Perfis SOBED-RJ

Perfil: Dr. Cleber Vargas

Em 1962, ele partia de Guaçuí, no Espírito Santo, para prestar vestibular de medicina no Rio de Janeiro, onde mais tarde teria a felicidade de assistir o nascimento da Endoscopia Digestiva, em 1969.

Dr. Cleber Vargas é um daqueles endoscopistas que não escondem o orgulho pela profissão e mais ainda de ter sido sócio fundador da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva -Estadual do Rio de Janeiro, em 1978, juntamente com um grupo enorme de colegas.

Como ex-presidente da SOBED RJ, de 1982 a 1984, ele recorda o espírito de convivência que sempre existiu, e que segundo ele, permitiu o intercâmbio de conhecimentos e o progresso da endoscopia no Brasil.

“Eu acho que o grupo que geriu a SOBED conseguiu aglomerar especialistas de várias regiões do país. Nos dávamos muito bem porque o espírito de trabalho e os objetivos eram os mesmos, isso facilitou muito o progresso da sociedade e atraiu cada vez mais médicos, o que trouxe um desenvolvimento importantíssimo do número de pessoas para aderir e aprender a especialidade. A cada novidade a gente absorvia imediatamente e isso nos colocou no 1° time da endoscopia mundial”, ressalta Dr. Cleber Vargas.

Formado pela Faculdade Nacional de Medicina (atual UFRJ), ele participou da inauguração do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), e coleciona muitas histórias do início da carreira:

“Quando eu me formei só existia praticamente a endoscopia rígida, aquela endoscopia com os tubos. Seja um tubo que era introduzido no esôfago ou um tubo que era introduzido pela traqueia. Então, nós assistimos nascer pelos anos de 1969/1970, os fibroscópios. Primeiro saiu um fibroscópio que a gente não via diretamente, era um fibroscópio chamado endoscópio, a imagem era projetada numa tela e você não via diretamente. Porque não era fibroscópio, era um endoscópio que tinha uma lâmpada na ponta que justamente iluminava e trazia a imagem para fora. Mas isso durou pouco porque, um pouco antes dos anos 70, os japoneses lançaram o fibroscópio, que era um endoscópio de fibra de vidro que transmitia a imagem diretamente. Você observava como se tivesse lá dentro olhando o intestino, o estômago. Essa foi a fase inicial da endoscopia. Depois, então, foi possível projetar a imagem em tela de televisão: a videoendoscopia. Quer dizer, você não precisava ficar olhando diretamente no aparelho para ver o que estava dentro do estômago, ou do intestino, e sim, a imagem do endoscópio era projetada numa tela de televisão e você confortavelmente via”, relata.

Dr. Cleber fez residência médica na Santa Casa do Rio de Janeiro, trabalhou no Hospital Federal do Andaraí por 15 anos e no Hospital Federal de Ipanema pelo mesmo período e também atuou no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ). Ele relembra como as novas tecnologias foram sendo incorporadas e auxiliaram na realização dos exames:

“Utilizar o aparelho para observar internamente foi só a 1° etapa. A etapa seguinte foi você vendo a doença, a operação, e o problema pelo endoscópio. Passávamos a atuar. Com isso, desenvolvemos diversos procedimentos que permitiram não só ver a doença, mas como tratar dela. Como exemplos, cito a polipectomia, depois esclerose de varizes, coagulação de vasos, introdução de próteses. Antes disso, também pelo endoscópio, foi possível “abrir a passagem para a comida passar” ou seja, a dilatação por endoscopia. Já logo depois da década de 70 foi o início da chamada endoscopia terapêutica, quer dizer, começou-se a trabalhar, a agir, a manusear dentro do estômago ou do intestino para tratar as doenças. E logo depois, veio a abordagem da via biliar através da colangeopancreatografia endoscópica”, afirma.

Dr. Cleber relembra os pioneiros da Endoscopia Digestiva no país: “Quem primeiro introduziu a técnica foi um colega nosso: o Dr. Glaciomar Machado, aqui no Rio de Janeiro. E depois vários outros médicos começaram a fazer: Dr. Luiz Leite Luna, Dr. Penteado, entre outros.”

