Perfis SOBED-RJ

Perfil: Dr. Carmelo Francisco de Souza Stanziola

Carioca, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, em 1975, Dr. Carmelo Francisco de Souza Stanziola teve o prazer de fazer a residência em Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva, na mesma faculdade, por dois anos (1976/1977), no serviço do Professor Edson Jurado, pessoa que ele admira e o inspira até hoje.

Depois, trocou a orla carioca pela Costa Verde do Rio de Janeiro, ao fixar residência em Angra dos Reis, em janeiro de 1978, aceitando o convite do Dr. Nelson Valverde, da UERJ, para trabalhar no Hospital da Usina Nuclear de Angra.

Cheio de orgulho por ter acompanhado o avanço da Endoscopia Digestiva, ele é um apaixonado pela profissão, além de muito atencioso com os pacientes.

“Os primeiros exames endoscópicos eram realizados com fibroscópicos. Na UERJ, nós tínhamos aparelhos da empresa americana ACMI, que logo parou de fabricar e ficaram só os aparelhos japoneses. Fazíamos endoscopia digestiva alta e baixa, colonoscopia e também laparoscopia, que estava começando. Na época, existiam poucos serviços de Endoscopia Digestiva em hospitais públicos do Rio de Janeiro. Até hoje me sinto muito bem fazendo um procedimento diagnóstico bem feito e procuro fazer da melhor maneira possível. Faço endoscopia com muita calma e não tenho a menor pressa de terminar o exame. Brinco com a minha equipe que eu trabalho igual ao Chacrinha, que dizia que “o programa só acaba quando termina”. Eu digo que “o exame só acaba quando termina”. Ou seja, muitas vezes na endoscopia, é na saída que a gente encontra a lesão. Sempre digo para a minha filha endoscopista sobre a importância de ver lesões pequenas, lesões precoces”, afirma.

Desde o início da carreira, Dr. Carmelo sempre prezou pela qualidade do atendimento, pela atualização profissional e pelo carinho com os pacientes. Não é à toa que foi agraciado com o título de Cidadão Angrense, na década de 1990, e com uma menção honrosa da Prefeitura de Paraty pelo atendimento à população.

Dr. Carmelo recorda com orgulho dos 23 anos dedicados ao Hospital da Usina Nuclear de Angra (Hospital de Praia Brava), que na época era administrado por Furnas Centrais Elétricas. Trabalhou tanto na parte assistencial, quanto no Serviço de Endoscopia, iniciado em 1981, com a compra do 1º equipamento.

“Quando ingressei em 78, Angra 2 estava fazendo as fundações. Chegavam muitos trabalhadores do Nordeste. Fazíamos de tudo pois era um hospital pequeno que atendia os funcionários e a população do entorno. A gente era clínico geral, gastroenterologista e endoscopista. Em novembro de 81, compramos o 1º fibroscópico, que tinha quase 16 milímetros de diâmetro. Hoje, o aparelho da nossa clínica tem 9 milímetros, quase a metade. Na época, falei com o Dr. Edson Jurado e o Dr. Alexandre Abraão e fiquei uma semana na UERJ para testar e aprimorar o uso do aparelho. Fazia principalmente as endoscopias digestivas altas e as retossigmoidoscopias. Eu era o único médico de Angra que fazia endoscopia e assim foi por mais de dez anos. Depois, nós compramos um Pentax FG 28 C para fazer os exames de rotina e as emergências. Nossas grandes emergências eram corpos estranhos, como espinhas de peixe, afinal, estávamos à beira mar. Também fazíamos hemorragia digestiva. A quantidade de pessoas com esquistossomose era muito grande e o número de hemorragias digestivas, também. Quando começou a surgir a técnica da esclerose de varizes eu falei novamente com o Dr. Alexandre, pessoa que admiro muito, e fiquei uma semana me atualizando no Hospital Pedro Ernesto. Fiz muita esclerose de varizes, vi muita hemorragia digestiva por varizes de esôfago. Se tem algo de que eu possa me orgulhar é que nesse período todo trabalhando sozinho eu acredito que tenha feito um bom trabalho. Graças a Deus não me lembro de ter perdido nenhum doente de hemorragia digestiva. Acabei tendo um bom nome entre a população.”

Por muitos anos, Dr. Carmelo também teve a honra ser o responsável pelo Centro de Medicina das Radiações Ionizantes (CMRI), do Hospital da Usina Nuclear de Angra. E teve um papel fundamental no atendimento aos pacientes radioacidentados com o césio-137, no grave acidente de Goiânia, em 1987.

“Fui sendo preparado para o atendimento de acidentados com radiação. Na ocasião do acidente de Goiânia, colaboramos ativamente no atendimento às vítimas, que ficaram sob os nossos cuidados no Hospital Naval Marcílio Dias (RJ). Toda a parte de descontaminação foi feita por nossa equipe de Furnas, sob a minha responsabilidade. Eu e mais sete técnicos de enfermagem nos revezávamos. Atuamos por 2 meses na descontaminação.”

Em 1987, Dr. Carmelo decidiu montar o consultório próprio. Passou a atender duas vezes na semana, no período da tarde, conciliando com o trabalho no Hospital da Usina Nuclear.

Ao se aposentar, em 2000, o especialista continuou os estudos e iniciou uma Pós-Graduação em Clínica Médica (CAMI/UFRJ), em 2001. Ele recorda que, na época, o Hospital de Praia Brava passou a ser gerido pela Fundação Eletronuclear de Assistência Médica, que em 2003, criou um Centro de Estudos que recebeu o seu nome como homenagem.

Após a aposentadoria, Dr. Carmelo também se mudou da Vila Residencial de Furnas para uma casa mais próxima da cidade de Angra, onde encontrou no cultivo de vegetais a sua realização pessoal.

“Depois que me aposentei, eu e minha esposa construímos uma casa que tem um quintal ótimo. Fomos plantando árvores e os passarinhos foram chegando. Hoje, temos várias árvores em nosso quintal. Desde criança, por influência da minha mãe, sempre gostei de plantar e de animais, só não tinha muito tempo. Meus sogros que moravam conosco também sempre gostaram de mexer com a terra e nós adquirimos esse hábito.”

Dr. Carmelo também decidiu fazer uma horta orgânica no terreno da sua Clínica de Endoscopia, próximo à sua residência. Em 2020, com o isolamento social causado pela pandemia de Covid-19, ele aumentou ainda mais a plantação.

“Na pandemia, fiquei 40 dias sem trabalhar. Minha mulher falou que daqui a pouco eu iria plantar até dentro de casa. É algo que realmente me distrai bastante. Na entrada da clínica, temos um mamoeiro. Ao lado, duas azaleias grandes e lírios da paz para garantir o bom astral. Na parte de trás, criamos uma horta orgânica variada com temperos, folhas e legumes. A gente não usa agrotóxico. Aqui, a gente vai distraindo a cabeça, afinal, todos precisam de uma válvula de escape. Tenho pacientes graves que trazem muita angústia. Acredito que cada um deve buscar algo que traga alegria. Tem gente que gosta de ver filme, ir à praia, e eu gosto desse cultivo. Também tenho prazer em compartilhar com os colegas da SOBED esse meu prazer em cultivar a terra.”

