve uma série de frustrações e temores dos pais. Nós médicos, em especial os pediatras, escolhemos tratar estes pacientes. Mas as mães, estas jamais escolheram ter um filho doente. A maternidade me deu mais tolerância e empatia na relação médico-paciente, principalmente com as mães de crianças especiais e com doenças crônicas, que tanto respeito e admiro. Aprendo a cada dia com elas, como profissional e como mãe também.”

Nesse Dia das Mães, o que elas desejam é que as mulheres continuem fazendo trabalhos de excelência na endoscopia.

Filhos: Lilian (28), Fábio e Gustavo (24 anos)

Dra. Elizabeth (mãe da Lilian, do Fabio e do Gustavo):

“A SOBED abriga jovens e estimula a todos. Temos que agradecer ao nosso presidente, Dr. Djalma, por esse olhar mais feminino e trazer esse assunto a discussão. Tenho muito a agradecer a todos que me ensinaram, e como sou muito grata a todos, faço questão de ensinar também, para que brilhem no futuro. Aproveito para agradecer aos meus preceptores, e em especial, à chefe do serviço de Ipanema, Dra. Ana Zuccaro, que é uma pessoa que sempre incentivou muito o trabalho de todos”, conclui.

Filhos: Lucas (13), Manuela (10) e enteada Fernanda (14 anos)

Dra. Paula (mãe do Lucas, da Manuela e da enteada Fernanda):

“Aproveito para agradecer ao Dr. Djalma pelo convite e pela homenagem às mães endoscopistas. Fica aqui toda minha admiração pelas minhas colegas de trabalho endoscopistas e mães, muitas que tive o prazer em trabalhar junto e representar nesta entrevista, contando um pouco da minha história. Cada uma com suas dificuldades, mas que seguem se equilibrando nesta árdua tarefa de exercer tantas funções ao mesmo tempo. Para as endoscopistas mais jovens, não tenham medo da maternidade atrapalhar a carreira. É inevitável que interfira em alguns momentos, mas os filhos nos dão força que não imaginamos ter”, diz.

Diante da pandemia de covid-19, elas deixaram a seguinte mensagem:

Dra. Paula:

“Para as minhas colegas endoscopistas que também continuam trabalhando durante esta pandemia, segue minha admiração. Quero também parabenizar a diretoria da SOBED por ter se posicionado e elaborado prontamente um documento para endoscopia segura durante a pandemia de covid 19. Não está sendo fácil sair para trabalhar com tantas preocupações e angústias, mas as outras doenças não param e muitos dos nossos pacientes não podem esperar isto tudo acabar. Por favor, protejam-se com os EPIs adequados. É maravilhoso o rótulo de “super-heróis”, mas o único super poder dos profissionais de saúde é a CORAGEM de arriscar a própria vida e de nossas famílias, para continuar honrando um juramento que fizemos. Precisamos estar protegidas para continuarmos presentes na vida de quem amamos e onde realmente somos insubstituíveis: na vida de nossos filhos! Para as profissionais de todas as áreas que estão na linha de frente desta pandemia, em especial as intensivistas e enfermeiras de CTI, MUITO OBRIGADA!!! É incrível o que tem feito pela nossa população!! Vocês são admiráveis!!!!!”, afirma.

Dra. Elizabeth:

“A covid-19 praticamente paralisou todos os serviços públicos e privados de endoscopia. Isso nos faz refletir o quanto a medicina avançou pois os casos emergenciais de hemorragia digestiva diminuíram muito. Hoje em dia, a endoscopia é muito mais atribuída para diagnósticos e tratamentos variados. Até existem procedimentos cirúrgicos, mas na maioria são eletivos. Então, vamos usar os EPIs e esperar que este momento difícil passe”, comenta.