Segundo Dr. Cleber, o conhecimento era difundido no Brasil através do intercâmbio com mestres do exterior, principalmente da Europa e EUA, que vinham a convite da SOBED para dar aulas e demonstrações.

“A segunda maneira era ir pessoalmente aonde estavam estes professores e passar com eles um tempo aprendendo o trabalho. Foi um aprendizado de duas vias. Não só os professores eram trazidos para nos ensinar, como também muitos de nós fomos até Estados Unidos, Europa (França, Alemanha) para completar lá os estudos. Houve esse intercâmbio muito benéfico para nós da endoscopia. Destaco o Dr. Claude Liguory (França), o Dr. Classen e o Dr. Jerome Waye (EUA).

Para este capixaba, nascido em 22 de outubro, falar sobre a endoscopia digestiva é reviver a sua própria história:

“Me senti feliz e realizado por ter sido premiado pela especialidade ter surgido justamente na minha época. Eu devo a ela toda satisfação profissional que eu tenho porque eu vi nascer, crescer e dar frutos, é como se fosse parte de mim. Então, é por isso que eu tenho a endoscopia como uma coisa preciosa.”

Perfil: Dr. Luiz Leite Luna

A SOBED-RJ começa nesta semana uma série de matérias especiais mostrando perfis de grandes nomes da endoscopia digestiva fluminense. O nosso primeiro convidado é o Dr. Luiz Leite Luna.

Em 1967, a “Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil” (atual UFRJ) formava um jovem médico endoscopista que se tornaria referência na área.

Dr. Luiz Leite Luna, nasceu em Penedo (Alagoas), em 12 de dezembro de 1943, mas foi no Rio de Janeiro que construiu a base da sua trajetória profissional.

Realizou Residência Médica na própria universidade, em 1968, e fez fellowship em Boston, na Lahey Clinic Boston S.A, de 1969 a 1971.

“Quando eu cheguei aqui no Rio, em 1972, já funcionava o Hospital do Andaraí, onde fui trabalhar. Durante todo o período em que atuei neste hospital público eu assumi o serviço de endoscopia e fiz o 1º Centro de Hemorragia Digestiva do Brasil e talvez o primeiro do mundo! Do Brasil certamente foi o primeiro. Vinha todo mundo ver esse serviço pioneiro”, recordou Dr. Luna.

Além de trabalhar em sua clínica particular, Dr. Luna atendia em praticamente todos os hospitais da cidade. Segundo ele, eram quatro noites por semana para fazer emergências nos hospitais do Rio de Janeiro.

Ele relembrou como eram realizados os exames endoscópicos no início da sua carreira:

“Eu já peguei fibra de vidro, já peguei os fibroscópios Olympus e as gastrocâmaras. E logo em 1971 veio os fibroscópios, que se chamavam GIFD. Tinham os coledoscópios curtos da Olympus, chamados CFSD.”

Dr. Luna ressaltou que todo o material usado em seu trabalho era feito de forma artesanal:

“No começo, só pinça de biópsia pois a gente não fazia nenhum procedimento cirúrgico. Mas a partir de 1974, a gente começou a usar alças e agulhas de injeção que a gente mesmo fabricava. Não tinha nada comercial ainda. A gente que fazia com cateter, agulhinha de insulina. E as primeiras sondas de gastrostomia também eramos nós que fazíamos, com sondas urológicas.”

A partir de 1976, ele relembra o início da Endoscopia Digestiva Alta, realizada no Hospital Federal de Ipanema, Hospital Federal de Bonsucesso, Hospital Federal dos Servidores do Estado.

“De início era somente diagnóstico. Logo depois, em 74, a gente começou a tratar hemorragia digestiva através de esclerose e de eletrocoagulação. Um pouco mais pra frente a gente começou a fazer ligadura elástica nas varizes e começamos também a tirar, a injetar. Por volta de 1967, começamos a tirar os polímeros, as politectomias. E em 1974, eu fiz a primeira ensfincterotomia endoscópica para cálculo, ou seja a primeira papilotomia endoscópica.”

Entre outros avanços da década de 70, ele destaca a colocação de prótese em esôfago, para tumores de esôfago, além de dilatações de esôfago.