Casado, pai de duas filhas, Isabel e Silvia, e avô do Arthur (6 anos) e da Cecília (1 ano), Dr. Carmelo completa 45 anos de formado com a mesma alegria dos tempos de faculdade. A filha mais velha também se tornou gastroenterologista e realiza endoscopias no interior de São Paulo. Já a outra filha, designer gráfica, reside no Canadá.

Além da companhia adorável de sua esposa Graça, Dr. Carmelo tem como fiel escudeiro o cachorro Pingo. A equipe que atua em sua clínica também é considerada por ele uma grande família, pelos muitos anos de dedicação ao trabalho. E todos também se deliciam com o cultivo de vegetais.

DÊ UM PASSEIO COM DR. CARMELO PELA CLÍNICA E SUA HORTA

AS COLHEITAS

Perfil: Dr. José Augusto Messias

Clínico Geral e Especialista em Gastroenterologia, Dr. José Augusto Messias também é reconhecido pela significativa atuação junto à Endoscopia Digestiva. Na década de 70, em que a endoscopia estava germinando e crescendo, ele já participava da rotina do setor de Endoscopia, mesmo sendo residente de Clínica Médica do então Hospital de Clinicas do Pedro Ernesto.

“Me honra muito ter sido um dos fundadores da SOBED-RJ e ter feito endoscopia durante 25 anos ou mais, desde que me formei pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado da Guanabara, atual UERJ. Comecei a fazer endoscopia com o Dr. Edson Jurado, em 1973, no meu internato, junto também com o Dr. Alexandre Abrão, hoje chefe do Setor de Gastroenterologia e Endoscopia do Pedro Ernesto. Os fibroscópios ainda eram uma miragem para nós em 1974. Conseguimos um certo apoio da direção do hospital para atualizar o equipamento e nós (Edson Jurado, Alexandre Abrão e eu) montamos um time para dar cobertura às endoscopias de urgência dentro do Pedro Ernesto. Funcionava 24 horas, 7 dias na semana. Com isso, a direção do hospital comprou equipamentos mais modernos, como: colonoscópio, fibroscópio e endoscópio alto. Ao fim da minha residência, tanto eu como o Dr. Alexandre nos tornamos professores da Faculdade de Ciências Médicas e continuamos desenvolvendo o trabalho no Hospital Universitário. Eu trabalhava em dois turnos fazendo endoscopia de rotina dos serviços. E isso permaneceu durante décadas”, disse.

Aliás, Dr. Messias e Dr. Alexandre já eram amigos de longa data. Estudaram juntos desde o 1º ano do Ginásio (que correspondia aos últimos quatro anos do atual Ensino Fundamental). Depois, fizeram faculdade juntos, trabalharam no mesmo hospital, se formaram na mesma turma e atuaram no mesmo consultório. Uma amizade de 60 anos, desde 1959.

“Quando começamos a fazer endoscopia com o Dr. Jurado, o aparelho disponível para ver o esôfago era um tubo rígido que se chamava: Chevalier Jackson. E o aparelho para ver o estômago era uma gastrocâmera, que foi o 1º desenvolvido a partir da escola japonesa. Você simplesmente fotografava a partir de um determinado protocolo e depois examinava as fotos para poder fazer a impressão diagnóstica, você não conseguia nem biopsiar. Em 1976, quando nós três montamos aquele grupo que dava suporte às emergências do Pedro Ernesto é que incorporaram os primeiros fibroscópios, como um fibroendoscópico que conseguia chegar no duodeno, e um colonoscópico que nos permitiu realizar colonoscopias. Era uma época que eu chamaria de pré-histórica. Então, a gente fazia não só a endoscopia do esôfago com esse tubo rígido, como fazia também uma broncoscopia com broncoscópio rígido pra examinar a traqueia. Depois, começaram a surgir as escleroses, a escleroterapia, até que eu cheguei junto com a incorporação da chamada ligadura elástica para varizes e esôfago. Nesse período, em 2000 em diante, a endoscopia havia se tornado bastante tecnológica, o que fugiu um pouco do meu escopo profissional”, afirma.

A prática endoscópica tem lugar especial na carreira do Dr. Messias e apesar dele ter se desligado do setor nos últimos 15 anos, mantém forte relação com o grupo de endoscopistas da SOBED-RJ.

“Hoje a minha ligação com esse grupo se dá pela minha pratica clínica, já que trato muitos casos de gastroenterologia, como pacientes com câncer de esôfago em que que foram retiradas por endoscopia a famosa mucosectomia por via endoscópica. E eu me lembro da época em que a gente trabalhava no Pedro Ernesto e a cirurgia de câncer de esôfago era uma das cirurgias que mais dava frio na barriga, devido a quantidade de complicações, e a cirurgia quase sempre implicava em retirar o esôfago. Hoje, com a evolução da tecnologia, o cenário mudou”, relembra.

Dr. Messias revela que sempre frequentou congressos para se atualizar e teve muitos trabalhos publicados, principalmente aqueles focados na questão do adolescente.

“Na década de 80 e 90, a gente demonstrou que a realização de endoscopia diagnóstica em adolescentes era possível. Utilizamos um protocolo e conseguimos fazer a maior parte das endoscopias como fazíamos em adultos. Dava um pouco mais de trabalho de conversa e de convencimento, mas não havia nenhuma diferença médica para não fazer a famosa anestesia na garganta e uma pequena sedação endovenosa, como era o protocolo da época. Como consequência disso, eu me tornei professor Titular de Clínica Médica da UERJ e uma das minhas teses ao longo da vida foi justamente sobre câncer gástrico. Aproveitei todo material da área da gastroenterologia, com 317 doentes, numa época em que infelizmente a gente ainda tinha muito menos recurso de fazer um diagnóstico mais precoce e de fazer uma proposta terapêutica mais efetiva pra esses doentes. O câncer gástrico ainda é um desafio mas com a história do H. Pylori e com esses equipamentos endoscópicos o que temos é uma visão muito mais detalhada”.

Dr. Messias também é diretor do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente, uma área pioneira dentro da UERJ. O NESA possuiu uma enfermaria, um ambulatório grande, e um grupo que lida com atenção primária. Trata-se de um serviço referencial não só no Brasil, como no exterior.

Sobre fazer parte da história da SOBED-RJ, Dr. Messias guarda com muito orgulho de sua participação no Congresso em Curitiba, em 1974, quando ainda era residente.

“Eu estava naquele congresso e houve uma reunião dos gastroenterologistas e dos profissionais que também tinham já a prática da endoscopia. Fizemos a reunião, na presença do Dr. Glaciomar, Dr. Jorge, Dr. Luis Leite Luna, e de vários outros da 1ª geração de endoscopistas, e fundou-se a Sociedade. Quem assinou essa ata recebeu o título de sócio-fundador. Eu sou um deles, assim como o Dr. Alexandre Abrão. É uma história que guardo com muito orgulho!”, relata Dr. Messias.

 

 

Perfil: Dr. Ricardo Ebecken

Nascido em Niterói, Dr. Ricardo Ebecken, começou a sua trajetória acadêmica e profissional na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde se formou em Medicina, em 1971.

Realizou especialização em Endoscopia Digestiva na Santa Casa da Misericórdia (RJ), de 1972 a 1973.