GALERIA DE FOTOS Dra. Paula Peruzzi

GALERIA DE FOTOS Dra. Elizabeth Castro

Perfil: Dr. Alexandre Abrão Neto

Carioca, nascido em 20 de maio de 1949, ele se tornaria estudante de Medicina da UERJ e passaria a fazer os primeiros exames endoscópicos em 1972. Hoje, o Dr. Alexandre Abrão Neto é o chefe do Serviço de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da UERJ. Orgulho e dedicação definem a sua trajetória:

“Entrei na UERJ em 1968. Me formei em 1973. Fiz residência lá, mestrado na UFRJ e doutorado na UERJ, também. Basicamente, eu vi toda evolução da endoscopia. Eu diria que hoje o serviço de endoscopia da UERJ não deve nada a nenhum centro de endoscopia americano ou europeu. Hoje, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, nós fazemos todos os métodos endoscópicos que existem, inclusive, cápsula endoscópica e ecoendoscopia, com exceção, da enteroscopia com duplo balão, por ser muito caro e de pouquíssima indicação. Já a residência médica é privilegiada. Anualmente, nós formamos 4 profissionais. São 2 anos de residência, e em geral, eles saem preparados para o mercado brasileiro e internacional.”

Para o Dr. Alexandre Abrão, o sucesso do serviço de endoscopia da UERJ se deve ao esforço de muitos profissionais que, assim como ele, trabalharam com os mais diversos aparelhos e materiais ao longo dos anos:

“A UERJ, em 1972, só contava com um endoscópio rígido (Chevalier-Jackson). O paciente era colocado em decúbito dorsal (com a barriga para cima) e a gente via o esôfago, por visão direta. Depois, com o indivíduo em decúbito lateral esquerdo, a gente passava o gastroscópio (Olympus-GTFA, de visão lateral), e conseguia ver o estômago. Na época, não dava para ver o duodeno. E desse jeito trabalhamos por muitos anos. Só em 1976/77 que a gente fez a primeira colonoscopia, com um aparelho muito grosso e muito difícil de fazer a sedação, com diazepam na veia. Era um exame muito complicado. Além disso, os exames eram feitos só uma vez por semana; durante uma manhã junto com a broncoscopia, que a gente fazia também.”

Além da UERJ, Dr. Alexandre relembra dos primeiros serviços públicos que realizavam endoscopia digestiva, na década de 70, como o Hospital Municipal Miguel Couto, com o Dr. Glaciomar Machado que fazia os exames; o Hospital do Andaraí, com o Dr. Luiz Leite Luna, que mais tarde abriria o Centro de Hemorragia Digestiva, hoje uma referência nacional; além da Santa Casa da Misericórdia, e do antigo Iaserj (Instituto Estadual de Assistência ao Servidor Público), na Cruz Vermelha. Ele recorda que os hospitais da UFRJ eram espalhados pela cidade, já que não existia ainda o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, inaugurado só em 1978.

“Eu sei que o primeiro videoendoscópio em hospital público foi a UERJ que teve, no HUPE. O material era da Welsh-Allyn. E houve uma evolução muito grande. Pois você via as endoscopias através da objetiva, quer dizer, com o olho na câmera, e depois com a videoendoscopia a gente passou a olhar pra televisão. Inclusive, antes disso, toda colonoscopia era com objetiva. Era olho no endoscópio, era uma coisa muito primária. Já com a videoendoscopia, passou-se a fotografar, a filmar. Foi um grande salto!”

Outra evolução muito significativa veio com a laparoscopia. Dr. Alexandre ressalta a importância de seu professor Dr. Edson Jurado, que era o grande chefe na época desta área, na UERJ:

“A gente desenvolveu a laparoscopia de urgência pois não existia ultrassonografia. Então, se a pessoa tinha um abdômen agudo, tipo uma apendicite ou uma gravidez tubária, não tinha ultrassom, só raio-x. Então, na época, a gente desenvolveu a laparoscopia de urgência e a laparoscopia eletiva para fazer biópsia de fígado, biópsia de peritônio e biópsia de baço, desenvolvida pelo Dr. Paulo Pinho, na década de 80. Obviamente, fomos basicamente nós, endoscopistas, que ensinamos aos cirurgiões a fazer laparoscopia. A partir daí, eles desenvolveram cirurgia laparoscópica, cujo pioneiro foi Dr. Delta Madureira, aqui no Rio de Janeiro, que é cirurgião. E também o Dr. José Dib Mourad, também cirurgião, que aprendeu a fazer laparoscopia conosco, em conjunto com o Dr. Paulo Pinho, eminente endoscopista e professor em atividade no HUPE. Eu atuei sempre na UERJ, junto com o Dr. Edson Jurado, que foi o meu professor e trabalhávamos juntos! Ele voltou dos EUA, e então, em 1972, eu ainda era estudante e comecei a trabalhar com ele. Depois, fui residente dele em 1974/75”, relata.

