Perfil: Dr. Alexandre Abrão Neto

Carioca, nascido em 20 de maio de 1949, ele se tornaria estudante de Medicina da UERJ e passaria a fazer os primeiros exames endoscópicos em 1972. Hoje, o Dr. Alexandre Abrão Neto é o chefe do Serviço de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da UERJ. Orgulho e dedicação definem a sua trajetória:

“Entrei na UERJ em 1968. Me formei em 1973. Fiz residência lá, mestrado na UFRJ e doutorado na UERJ, também. Basicamente, eu vi toda evolução da endoscopia. Eu diria que hoje o serviço de endoscopia da UERJ não deve nada a nenhum centro de endoscopia americano ou europeu. Hoje, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, nós fazemos todos os métodos endoscópicos que existem, inclusive, cápsula endoscópica e ecoendoscopia, com exceção, da enteroscopia com duplo balão, por ser muito caro e de pouquíssima indicação. Já a residência médica é privilegiada. Anualmente, nós formamos 4 profissionais. São 2 anos de residência, e em geral, eles saem preparados para o mercado brasileiro e internacional.”

Para o Dr. Alexandre Abrão, o sucesso do serviço de endoscopia da UERJ se deve ao esforço de muitos profissionais que, assim como ele, trabalharam com os mais diversos aparelhos e materiais ao longo dos anos:

“A UERJ, em 1972, só contava com um endoscópio rígido (Chevalier-Jackson). O paciente era colocado em decúbito dorsal (com a barriga para cima) e a gente via o esôfago, por visão direta. Depois, com o indivíduo em decúbito lateral esquerdo, a gente passava o gastroscópio (Olympus-GTFA, de visão lateral), e conseguia ver o estômago. Na época, não dava para ver o duodeno. E desse jeito trabalhamos por muitos anos. Só em 1976/77 que a gente fez a primeira colonoscopia, com um aparelho muito grosso e muito difícil de fazer a sedação, com diazepam na veia. Era um exame muito complicado. Além disso, os exames eram feitos só uma vez por semana; durante uma manhã junto com a broncoscopia, que a gente fazia também.”

Além da UERJ, Dr. Alexandre relembra dos primeiros serviços públicos que realizavam endoscopia digestiva, na década de 70, como o Hospital Municipal Miguel Couto, com o Dr. Glaciomar Machado que fazia os exames; o Hospital do Andaraí, com o Dr. Luiz Leite Luna, que mais tarde abriria o Centro de Hemorragia Digestiva, hoje uma referência nacional; além da Santa Casa da Misericórdia, e do antigo Iaserj (Instituto Estadual de Assistência ao Servidor Público), na Cruz Vermelha. Ele recorda que os hospitais da UFRJ eram espalhados pela cidade, já que não existia ainda o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, inaugurado só em 1978.

“Eu sei que o primeiro videoendoscópio em hospital público foi a UERJ que teve, no HUPE. O material era da Welsh-Allyn. E houve uma evolução muito grande. Pois você via as endoscopias através da objetiva, quer dizer, com o olho na câmera, e depois com a videoendoscopia a gente passou a olhar pra televisão. Inclusive, antes disso, toda colonoscopia era com objetiva. Era olho no endoscópio, era uma coisa muito primária. Já com a videoendoscopia, passou-se a fotografar, a filmar. Foi um grande salto!”

Outra evolução muito significativa veio com a laparoscopia. Dr. Alexandre ressalta a importância de seu professor Dr. Edson Jurado, que era o grande chefe na época desta área, na UERJ:

“A gente desenvolveu a laparoscopia de urgência pois não existia ultrassonografia. Então, se a pessoa tinha um abdômen agudo, tipo uma apendicite ou uma gravidez tubária, não tinha ultrassom, só raio-x. Então, na época, a gente desenvolveu a laparoscopia de urgência e a laparoscopia eletiva para fazer biópsia de fígado, biópsia de peritônio e biópsia de baço, desenvolvida pelo Dr. Paulo Pinho, na década de 80. Obviamente, fomos basicamente nós, endoscopistas, que ensinamos aos cirurgiões a fazer laparoscopia. A partir daí, eles desenvolveram cirurgia laparoscópica, cujo pioneiro foi Dr. Delta Madureira, aqui no Rio de Janeiro, que é cirurgião. E também o Dr. José Dib Mourad, também cirurgião, que aprendeu a fazer laparoscopia conosco, em conjunto com o Dr. Paulo Pinho, eminente endoscopista e professor em atividade no HUPE. Eu atuei sempre na UERJ, junto com o Dr. Edson Jurado, que foi o meu professor e trabalhávamos juntos! Ele voltou dos EUA, e então, em 1972, eu ainda era estudante e comecei a trabalhar com ele. Depois, fui residente dele em 1974/75”, relata.

Para estar sempre atualizado, Dr. Alexandre costumava viajar para Alemanha, França e Nova Iorque.

“A gente visitava os serviços que eram referência, como o do Dr. Jerome Waye, um excelente colonoscopista à época, com o qual nós aprendemos muita coisa. A gente via como eles trabalhavam e tentávamos fazer isso aqui com sucesso. Mas também tinha muita coisa que fazíamos e que ensinávamos para eles. Inclusive, o Dr. Glaciomar Machado, nesse ponto era mestre. Ele levou para Alemanha algumas de suas técnicas e estas passaram a ser desenvolvidas lá, graças a ele!”

Além da carreira científica, Dr. Alexandre ocupou diversos cargos relevantes. Foi presidente da SOBED-RJ, de 1986 a 1988. Foi secretário da Sociedade Pan-Americana de Endoscopia Digestiva e secretário-geral da Organização Mundial de Endoscopia Digestiva. Também editou vários capítulos de livros de Endoscopia Digestiva e Gastroenterologia, além de muitos artigos.

Atualmente, ele encara um novo desafio, talvez o maior até hoje: em conjunto com mais 28 médicos de sua equipe colabora no controle da epidemia do coronavírus, já que o HUPE é referência para doentes graves do covid-19.

“Os doentes menos graves devem ficar no Hospital Acari e os mais graves, que precisam de respirador e CTI, devem ir para o Hospital Pedro Ernesto. Nós vamos ajudar, cada um fazendo a sua parte. Quem está à frente é o diretor do hospital, Dr. Ronaldo Damião, e o secretário de saúde, Dr. Edmar Santos.”