Em 1974, se tornou professor de Gastroenterologia da UFF, no Departamento de Medicina Clinica/Endoscopia, e passou a ser responsável pelo treinamento de residentes no Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap/UFF)

“Eu ingressei em abril de 1974, no mesmo período iniciou o programa de residência médica. Treinava os residentes ensinando endoscopia digestiva diagnóstica e terapêutica. O Huap/UFF já era um dos serviços públicos do Rio de Janeiro a realizar procedimentos endoscópicos. Foram 40 anos de dedicação no setor de Endoscopia Digestiva diagnóstica e terapêutica. Me aposentei em 2014.”

Membro titular da SOBED-RJ, Dr. Ricardo Ebecken também foi um dos fundadores da Sociedade, em 1978.

“Tive a honra de escrever no 1º livro da SOBED-RJ, datilografado na época. Fiz um artigo sobre Úlcera Péptica. E mais recentemente, pude contribuir com o último livro produzido”, disse Dr. Ricardo.

Dr. Ricardo na 2ª fileira, o segundo da esquerda para direita, durante o 1º Seminário de Endoscopia Digestiva, em 1973 (página 38- Livro História da SOBED-Glaciomar Machado)

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi o trabalho no Hospital Escola São Francisco de Assis (Hesfa), da UFRJ, com o Prof. Glaciomar Machado.

“Comecei trabalhando no Hospital São Francisco, em 1978, com Dr. Glaciomar Machado. Foi ele que me ensinou a endoscopia. Fazia com gastrocâmera e gastroscópio, aparelhos que não existem mais. Os aparelhos eram limitados, com fibra. Hoje, tudo aparece em vídeo, é top de linha. Trabalhei com Dr. Glaciomar mais ou menos 15 anos, só na endoscopia”, conta Dr. Ricardo.

Eles também trabalharam juntos no Hospital Miguel Couto e na Santa Casa da Misericórdia.

Outro fato interessante é que Dr. Ricardo Ebecken fez parte da primeira turma de mestrado em Endoscopia Digestiva da UFRJ, no Fundão, em 1978, quando as atividades de ensino de Medicina passaram a se concentrar na Cidade Universitária.

Em julho de 1984, ele foi designado chefe do serviço de Endoscopia Digestiva do Hospital Municipal Orêncio de Freitas (HOF), em Niterói, realizando procedimentos endoscópicos e terapêuticos, endoscopia digestiva alta e baixa, além de CPRE.

“Eu era responsável pelo treinamento cirúrgico de dois residentes, por ano, até dezembro de 2002, quando me aposentei. Profissionais de vários estados do Brasil aprenderam endoscopia comigo, como do Paraná, Rio Grande do Sul, entre outros.”

Na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Dr. Ricardo realizou Doutorado. Na Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica), fez estágio no Hospital Erasme, em 1995, com o Prof. Michel Cremer, no serviço de CPRE (Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica diagnóstica e terapêutica).

Atualmente, Dr. Ricardo atende em consultório particular e trabalha no Complexo Hospitalar de Niterói (CHN), onde é responsável pelo Serviço de Endoscopia Digestiva.

“Faço endoscopia, colonoscopia, CPRE. Nós somos um grupo de sete médicos e estamos atendendo diretamente internados sem covid-19. Faço gastroenterologia clínica e atendo em consultório até hoje. Tenho pacientes que atendo há 40 anos. Sempre participei de congressos e tenho publicações em revistas internacionais. Anualmente, vou à São Paulo para eventos médicos relevantes. Também participei em diversas bancas examinadoras de Tese de Mestrado na UFF e UFRJ”, relata Dr. Ricardo.

Ele recebeu, ainda, a medalha de ouro no Prêmio RIMA, em 2018 e 2019, pela excelência em atualização científica internacional em gastroenterologia. Dr. Ricardo foi reconhecido pelo seu desempenho notável nos programas de leitura sistemática, investigação avançada e pesquisa de melhores evidências científicas vigentes por meio da interação experta na Rede de Informática de Medicina Avançada (RIMA).

Casado e pai de 3 filhos, Dr. Ricardo conta que sua filha já trabalhou com ele como endoscopista e que hoje atua em CTI, como intensivista. A outra filha optou pela advocacia.

Com uma trajetória marcante, Dr. Ricardo deixa uma mensagem para todos os colegas endoscopistas:

“Que a gente consiga vencer a covid-19 para voltar a trabalhar”.

Dia das Mães: SOBED-RJ mostra um pouco da rotina de ser mãe e endoscopista

O segundo domingo de maio é o dia delas. Assim, é comemorado desde 1932, quando a data foi instituída no Brasil! Com muito orgulho, a SOBED-RJ parabeniza todas as mães endoscopistas e, neste dia especial, conversou com duas associadas, tendo em vista retratar a rotina de ser mãe e endoscopista.  As Dras. Elizabeth Castro e Paula Peruzzi têm muito em comum além do “malabarismo”, como elas mesmo definem, para conciliar maternidade e carreira.

Casada e mãe de três filhos, Dra. Elizabeth Castro é especialista em Endoscopia Digestiva. Formou-se pela UERJ em 1982, fez residência e mestrado na UFRJ, e depois passou no concurso como médica do HUCFF-UFRJ. Primeiramente, atuou na área clínica, no CTI, e depois foi admitida no tão sonhado Serviço de Endoscopia, o qual já acompanhava extra oficialmente desde a sua tese de mestrado sobre hepatites autoimunes.

“Quando eu terminei a minha residência, houve concurso para área clínica, no CTI, e passei, em 1989. Então, fora do meu horário, eu frequentava, o serviço de Endoscopia Digestiva. O meu treinamento foi feito dessa forma, até que eu consegui ser liberada do CTI, para integrar o staff da endoscopia, em 1992. Sempre tive esse objetivo, mas atingir não foi algo tão direto assim. Naquela época, eu acho que eu tinha uma carga horária de trabalho de 70 horas por semana”, brinca.

Dra. Elizabeth treinou diversos residentes e se dedicou ao trabalho no HUCFF, como membro do staff da endoscopia, até 2002. De 2016 a 2018, foi presidente da SOBED-RJ. Hoje, ela continua no time de endoscopistas do Hospital Federal de Ipanema, onde sempre trabalhou em paralelo, desde 1992. E se sente uma mãe e uma profissional realizada:

“Eu fui mãe aos 34 anos. Primeiro, veio a Lilian. Eu já tinha terminado o mestrado e minha carreira já estava mais definida. Ao retornar da licença maternidade, iniciei no Hospital de Ipanema, em outubro de 1992. Lembro que foi o nascimento dela que me deu coragem para tomar decisões que foram importantes na minha carreira, como a minha transferência do CTI do HUCFF para o serviço de endoscopia, no mesmo ano, pois fui assertiva ao deixar claro que não mais poderia acumular as duas funções. Três anos depois, vieram os gêmeos Fabio e Gustavo. Foi uma loucura. Foi difícil. Mas não me arrependo de nada. Mesmo com todas as dificuldades que tive no caminho, eu acabei fazendo o que gosto. Acho que isso é um privilégio. São poucas mulheres que tem o privilégio de trabalharem naquilo que gostam. E acho que hoje em dia está bem melhor. Existem muitas mulheres fazendo Endoscopia Digestiva. A Paula foi minha residente. Eu participei do treinamento dela e vê-la hoje como uma pessoa de referência é uma satisfação enorme. Me orgulho muito de vê-la”, conclui a Dra. Elizabeth.