Para estar sempre atualizado, Dr. Alexandre costumava viajar para Alemanha, França e Nova Iorque.

“A gente visitava os serviços que eram referência, como o do Dr. Jerome Waye, um excelente colonoscopista à época, com o qual nós aprendemos muita coisa. A gente via como eles trabalhavam e tentávamos fazer isso aqui com sucesso. Mas também tinha muita coisa que fazíamos e que ensinávamos para eles. Inclusive, o Dr. Glaciomar Machado, nesse ponto era mestre. Ele levou para Alemanha algumas de suas técnicas e estas passaram a ser desenvolvidas lá, graças a ele!”

Além da carreira científica, Dr. Alexandre ocupou diversos cargos relevantes. Foi presidente da SOBED-RJ, de 1986 a 1988. Foi secretário da Sociedade Pan-Americana de Endoscopia Digestiva e secretário-geral da Organização Mundial de Endoscopia Digestiva. Também editou vários capítulos de livros de Endoscopia Digestiva e Gastroenterologia, além de muitos artigos.

Atualmente, ele encara um novo desafio, talvez o maior até hoje: em conjunto com mais 28 médicos de sua equipe colabora no controle da epidemia do coronavírus, já que o HUPE é referência para doentes graves do covid-19.

“Os doentes menos graves devem ficar no Hospital Acari e os mais graves, que precisam de respirador e CTI, devem ir para o Hospital Pedro Ernesto. Nós vamos ajudar, cada um fazendo a sua parte. Quem está à frente é o diretor do hospital, Dr. Ronaldo Damião, e o secretário de saúde, Dr. Edmar Santos.”

Perfil: Dr. Cleber Vargas

Em 1962, ele partia de Guaçuí, no Espírito Santo, para prestar vestibular de medicina no Rio de Janeiro, onde mais tarde teria a felicidade de assistir o nascimento da Endoscopia Digestiva, em 1969.

Dr. Cleber Vargas é um daqueles endoscopistas que não escondem o orgulho pela profissão e mais ainda de ter sido sócio fundador da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva -Estadual do Rio de Janeiro, em 1978, juntamente com um grupo enorme de colegas.

Como ex-presidente da SOBED RJ, de 1982 a 1984, ele recorda o espírito de convivência que sempre existiu, e que segundo ele, permitiu o intercâmbio de conhecimentos e o progresso da endoscopia no Brasil.

“Eu acho que o grupo que geriu a SOBED conseguiu aglomerar especialistas de várias regiões do país. Nos dávamos muito bem porque o espírito de trabalho e os objetivos eram os mesmos, isso facilitou muito o progresso da sociedade e atraiu cada vez mais médicos, o que trouxe um desenvolvimento importantíssimo do número de pessoas para aderir e aprender a especialidade. A cada novidade a gente absorvia imediatamente e isso nos colocou no 1° time da endoscopia mundial”, ressalta Dr. Cleber Vargas.