Mesmo vivendo em solo carioca, Dr. Luiz Leite Luna, nunca deixou de viajar para o exterior para se atualizar.

“Todo ano eu ia aos congressos americanos, além de viajar para França e Alemanha, trocar experiência com os amigos de lá. Na França, via os serviços do Claude Legori, que veio muito à SOBED a meu convite, e na Alemanha eu fui algumas vezes ver o serviço do Dr. Demling, que era um professor famoso, também do Prof. Lazo Safrani, logo no começo da papilotomia. Inclusive, o Dr. Claude Legori fez, em 1973, a primeira papilotomia endoscópica no Brasil, em Niterói, e eu estava junto.”

Segundo ele, só existiam duas revistas especializadas, as quais ele sempre recebia: Endoscopy e o Gastro Intestinal Endoscopy.

Dr. Luna também fundou o atual serviço de Endoscopia do Hospital São Vicente de Paula. Foi fundador, membro honorário da SOBED e presidiu a Sociedade de 1992 a 1994. É membro da Sociedade de Gastroenterologia, desde 1972, e foi membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Através da SOBED, editou quatro livros sobre atualizações em endoscopia digestiva:2

2014 – “Atualizações em hemorragia digestiva”

2016- “Atualização em terapêutica no esôfago”

2018- “Atualização e terapêutica no estômago e intestino delgado”

2019- “Atualização terapêutica nos cólons”

Com uma carreira brilhante na bagagem, encerramos a entrevista perguntando qual seria o seu maior feito. A resposta:

“Quatro filhos foi a minha melhor obra, com certeza.”

Perfil: Dr. Alexandre Abrão Neto

Carioca, nascido em 20 de maio de 1949, ele se tornaria estudante de Medicina da UERJ e passaria a fazer os primeiros exames endoscópicos, em 1972. Hoje, o Dr. Alexandre Abrão Neto é o Chefe do Serviço de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da UERJ. Orgulho e dedicação definem a sua trajetória:

“Entrei na UERJ em 1968. Me formei em 1973. Fiz residência lá, mestrado na UFRJ e doutorado na UERJ, também. Basicamente, eu vi toda evolução da endoscopia. Eu diria que hoje o serviço de endoscopia da UERJ não deve nada a nenhum centro de endoscopia americano ou europeu. Hoje, no Hospital Pedro Ernesto, nós fazemos todos os métodos endoscópicos que existem, inclusive, cápsula endoscópica e ecoendoscopia, com exceção, da enteroscopia com duplo balão, por ser muito caro e de pouquíssima indicação. Já a residência médica é privilegiada. Anualmente, nós formamos 4 profissionais. São 2 anos de residência, e em geral, eles saem preparados para o mercado brasileiro e internacional.”

Para o Dr. Alexandre Abrão, o sucesso do serviço de endoscopia da UERJ se deve ao esforço de muitos profissionais que, assim como ele, trabalharam com os mais diversos aparelhos e materiais ao longo dos anos:

“A UERJ, em 1972, só contava com um endoscópio rígido (Chevalier-Jackson). O paciente era colocado em decúbito dorsal (com a barriga para cima) e a gente via o esôfago, por visão direta. Depois, com o indivíduo em decúbito lateral esquerdo, a gente passava o gastroscópio (Olympus-GTFA, de visão lateral), e conseguia ver o estômago. Na época, não dava para ver o duodeno. E desse jeito trabalhamos por muitos anos. Só em 1976/77 que a gente fez a primeira colonoscopia, com um aparelho muito grosso e muito difícil de fazer a sedação, com diazepam na veia. Era um exame muito complicado. Além disso, os exames eram feitos só uma vez por semana; durante uma manhã junto com a Broncoscopia, que a gente fazia também.”

Além da UERJ, Dr. Alexandre relembra dos primeiros serviços públicos que realizavam endoscopia digestiva, na década de 70, como o Hospital Miguel Couto, com o Dr. Glaciomar Machado que fazia os exames; o Hospital do Andaraí, com o Dr. Luiz Leite Luna, que mais tarde abriria o Centro de Hemorragia Digestiva, hoje uma referência nacional; além da Santa Casa da Misericórdia, e do antigo Iaserj (Instituto Estadual de Assistência ao Servidor Público), na Cruz Vermelha. Ele recorda que os Hospitais da UFRJ, eram espalhados pela cidade, já que não existia ainda o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho do Fundão, inaugurado só em 1978.