A Paula que a Dra. Elizabeth Castro menciona é a Dra. Paula Peruzzi, casada e mãe de dois filhos e uma enteada, que é especialista em Endoscopia Digestiva Pediátrica. Formou-se pela UFRJ, em 1999, onde realizou residência, mestrado e doutorado em Gastroenterologia. Hoje, atua nos Serviços de Endoscopia Digestiva Pediátrica do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e do Hospital Estadual da Criança.

“A escolha da Endoscopia Pediátrica aconteceu antes de engravidar. Eu sempre quis trabalhar com crianças, mas não me interessava pela área clínica da pediatria. Durante a residência me interessei muito pela Endoscopia Digestiva. Tinha um turno que a querida Beth, Dra. Maria Elizabeth Castro, com quem tenho a honra de participar junto nesta entrevista, fazia exames no HUCFF-UFRJ de crianças escolares e adolescentes. Eu adorava participar! Ao acabar a residência, uma grande amiga de faculdade, anestesista pediátrica, me sugeriu fazer a especialização no Instituto Fernandes Figueira. E eu me apaixonei pela Endoscopia Pediátrica”, recorda Dra. Paula.

Em 2003, Dra. Paula concluiu a Capacitação Profissional em Endoscopia Digestiva Pediátrica do IFF. Em 2005, terminou o mestrado. E em 2006, veio a maternidade junto com a aprovação no concurso da Fiocruz.

“Me tornei mãe em junho de 2006, no início da minha carreira. Fiz concurso para ingressar no IFF no sexto mês de gestação do Lucas, e a prova de título de especialista da SOBED já grávida da Manu. Brinco com eles dizendo que sempre me ajudaram a passar nas provas, e eles adoram! Mas confesso que foi bastante difícil no início conciliar a maternidade e a Medicina. Os meus filhos tiveram que ir cedo para a creche do IFF e eu fiz questão de continuar amamentando. Então, foi uma fase bem cansativa, levava bomba de leite e geladeira térmica para o trabalho. No entanto, a parte mais complicada foi o doutorado, com dois filhos pequenos e trabalhando. Tive algumas mudanças na minha vida pessoal durante o período e, realmente, cheguei a pensar que não daria conta. Mas o suporte de avós presentes, meus pais e a babá da minha infância, foi fundamental para conseguir concluir meus projetos. Tinha pouco tempo livre para mim. Demorei mais do que pretendia para defender a tese, mas hoje vejo que valeu a pena toda dedicação. Meus filhos se orgulham e vibram com cada conquista”, ressalta Dra. Paula.

Dra. Paula, que concluiu o doutorado em 2016, ressalta que a Medicina não é uma profissão em que se pode exercer sem dedicação e atualização. Por isso, aliar esta escolha com a maternidade sempre foi desafiador.

“Eu nunca abri mão de estudar e me dedicar com seriedade ao trabalho que amo. No entanto, é impossível fazer tudo que gostaria profissionalmente, sem me ausentar ainda mais da vida dos meus filhos. Recentemente, fiz um estágio em um hospital pediátrico na Califórnia e fiquei um período bem menor do que desejava, pois seria bastante tempo longe deles. Muitas vezes não consigo aprender todos os métodos endoscópicos que gostaria, realizar todos os cursos que planejava, e nem aceitar alguns convites, até mesmo na SOBED. As crianças estão em uma fase que ainda precisam muito da minha presença e esse tempo não vai voltar. Algumas escolhas profissionais podem esperar, e talvez “essa espera” faça com que alguns projetos nunca aconteçam, perca o momento. Mas, tudo bem, essa é uma das maravilhas da maternidade: compreender que todas as escolhas envolvem renúncias. Sou bastante grata ao que consegui conquistar até aqui”, finaliza.

Dra. Elizabeth também reconhece que a especialidade escolhida sempre exigiu muita disponibilidade para o trabalho:

“Você tinha que ser insistente e o mercado de trabalho ainda é pior para a mulher em todas as áreas, principalmente, quando você está no início da carreira, que te exige tudo ou nada. Ou você estava disponível sempre para qualquer emergência, e naquela época as emergências em endoscopia eram muito mais frequentes do que hoje, ou você era aquela pessoa com quem não dava para contar. Você era riscada da lista de contatos”, lembra.

Segundo ela, os próprios filhos brincavam com essa questão de terem uma mãe muito ocupada:

“Quando a minha filha tinha 8 anos ela chegou a dizer que a minha profissão devia ser muito divertida. Ela questionou: se você diz que ganha pouco, que trabalha muito, que queria ficar mais com a gente, mas que não pode, e mesmo assim, você continua fazendo isso, é por que deve ser muito divertido!!”

E complementa com outra lembrança:

“Quando os meus filhos eram pequenos e o telefone tocava, eles já sabiam que iriam perder a mamãe para o trabalho. Principalmente, quando reconheciam os médicos que ligavam, como era o caso do Dr. José Flávio, pai do Dr. Djalma Coelho, atual presidente da SOBED-RJ”, brinca Dra. Elizabeth.

Para as duas endoscopistas, a maternidade aflorou o lado mais sensível no trato com os pacientes. Dra. Elizabeth diz:

“Ser mulher já te dá uma visão um pouco diferente das coisas, independente de ser mãe, em termos de cuidado. Eu acho que a maternidade me fez ficar muito mais sensível quando eu vejo uma mãe sofrendo com a doença de um filho ou um pai sofrendo. Eu sabia que era uma coisa dolorosa, mas eu não sabia quão dolorosa poderia ser”, comenta.

Já a Dra. Paula ressalta:

“Após me tornar mãe, compreendi melhor este amor incondicional entre mãe e filho. Compreendi que a expectativa de um filho é de alegria, e que o processo de adoecimento de uma criança envolve uma série de frustrações e temores dos pais. Nós médicos, em especial os pediatras, escolhemos tratar estes pacientes. Mas as mães, estas jamais escolheram ter um filho doente. A maternidade me deu mais tolerância e empatia na relação médico-paciente, principalmente com as mães de crianças especiais e com doenças crônicas, que tanto respeito e admiro. Aprendo a cada dia com elas, como profissional e como mãe também.”

Nesse Dia das Mães, o que elas desejam é que as mulheres continuem fazendo trabalhos de excelência na endoscopia.

Filhos: Lilian (28), Fábio e Gustavo (24 anos)

Dra. Elizabeth (mãe da Lilian, do Fabio e do Gustavo):

“A SOBED abriga jovens e estimula a todos. Temos que agradecer ao nosso presidente, Dr. Djalma, por esse olhar mais feminino e trazer esse assunto a discussão. Tenho muito a agradecer a todos que me ensinaram, e como sou muito grata a todos, faço questão de ensinar também, para que brilhem no futuro. Aproveito para agradecer aos meus preceptores, e em especial, à chefe do serviço de Ipanema, Dra. Ana Zuccaro, que é uma pessoa que sempre incentivou muito o trabalho de todos”, conclui.

Filhos: Lucas (13), Manuela (10) e enteada Fernanda (14 anos)

Dra. Paula (mãe do Lucas, da Manuela e da enteada Fernanda):

“Aproveito para agradecer ao Dr. Djalma pelo convite e pela homenagem às mães endoscopistas. Fica aqui toda minha admiração pelas minhas colegas de trabalho endoscopistas e mães, muitas que tive o prazer em trabalhar junto e representar nesta entrevista, contando um pouco da minha história. Cada uma com suas dificuldades, mas que seguem se equilibrando nesta árdua tarefa de exercer tantas funções ao mesmo tempo. Para as endoscopistas mais jovens, não tenham medo da maternidade atrapalhar a carreira. É inevitável que interfira em alguns momentos, mas os filhos nos dão força que não imaginamos ter”, diz.