Formado pela Faculdade Nacional de Medicina (atual UFRJ), ele participou da inauguração do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), e coleciona muitas histórias do início da carreira:

“Quando eu me formei só existia praticamente a endoscopia rígida, aquela endoscopia com os tubos. Seja um tubo que era introduzido no esôfago ou um tubo que era introduzido pela traqueia. Então, nós assistimos nascer pelos anos de 1969/1970, os fibroscópios. Primeiro saiu um fibroscópio que a gente não via diretamente, era um fibroscópio chamado endoscópio, a imagem era projetada numa tela e você não via diretamente. Porque não era fibroscópio, era um endoscópio que tinha uma lâmpada na ponta que justamente iluminava e trazia a imagem para fora. Mas isso durou pouco porque, um pouco antes dos anos 70, os japoneses lançaram o fibroscópio, que era um endoscópio de fibra de vidro que transmitia a imagem diretamente. Você observava como se tivesse lá dentro olhando o intestino, o estômago. Essa foi a fase inicial da endoscopia. Depois, então, foi possível projetar a imagem em tela de televisão: a videoendoscopia. Quer dizer, você não precisava ficar olhando diretamente no aparelho para ver o que estava dentro do estômago, ou do intestino, e sim, a imagem do endoscópio era projetada numa tela de televisão e você confortavelmente via”, relata.

Dr. Cleber fez residência médica na Santa Casa do Rio de Janeiro, trabalhou no Hospital Federal do Andaraí por 15 anos e no Hospital Federal de Ipanema pelo mesmo período e também atuou no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ). Ele relembra como as novas tecnologias foram sendo incorporadas e auxiliaram na realização dos exames:

“Utilizar o aparelho para observar internamente foi só a 1° etapa. A etapa seguinte foi você vendo a doença, a operação, e o problema pelo endoscópio. Passávamos a atuar. Com isso, desenvolvemos diversos procedimentos que permitiram não só ver a doença, mas como tratar dela. Como exemplos, cito a polipectomia, depois esclerose de varizes, coagulação de vasos, introdução de próteses. Antes disso, também pelo endoscópio, foi possível “abrir a passagem para a comida passar” ou seja, a dilatação por endoscopia. Já logo depois da década de 70 foi o início da chamada endoscopia terapêutica, quer dizer, começou-se a trabalhar, a agir, a manusear dentro do estômago ou do intestino para tratar as doenças. E logo depois, veio a abordagem da via biliar através da colangeopancreatografia endoscópica”, afirma.

Dr. Cleber relembra os pioneiros da Endoscopia Digestiva no país: “Quem primeiro introduziu a técnica foi um colega nosso: o Dr. Glaciomar Machado, aqui no Rio de Janeiro. E depois vários outros médicos começaram a fazer: Dr. Luiz Leite Luna, Dr. Penteado, entre outros.”

Segundo Dr. Cleber, o conhecimento era difundido no Brasil através do intercâmbio com mestres do exterior, principalmente da Europa e EUA, que vinham a convite da SOBED para dar aulas e demonstrações.

“A segunda maneira era ir pessoalmente aonde estavam estes professores e passar com eles um tempo aprendendo o trabalho. Foi um aprendizado de duas vias. Não só os professores eram trazidos para nos ensinar, como também muitos de nós fomos até Estados Unidos, Europa (França, Alemanha) para completar lá os estudos. Houve esse intercâmbio muito benéfico para nós da endoscopia. Destaco o Dr. Claude Liguory (França), o Dr. Classen e o Dr. Jerome Waye (EUA).

Para este capixaba, nascido em 22 de outubro, falar sobre a endoscopia digestiva é reviver a sua própria história:

“Me senti feliz e realizado por ter sido premiado pela especialidade ter surgido justamente na minha época. Eu devo a ela toda satisfação profissional que eu tenho porque eu vi nascer, crescer e dar frutos, é como se fosse parte de mim. Então, é por isso que eu tenho a endoscopia como uma coisa preciosa.”

Perfil: Dr. Luiz Leite Luna

A SOBED-RJ começa nesta semana uma série de matérias especiais mostrando perfis de grandes nomes da endoscopia digestiva fluminense. O nosso primeiro convidado é o Dr. Luiz Leite Luna.

Em 1967, a “Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil” (atual UFRJ) formava um jovem médico endoscopista que se tornaria referência na área.

Dr. Luiz Leite Luna, nasceu em Penedo (Alagoas), em 12 de dezembro de 1943, mas foi no Rio de Janeiro que construiu a base da sua trajetória profissional.