“Eu sei que o primeiro videoendoscópio em hospital público foi a UERJ que teve, no Hospital Pedro Ernesto. O material era da Welsh-Allyn. E houve uma evolução muito grande. Pois você via as endoscopias através da objetiva, quer dizer, com o olho na câmera, e depois com a videoendoscopia a gente passou a olhar pra televisão. Inclusive, antes disso, toda colonoscopia era com objetiva. Era olho no endoscópio, era uma coisa muito primária. Já com a videoendoscopia, passou-se a fotografar, a filmar. Foi um grande salto!”

Outra evolução muito significativa veio com a laparoscopia. Dr. Alexandre ressalta a importância de seu professor Dr. Edson Jurado, que era o grande chefe na época desta área, na UERJ:

“A gente desenvolveu a laparoscopia de urgência pois não existia ultrassonografia. Então, se a pessoa tinha um abdômen agudo, tipo uma apendicite ou uma gravidez tubária, não tinha ultrassom, só raio x. Então, na época, a gente desenvolveu a laparoscopia de urgência e a laparoscopia eletiva para fazer biopsia de fígado, biopsia de peritônio e biopsia de baço, desenvolvida pelo Dr. Paulo Pinho, na década de 80. Obviamente, fomos basicamente nós, endoscopistas, que ensinamos aos cirurgiões a fazer laparoscopia. A partir daí, eles desenvolveram cirurgia laparoscópica, cujo pioneiro foi Dr. Delta Madureira, aqui no Rio de Janeiro, mas ele não era endoscopista, era cirurgião. E também o Dr. José Dib Mourad, que foi também cirurgião e aprendeu a fazer laparoscopia conosco, em conjunto com o Dr. Paulo Pinho, eminente endoscopista e professor em atividade no HUPE. Eu atuei sempre na UERJ, junto com o Dr. Edson Jurado, que foi o meu professor e trabalhávamos juntos! Ele voltou dos EUA, e então, em 1972, eu ainda era estudante e comecei a trabalhar com ele. Depois, fui residente dele em 1974/75”, relata.

Para estar sempre atualizado, Dr. Alexandre costumava viajar para Alemanha, França e Nova Iorque. “A gente visitava os serviços que eram referência, como o do Dr. Jerome Waye, um excelente colonoscopista à época, com o qual nós aprendemos muita coisa. A gente via como eles trabalhavam e tentávamos fazer isso aqui com sucesso. Mas também tinha muita coisa que fazíamos e que ensinávamos para eles. Inclusive, o Dr. Glaciomar Machado, nesse ponto era mestre. Ele levou para Alemanha algumas de suas técnicas e estas passaram a ser desenvolvidas lá, graças a ele!”

Além da carreira científica, Dr. Alexandre ocupou diversos cargos relevantes. Foi Presidente da SOBED-RJ, de 1986 a 1988. Foi Secretário da Sociedade Pan-Americana de Endoscopia Digestiva e Secretário Geral da Organização Mundial de Endoscopia Digestiva, quando tomou posse, em Viena, em 1998, tendo passado o bastão em 2002, em Bangkok, na capital da Tailândia. Também editou vários capítulos de livros de endoscopia digestiva e gastroenterologia, além de muitos artigos.

Atualmente, ele encara um novo desafio, talvez o maior até hoje: em conjunto com mais 28 médicos de sua equipe colabora no controle da epidemia do coronavírus, já que o Hospital Pedro Ernesto passou a ser referência para doentes graves do Covid-19, desde a última segunda-feira, 16 de março de 2020.

“Espera-se que a epidemia alcance o seu auge em 2 semanas. Os doentes menos graves devem ficar no Hospital Acari e os mais graves, que precisam de respirador e CTI, devem ir para o Hospital Pedro Ernesto. Nós vamos ajudar, cada um fazendo a sua parte. Quem está à frente é o Diretor do Hospital, Dr. Damião, e o Secretário de Saúde, Dr. Edmar Santos.”