Diante da pandemia de covid-19, elas deixaram a seguinte mensagem:

Dra. Paula:

“Para as minhas colegas endoscopistas que também continuam trabalhando durante esta pandemia, segue minha admiração. Quero também parabenizar a diretoria da SOBED por ter se posicionado e elaborado prontamente um documento para endoscopia segura durante a pandemia de covid 19. Não está sendo fácil sair para trabalhar com tantas preocupações e angústias, mas as outras doenças não param e muitos dos nossos pacientes não podem esperar isto tudo acabar. Por favor, protejam-se com os EPIs adequados. É maravilhoso o rótulo de “super-heróis”, mas o único super poder dos profissionais de saúde é a CORAGEM de arriscar a própria vida e de nossas famílias, para continuar honrando um juramento que fizemos. Precisamos estar protegidas para continuarmos presentes na vida de quem amamos e onde realmente somos insubstituíveis: na vida de nossos filhos! Para as profissionais de todas as áreas que estão na linha de frente desta pandemia, em especial as intensivistas e enfermeiras de CTI, MUITO OBRIGADA!!! É incrível o que tem feito pela nossa população!! Vocês são admiráveis!!!!!”, afirma.

Dra. Elizabeth:

“A covid-19 praticamente paralisou todos os serviços públicos e privados de endoscopia. Isso nos faz refletir o quanto a medicina avançou pois os casos emergenciais de hemorragia digestiva diminuíram muito. Hoje em dia, a endoscopia é muito mais atribuída para diagnósticos e tratamentos variados. Até existem procedimentos cirúrgicos, mas na maioria são eletivos. Então, vamos usar os EPIs e esperar que este momento difícil passe”, comenta.

GALERIA DE FOTOS Dra. Paula Peruzzi

GALERIA DE FOTOS Dra. Elizabeth Castro

Perfil: Dr. Alexandre Abrão Neto

Carioca, nascido em 20 de maio de 1949, ele se tornaria estudante de Medicina da UERJ e passaria a fazer os primeiros exames endoscópicos em 1972. Hoje, o Dr. Alexandre Abrão Neto é o chefe do Serviço de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da UERJ. Orgulho e dedicação definem a sua trajetória:

“Entrei na UERJ em 1968. Me formei em 1973. Fiz residência lá, mestrado na UFRJ e doutorado na UERJ, também. Basicamente, eu vi toda evolução da endoscopia. Eu diria que hoje o serviço de endoscopia da UERJ não deve nada a nenhum centro de endoscopia americano ou europeu. Hoje, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, nós fazemos todos os métodos endoscópicos que existem, inclusive, cápsula endoscópica e ecoendoscopia, com exceção, da enteroscopia com duplo balão, por ser muito caro e de pouquíssima indicação. Já a residência médica é privilegiada. Anualmente, nós formamos 4 profissionais. São 2 anos de residência, e em geral, eles saem preparados para o mercado brasileiro e internacional.”

Para o Dr. Alexandre Abrão, o sucesso do serviço de endoscopia da UERJ se deve ao esforço de muitos profissionais que, assim como ele, trabalharam com os mais diversos aparelhos e materiais ao longo dos anos:

“A UERJ, em 1972, só contava com um endoscópio rígido (Chevalier-Jackson). O paciente era colocado em decúbito dorsal (com a barriga para cima) e a gente via o esôfago, por visão direta. Depois, com o indivíduo em decúbito lateral esquerdo, a gente passava o gastroscópio (Olympus-GTFA, de visão lateral), e conseguia ver o estômago. Na época, não dava para ver o duodeno. E desse jeito trabalhamos por muitos anos. Só em 1976/77 que a gente fez a primeira colonoscopia, com um aparelho muito grosso e muito difícil de fazer a sedação, com diazepam na veia. Era um exame muito complicado. Além disso, os exames eram feitos só uma vez por semana; durante uma manhã junto com a broncoscopia, que a gente fazia também.”

Além da UERJ, Dr. Alexandre relembra dos primeiros serviços públicos que realizavam endoscopia digestiva, na década de 70, como o Hospital Municipal Miguel Couto, com o Dr. Glaciomar Machado que fazia os exames; o Hospital do Andaraí, com o Dr. Luiz Leite Luna, que mais tarde abriria o Centro de Hemorragia Digestiva, hoje uma referência nacional; além da Santa Casa da Misericórdia, e do antigo Iaserj (Instituto Estadual de Assistência ao Servidor Público), na Cruz Vermelha. Ele recorda que os hospitais da UFRJ eram espalhados pela cidade, já que não existia ainda o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, inaugurado só em 1978.

“Eu sei que o primeiro videoendoscópio em hospital público foi a UERJ que teve, no HUPE. O material era da Welsh-Allyn. E houve uma evolução muito grande. Pois você via as endoscopias através da objetiva, quer dizer, com o olho na câmera, e depois com a videoendoscopia a gente passou a olhar pra televisão. Inclusive, antes disso, toda colonoscopia era com objetiva. Era olho no endoscópio, era uma coisa muito primária. Já com a videoendoscopia, passou-se a fotografar, a filmar. Foi um grande salto!”

Outra evolução muito significativa veio com a laparoscopia. Dr. Alexandre ressalta a importância de seu professor Dr. Edson Jurado, que era o grande chefe na época desta área, na UERJ:

“A gente desenvolveu a laparoscopia de urgência pois não existia ultrassonografia. Então, se a pessoa tinha um abdômen agudo, tipo uma apendicite ou uma gravidez tubária, não tinha ultrassom, só raio-x. Então, na época, a gente desenvolveu a laparoscopia de urgência e a laparoscopia eletiva para fazer biópsia de fígado, biópsia de peritônio e biópsia de baço, desenvolvida pelo Dr. Paulo Pinho, na década de 80. Obviamente, fomos basicamente nós, endoscopistas, que ensinamos aos cirurgiões a fazer laparoscopia. A partir daí, eles desenvolveram cirurgia laparoscópica, cujo pioneiro foi Dr. Delta Madureira, aqui no Rio de Janeiro, que é cirurgião. E também o Dr. José Dib Mourad, também cirurgião, que aprendeu a fazer laparoscopia conosco, em conjunto com o Dr. Paulo Pinho, eminente endoscopista e professor em atividade no HUPE. Eu atuei sempre na UERJ, junto com o Dr. Edson Jurado, que foi o meu professor e trabalhávamos juntos! Ele voltou dos EUA, e então, em 1972, eu ainda era estudante e comecei a trabalhar com ele. Depois, fui residente dele em 1974/75”, relata.

Para estar sempre atualizado, Dr. Alexandre costumava viajar para Alemanha, França e Nova Iorque.

“A gente visitava os serviços que eram referência, como o do Dr. Jerome Waye, um excelente colonoscopista à época, com o qual nós aprendemos muita coisa. A gente via como eles trabalhavam e tentávamos fazer isso aqui com sucesso. Mas também tinha muita coisa que fazíamos e que ensinávamos para eles. Inclusive, o Dr. Glaciomar Machado, nesse ponto era mestre. Ele levou para Alemanha algumas de suas técnicas e estas passaram a ser desenvolvidas lá, graças a ele!”