Realizou Residência Médica na própria universidade, em 1968, e fez fellowship em Boston, na Lahey Clinic Boston S.A, de 1969 a 1971.

“Quando eu cheguei aqui no Rio, em 1972, já funcionava o Hospital do Andaraí, onde fui trabalhar. Durante todo o período em que atuei neste hospital público eu assumi o serviço de endoscopia e fiz o 1º Centro de Hemorragia Digestiva do Brasil e talvez o primeiro do mundo! Do Brasil certamente foi o primeiro. Vinha todo mundo ver esse serviço pioneiro”, recordou Dr. Luna.

Além de trabalhar em sua clínica particular, Dr. Luna atendia em praticamente todos os hospitais da cidade. Segundo ele, eram quatro noites por semana para fazer emergências nos hospitais do Rio de Janeiro.

Ele relembrou como eram realizados os exames endoscópicos no início da sua carreira:

“Eu já peguei fibra de vidro, já peguei os fibroscópios Olympus e as gastrocâmaras. E logo em 1971 veio os fibroscópios, que se chamavam GIFD. Tinham os coledoscópios curtos da Olympus, chamados CFSD.”

Dr. Luna ressaltou que todo o material usado em seu trabalho era feito de forma artesanal:

“No começo, só pinça de biópsia pois a gente não fazia nenhum procedimento cirúrgico. Mas a partir de 1974, a gente começou a usar alças e agulhas de injeção que a gente mesmo fabricava. Não tinha nada comercial ainda. A gente que fazia com cateter, agulhinha de insulina. E as primeiras sondas de gastrostomia também eramos nós que fazíamos, com sondas urológicas.”

A partir de 1976, ele relembra o início da Endoscopia Digestiva Alta, realizada no Hospital Federal de Ipanema, Hospital Federal de Bonsucesso, Hospital Federal dos Servidores do Estado.

“De início era somente diagnóstico. Logo depois, em 74, a gente começou a tratar hemorragia digestiva através de esclerose e de eletrocoagulação. Um pouco mais pra frente a gente começou a fazer ligadura elástica nas varizes e começamos também a tirar, a injetar. Por volta de 1967, começamos a tirar os polímeros, as politectomias. E em 1974, eu fiz a primeira ensfincterotomia endoscópica para cálculo, ou seja a primeira papilotomia endoscópica.”

Entre outros avanços da década de 70, ele destaca a colocação de prótese em esôfago, para tumores de esôfago, além de dilatações de esôfago.

Mesmo vivendo em solo carioca, Dr. Luiz Leite Luna, nunca deixou de viajar para o exterior para se atualizar.

“Todo ano eu ia aos congressos americanos, além de viajar para França e Alemanha, trocar experiência com os amigos de lá. Na França, via os serviços do Claude Legori, que veio muito à SOBED a meu convite, e na Alemanha eu fui algumas vezes ver o serviço do Dr. Demling, que era um professor famoso, também do Prof. Lazo Safrani, logo no começo da papilotomia. Inclusive, o Dr. Claude Legori fez, em 1973, a primeira papilotomia endoscópica no Brasil, em Niterói, e eu estava junto.”

Segundo ele, só existiam duas revistas especializadas, as quais ele sempre recebia: Endoscopy e o Gastro Intestinal Endoscopy.

Dr. Luna também fundou o atual serviço de Endoscopia do Hospital São Vicente de Paula. Foi fundador, membro honorário da SOBED e presidiu a Sociedade de 1992 a 1994. É membro da Sociedade de Gastroenterologia, desde 1972, e foi membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Através da SOBED, editou quatro livros sobre atualizações em endoscopia digestiva:2

2014 – “Atualizações em hemorragia digestiva”

2016- “Atualização em terapêutica no esôfago”

2018- “Atualização e terapêutica no estômago e intestino delgado”

2019- “Atualização terapêutica nos cólons”

Com uma carreira brilhante na bagagem, encerramos a entrevista perguntando qual seria o seu maior feito. A resposta:

“Quatro filhos foi a minha melhor obra, com certeza.”