Além da carreira científica, Dr. Alexandre ocupou diversos cargos relevantes. Foi presidente da SOBED-RJ, de 1986 a 1988. Foi secretário da Sociedade Pan-Americana de Endoscopia Digestiva e secretário-geral da Organização Mundial de Endoscopia Digestiva. Também editou vários capítulos de livros de Endoscopia Digestiva e Gastroenterologia, além de muitos artigos.

Atualmente, ele encara um novo desafio, talvez o maior até hoje: em conjunto com mais 28 médicos de sua equipe colabora no controle da epidemia do coronavírus, já que o HUPE é referência para doentes graves do covid-19.

“Os doentes menos graves devem ficar no Hospital Acari e os mais graves, que precisam de respirador e CTI, devem ir para o Hospital Pedro Ernesto. Nós vamos ajudar, cada um fazendo a sua parte. Quem está à frente é o diretor do hospital, Dr. Ronaldo Damião, e o secretário de saúde, Dr. Edmar Santos.”

Perfil: Dr. Edson Jurado da Silva

Se formar em Medicina como 1° aluno do curso é para poucos. Mas ainda ser manchete do “Diário de Noticias” como “estudante de medicina do ano de 1966” é só mesmo para o Dr. Edson Jurado da Silva, que se formou especialista em Gastroenterologia, com muitas estórias em Endoscopia Digestiva no Brasil e no exterior.

Carioca, filho de português, nascido em 1º de janeiro de 1941, Dr. Edson se graduou pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (UNI-RIO), atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. No ano seguinte da formatura foi trabalhar na UERJ com o Professor Lafayette Pereira, onde criou em 1967, a residência médica em Gastroenterologia. Ele se recorda até hoje dos residentes que passaram por lá.

O 1° residente foi Antonio José de Araujo Lima, que havia se formado na Universidade Federal do Ceará e foi fazer internato no Hospital Universitário Pedro Ernesto:

“Ele fez residência comigo e quando eu voltei dos EUA, em julho de 1971, ele já havia se tornado médico da UERJ / UEG na época e tinha acabado de pedir demissão para voltar para sua terra natal. Para minha surpresa, anos depois o Dr. Glaciomar Machado realizou o 1° Seminário de Endoscopia Digestiva no MEC (Ministério de Educação e Cultura) no Rio de Janeiro e o Dr. Augusto foi um dos palestrantes convidados.”

Dr. Edson Jurado também se lembra de conversa com o saudoso Prof. Américo Piquet Carneiro:

“Na realidade, me disseram que ele queria falar comigo. Fui até o gabinete dele e ele me perguntou se eu teria interesse em me especializar nos Estados Unidos. Disse que sim, e ele então, condicionou a me ajudar, desde que eu revalidasse meu Diploma de Médico, o que foi feito através a prova do ECFMG (Educacional Council for Foreign Medical Graduates) – Certificate N 101-311-9, September 11, 1968. De posse deste título, ele conseguiu o “Rotating Internship” no Marion County General Hospital, na Indiana University Medical Center, Indianapolis, Indiana, onde me iniciei e posteriormente cheguei a Fellow em Gastroenterologia. Trabalhei muito (morava no hospital). Aproveitei bastante, incluindo na emergência do Hospital Geral, onde tive a oportunidade única, de como interno, fazer a autópsia dos pacientes que tinham sido atendidos por mim na madrugada. Fazia as autópsias durante o dia e a cada terceira noite, trabalhava na emergência, das 18h às 2h. Sempre tive muito apoio, não faltava nada, e em mesa próxima a minha, também fazia autopsia o chefe do serviço, e quando eu tinha alguma dúvida, bastava me virar e perguntar. Me dava a resposta e ainda dizia ao técnico que estava me ajudando para fazer a congelação. Havia um patologista sempre disponível, após o término do exame e eu via as lâminas da minha autópsia que eu havia clivado na véspera e a congelação quando necessário (inacreditável, pelo menos para mim).”

Em cada local que Dr. Edson trabalhava, sempre em tempo integral, era recomendado um livro especializado, que ele lia (ex: radiologia, anatomia patológica, etc).

“Nos serviços, como Medicina Interna, havia livros presos por correntinha nos locais onde passávamos a visita, além de pequenos laboratórios a serem usados, inclusive exigidos, pois no Estados Unidos era comum se trabalhar mais de cem horas semanais. Não faltava nada, havia tudo disponível. Gente nova interessada aprende a ler até no banheiro. Para exemplificar, certa vez, de madrugada vi um paciente internado com crise hipertensiva importante. Consegui, com apoio da enfermagem, colher a urina dele. Me deram uma garrafa escura, acido clorídrico décimo normal para dosar ácido Vanil mandélico (VMA). No dia seguinte, me chamaram, me elogiaram e me ensinaram, que se eu suspeitasse de feocromocitoma, poderia ver a glicemia de jejum se fosse normal e na hora da crise hipertensiva tendo hiperglicemia. Este é o paciente que teve descarga adrenérgica e é o típico padrão para feocromocitoma (quem colhia o sangue éramos nós ).”

Dr. Edson recorda do episódio em que se cortou durante o trabalho:

“Um belo dia, percebi que ao tirar as luvas ao término de uma autópsia havia sangue no dorso de minha mão. Olhei para o fígado do paciente que eu havia deixado ma mesa para clivagem e feitura das lâminas das peças. Fiquei muito assustado, pois o paciente ictérico apresentava fígado típico de atrofia amarela aguda, ou seja, de hepatite aguda fulminante, que eu até já sabia, mas nunca teria passado pela minha cabeça me ferir justamente com este paciente. Por acaso, justamente naquela hora se encontrava no serviço o Dr Charles Mendenhall, MD, PhD em bioquímica, especialista e pesquisador em hepatologia. Estava vendo as lâminas dos pacientes que tinha acabado de ver em consultoria. Ele soube do ocorrido e veio falar comigo. Soube que eu era brasileiro e resolveu o problema da minha possível contaminação e também me perguntou o que eu pretendia fazer no futuro. Disse-lhe que teria interesse em gastroenterologia. Se despediu dizendo, quando você concluir a parte geral do seu Fellowship em gastroenterologia venha trabalhar comigo.”

Segundo Dr. Edson, o treinamento em gastroenterologia foi excelente. Endoscopia e radiologia, teve como orientador o Dr. Roscoe Muller, tido como um dos melhores radiologistas de aparelho digestivo dos EUA (métodos básicos da época, tais como gastracidograma, biópsias de intestino delgado com cápsula hidráulica e teste de secretina pancreozimina para doenças pancreáticas):

“O serviço tinha, inclusive, sala para raio-x, usado para posicionar  cápsula de biópsia de delgado, sonda para teste de secretina, etc., que eu, como os demais Fellows manuseávamos sozinhos. Após a RS, havia discussão clínica com todo o serviço, incluindo o chefe, Dr Philip Christiansen, MD. Porém, uma vez por mês, neste mesmo horário, além de mim, os fellows,  Dr. Da Silva e Dr. Glen Lehman se revezavam discorrendo sobre temas diversos em gastroenterologia.”

Nos últimos seis meses em Indiana, trabalhou com o Dr. Charles Mendenhal eu seu laboratório de pesquisa. Ele estava começando uma pesquisa com ratos separados em dois grupos, um com alimentação comum e o outro substituindo o hidrato de carbono por etanol, com a finalidade de estudar fibrose hepática.

“A pesquisa envolvia estudo de hidrolisado protêico hepático com cromatografia em gás, basicamente, prolina, hidroxiprolina, lisina e creio, não me lembro alanina.nA pesquisa começou comigo e para iniciá-la foi necessário preparar reagente metanol clorídrico décimo normal, que eu consegui fazer aproveitando conhecimentos de físicoquímica, química inorgânica e física (eu tinha ido ao serviço de pneumologia à mando do Dr Mendenhall, para saber como eles teriam resolvido o preparo do reagente e fui então informado que haviam desistido do projeto, pois não tinham conseguido preparar o reagente e ainda me deram um tubo, bala, de gás clorídrico para o preparo ). A história é mais complexa do que aqui está relatado, mas foi esta a chance que tive para permanecer nos Estados Unidos, pois o Dr. Christiasen, me chamou e me disse assim: Dr Lawrence Lumeng retorna do Canadá em julho e nos vamos encaminhar você para o lugar donde ele está retornando. Você precisa passar 2 anos fora dos EUA para trocar seu visto para o de permanente. Ponderei que eu passaria 2 anos no Brasil, ele então me disse que no Brasil não seria possível, teria que ser no Canadá para o centro médico que nós vamos lhe encaminhar. Então, falei que eu queria voltar para o Brasil. Em tempo: o Dr. Lumeng está aposentado da Universidade e foi “Diretor de Divisão”, na Indiana University, de 1984 a 2007 se aposentou recentemente, foi diretor do Instituto de Fígado.”

Com Dr. Mendenhall, o Dr. Edson Jurado fazia consultoria de pacientes com doença hepática, peritoneoscopia, hoje laparoscopia e procedimentos como biópsia hepática, colangiografia percutânea e laparoscópica e estudos de hemodinâmica com “indocianina green”. Nesta fase participava do setor de gastroenterologia fazendo endoscopia de urgência para hemorragia digestiva nos três hospitais da Universidade, alternando com Dr. Glem Lehmam e Dr. Rusche.

“Por outro lado, enquanto Fellow em gastroenterologia, trabalhava também, com salário específico para esse fim, na Emergência do Marion County General Hospital no horário, plantão de sábado à noite de 18:00 às 2:00, que se tornou para mim uma excelente experiência, um verdadeiro hobby. Retornei ao Brasil e sempre trabalhei com residentes, como é comum nos EUA. Eles nos animam e até nos ensinam, sem dúvida em todos os níveis. Talvez pelo meu interesse em ensinar (Dr. Chritiansen comentou sobre isso no dia que me despedi dele): disse que eu tinha uma capacidade especial para ensinar e que todas as vezes que tive oportunidade, me transfigurava e o problema da língua estrangeira  desaparecia! Praticamente, só tive excelentes residentes, na UERJ, no Centro Psiquiátrico Pedro II,no serviço de Endoscopia Digestiva, MS e no Hospital Federal dos Servidores do Estados, RJ, MS, serviço de coloproctologia. Para terminar tenho a dizer que a SOBED sempre foi especial, com pessoas excelentes em todos os níveis, trabalhando sério e com muita competência. É uma grande honra pertencer a essa organização.”

Dr. Edson Jurado foi Presidente da SOBED-RJ, de 1984 a 1986. Todos os anos participa de congressos no exterior, e entre os temas recorrentes de trabalhos apresentados, ele destaca a prevenção de câncer de colorretal.

Agora, o que muitos não sabem é que além de ter sido o “estudante de medicina do ano de 1966”, Dr. Edson Jurado também conquistou o título de “Cidadão honorário da cidade de Indianapolis”, fruto de sua passagem marcante pelo Marion County General Hospital, nos Estados Unidos. Como sempre deixando a sua marca por onde passa.

“A SOBED é excepcional. Ela teve e tem gente muito boa que está trabalhando sério e está evoluindo muito, como a medicina está evoluindo muito também. Eu tenho orgulho de pertencer à SOBED. Estou com 79 anos e não sei a hora em que a gente tem que parar. Confesso que rezo para não perder o passo, para sair na época certa. Acho que ainda tenho muita coisa para fazer até porque eu sempre, todo ano, estou levando um trabalho para os EUA. Nos Congressos do Brasil estou menos, inclusive, estou super receptivo para novas oportunidades, é só me chamar”

 

RESUMO PROFISSIONAL:

Graduado pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, Uni-Rio

Fellowship em Gastroenterologia, Marion County General Hospital, Indiana University Medical Center, Indianapolis Indiana, USA

Titular Especialista em Gastroenterologia pela Sociedade Brasileira de Gastroenterologia

Titular Especialista e Fundador da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva

Mestre em Medicina, Gastroenterologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Docente Livre em Gastroenterologia, Uni-Rio

Titular e Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Fellow do American College of Gastroenterology. “Governor” para o Brasil por dois turnos, com término em 2017

Cidadão Honorário da Cidade de Indianapolis Indiana USA

Perfil: Dr. Cleber Vargas

Em 1962, ele partia de Guaçuí, no Espírito Santo, para prestar vestibular de medicina no Rio de Janeiro, onde mais tarde teria a felicidade de assistir o nascimento da Endoscopia Digestiva, em 1969.

Dr. Cleber Vargas é um daqueles endoscopistas que não escondem o orgulho pela profissão e mais ainda de ter sido sócio fundador da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva -Estadual do Rio de Janeiro, em 1978, juntamente com um grupo enorme de colegas.

Como ex-presidente da SOBED RJ, de 1982 a 1984, ele recorda o espírito de convivência que sempre existiu, e que segundo ele, permitiu o intercâmbio de conhecimentos e o progresso da endoscopia no Brasil.

“Eu acho que o grupo que geriu a SOBED conseguiu aglomerar especialistas de várias regiões do país. Nos dávamos muito bem porque o espírito de trabalho e os objetivos eram os mesmos, isso facilitou muito o progresso da sociedade e atraiu cada vez mais médicos, o que trouxe um desenvolvimento importantíssimo do número de pessoas para aderir e aprender a especialidade. A cada novidade a gente absorvia imediatamente e isso nos colocou no 1° time da endoscopia mundial”, ressalta Dr. Cleber Vargas.

Formado pela Faculdade Nacional de Medicina (atual UFRJ), ele participou da inauguração do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), e coleciona muitas histórias do início da carreira:

“Quando eu me formei só existia praticamente a endoscopia rígida, aquela endoscopia com os tubos. Seja um tubo que era introduzido no esôfago ou um tubo que era introduzido pela traqueia. Então, nós assistimos nascer pelos anos de 1969/1970, os fibroscópios. Primeiro saiu um fibroscópio que a gente não via diretamente, era um fibroscópio chamado endoscópio, a imagem era projetada numa tela e você não via diretamente. Porque não era fibroscópio, era um endoscópio que tinha uma lâmpada na ponta que justamente iluminava e trazia a imagem para fora. Mas isso durou pouco porque, um pouco antes dos anos 70, os japoneses lançaram o fibroscópio, que era um endoscópio de fibra de vidro que transmitia a imagem diretamente. Você observava como se tivesse lá dentro olhando o intestino, o estômago. Essa foi a fase inicial da endoscopia. Depois, então, foi possível projetar a imagem em tela de televisão: a videoendoscopia. Quer dizer, você não precisava ficar olhando diretamente no aparelho para ver o que estava dentro do estômago, ou do intestino, e sim, a imagem do endoscópio era projetada numa tela de televisão e você confortavelmente via”, relata.

Dr. Cleber fez residência médica na Santa Casa do Rio de Janeiro, trabalhou no Hospital Federal do Andaraí por 15 anos e no Hospital Federal de Ipanema pelo mesmo período e também atuou no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ). Ele relembra como as novas tecnologias foram sendo incorporadas e auxiliaram na realização dos exames:

“Utilizar o aparelho para observar internamente foi só a 1° etapa. A etapa seguinte foi você vendo a doença, a operação, e o problema pelo endoscópio. Passávamos a atuar. Com isso, desenvolvemos diversos procedimentos que permitiram não só ver a doença, mas como tratar dela. Como exemplos, cito a polipectomia, depois esclerose de varizes, coagulação de vasos, introdução de próteses. Antes disso, também pelo endoscópio, foi possível “abrir a passagem para a comida passar” ou seja, a dilatação por endoscopia. Já logo depois da década de 70 foi o início da chamada endoscopia terapêutica, quer dizer, começou-se a trabalhar, a agir, a manusear dentro do estômago ou do intestino para tratar as doenças. E logo depois, veio a abordagem da via biliar através da colangeopancreatografia endoscópica”, afirma.

Dr. Cleber relembra os pioneiros da Endoscopia Digestiva no país: “Quem primeiro introduziu a técnica foi um colega nosso: o Dr. Glaciomar Machado, aqui no Rio de Janeiro. E depois vários outros médicos começaram a fazer: Dr. Luiz Leite Luna, Dr. Penteado, entre outros.”

Segundo Dr. Cleber, o conhecimento era difundido no Brasil através do intercâmbio com mestres do exterior, principalmente da Europa e EUA, que vinham a convite da SOBED para dar aulas e demonstrações.

“A segunda maneira era ir pessoalmente aonde estavam estes professores e passar com eles um tempo aprendendo o trabalho. Foi um aprendizado de duas vias. Não só os professores eram trazidos para nos ensinar, como também muitos de nós fomos até Estados Unidos, Europa (França, Alemanha) para completar lá os estudos. Houve esse intercâmbio muito benéfico para nós da endoscopia. Destaco o Dr. Claude Liguory (França), o Dr. Classen e o Dr. Jerome Waye (EUA).

Para este capixaba, nascido em 22 de outubro, falar sobre a endoscopia digestiva é reviver a sua própria história:

“Me senti feliz e realizado por ter sido premiado pela especialidade ter surgido justamente na minha época. Eu devo a ela toda satisfação profissional que eu tenho porque eu vi nascer, crescer e dar frutos, é como se fosse parte de mim. Então, é por isso que eu tenho a endoscopia como uma coisa preciosa.”

Perfil: Dr. Luiz Leite Luna

A SOBED-RJ começa nesta semana uma série de matérias especiais mostrando perfis de grandes nomes da endoscopia digestiva fluminense. O nosso primeiro convidado é o Dr. Luiz Leite Luna.

Em 1967, a “Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil” (atual UFRJ) formava um jovem médico endoscopista que se tornaria referência na área.

Dr. Luiz Leite Luna, nasceu em Penedo (Alagoas), em 12 de dezembro de 1943, mas foi no Rio de Janeiro que construiu a base da sua trajetória profissional.

Realizou Residência Médica na própria universidade, em 1968, e fez fellowship em Boston, na Lahey Clinic Boston S.A, de 1969 a 1971.

“Quando eu cheguei aqui no Rio, em 1972, já funcionava o Hospital do Andaraí, onde fui trabalhar. Durante todo o período em que atuei neste hospital público eu assumi o serviço de endoscopia e fiz o 1º Centro de Hemorragia Digestiva do Brasil e talvez o primeiro do mundo! Do Brasil certamente foi o primeiro. Vinha todo mundo ver esse serviço pioneiro”, recordou Dr. Luna.

Além de trabalhar em sua clínica particular, Dr. Luna atendia em praticamente todos os hospitais da cidade. Segundo ele, eram quatro noites por semana para fazer emergências nos hospitais do Rio de Janeiro.

Ele relembrou como eram realizados os exames endoscópicos no início da sua carreira:

“Eu já peguei fibra de vidro, já peguei os fibroscópios Olympus e as gastrocâmaras. E logo em 1971 veio os fibroscópios, que se chamavam GIFD. Tinham os coledoscópios curtos da Olympus, chamados CFSD.”

Dr. Luna ressaltou que todo o material usado em seu trabalho era feito de forma artesanal:

“No começo, só pinça de biópsia pois a gente não fazia nenhum procedimento cirúrgico. Mas a partir de 1974, a gente começou a usar alças e agulhas de injeção que a gente mesmo fabricava. Não tinha nada comercial ainda. A gente que fazia com cateter, agulhinha de insulina. E as primeiras sondas de gastrostomia também eramos nós que fazíamos, com sondas urológicas.”

A partir de 1976, ele relembra o início da Endoscopia Digestiva Alta, realizada no Hospital Federal de Ipanema, Hospital Federal de Bonsucesso, Hospital Federal dos Servidores do Estado.

“De início era somente diagnóstico. Logo depois, em 74, a gente começou a tratar hemorragia digestiva através de esclerose e de eletrocoagulação. Um pouco mais pra frente a gente começou a fazer ligadura elástica nas varizes e começamos também a tirar, a injetar. Por volta de 1967, começamos a tirar os polímeros, as politectomias. E em 1974, eu fiz a primeira ensfincterotomia endoscópica para cálculo, ou seja a primeira papilotomia endoscópica.”

Entre outros avanços da década de 70, ele destaca a colocação de prótese em esôfago, para tumores de esôfago, além de dilatações de esôfago.

Mesmo vivendo em solo carioca, Dr. Luiz Leite Luna, nunca deixou de viajar para o exterior para se atualizar.

“Todo ano eu ia aos congressos americanos, além de viajar para França e Alemanha, trocar experiência com os amigos de lá. Na França, via os serviços do Claude Legori, que veio muito à SOBED a meu convite, e na Alemanha eu fui algumas vezes ver o serviço do Dr. Demling, que era um professor famoso, também do Prof. Lazo Safrani, logo no começo da papilotomia. Inclusive, o Dr. Claude Legori fez, em 1973, a primeira papilotomia endoscópica no Brasil, em Niterói, e eu estava junto.”

Segundo ele, só existiam duas revistas especializadas, as quais ele sempre recebia: Endoscopy e o Gastro Intestinal Endoscopy.

Dr. Luna também fundou o atual serviço de Endoscopia do Hospital São Vicente de Paula. Foi fundador, membro honorário da SOBED e presidiu a Sociedade de 1992 a 1994. É membro da Sociedade de Gastroenterologia, desde 1972, e foi membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Através da SOBED, editou quatro livros sobre atualizações em endoscopia digestiva:2

2014 – “Atualizações em hemorragia digestiva”

2016- “Atualização em terapêutica no esôfago”

2018- “Atualização e terapêutica no estômago e intestino delgado”

2019- “Atualização terapêutica nos cólons”

Com uma carreira brilhante na bagagem, encerramos a entrevista perguntando qual seria o seu maior feito. A resposta:

“Quatro filhos foi a minha melhor obra, com certeza.”