Dia das Mães: SOBED-RJ mostra um pouco da rotina de ser mãe e endoscopista

O segundo domingo de maio é o dia delas. Assim, é comemorado desde 1932, quando a data foi instituída no Brasil! Com muito orgulho, a SOBED-RJ parabeniza todas as mães endoscopistas e, neste dia especial, conversou com duas associadas, tendo em vista retratar a rotina de ser mãe e endoscopista.  As Dras. Elizabeth Castro e Paula Peruzzi têm muito em comum além do “malabarismo”, como elas mesmo definem, para conciliar maternidade e carreira.

Casada e mãe de três filhos, Dra. Elizabeth Castro é especialista em Endoscopia Digestiva. Formou-se pela UERJ em 1982, fez residência e mestrado na UFRJ, e depois passou no concurso como médica do HUCFF-UFRJ. Primeiramente, atuou na área clínica, no CTI, e depois foi admitida no tão sonhado Serviço de Endoscopia, o qual já acompanhava extra oficialmente desde a sua tese de mestrado sobre hepatites autoimunes.

“Quando eu terminei a minha residência, houve concurso para área clínica, no CTI, e passei, em 1989. Então, fora do meu horário, eu frequentava, o serviço de Endoscopia Digestiva. O meu treinamento foi feito dessa forma, até que eu consegui ser liberada do CTI, para integrar o staff da endoscopia, em 1992. Sempre tive esse objetivo, mas atingir não foi algo tão direto assim. Naquela época, eu acho que eu tinha uma carga horária de trabalho de 70 horas por semana”, brinca.

Dra. Elizabeth treinou diversos residentes e se dedicou ao trabalho no HUCFF, como membro do staff da endoscopia, até 2002. De 2016 a 2018, foi presidente da SOBED-RJ. Hoje, ela continua no time de endoscopistas do Hospital Federal de Ipanema, onde sempre trabalhou em paralelo, desde 1992. E se sente uma mãe e uma profissional realizada:

“Eu fui mãe aos 34 anos. Primeiro, veio a Lilian. Eu já tinha terminado o mestrado e minha carreira já estava mais definida. Ao retornar da licença maternidade, iniciei no Hospital de Ipanema, em outubro de 1992. Lembro que foi o nascimento dela que me deu coragem para tomar decisões que foram importantes na minha carreira, como a minha transferência do CTI do HUCFF para o serviço de endoscopia, no mesmo ano, pois fui assertiva ao deixar claro que não mais poderia acumular as duas funções. Três anos depois, vieram os gêmeos Fabio e Gustavo. Foi uma loucura. Foi difícil. Mas não me arrependo de nada. Mesmo com todas as dificuldades que tive no caminho, eu acabei fazendo o que gosto. Acho que isso é um privilégio. São poucas mulheres que tem o privilégio de trabalharem naquilo que gostam. E acho que hoje em dia está bem melhor. Existem muitas mulheres fazendo Endoscopia Digestiva. A Paula foi minha residente. Eu participei do treinamento dela e vê-la hoje como uma pessoa de referência é uma satisfação enorme. Me orgulho muito de vê-la”, conclui a Dra. Elizabeth.

A Paula que a Dra. Elizabeth Castro menciona é a Dra. Paula Peruzzi, casada e mãe de dois filhos e uma enteada, que é especialista em Endoscopia Digestiva Pediátrica. Formou-se pela UFRJ, em 1999, onde realizou residência, mestrado e doutorado em Gastroenterologia. Hoje, atua nos Serviços de Endoscopia Digestiva Pediátrica do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e do Hospital Estadual da Criança.

“A escolha da Endoscopia Pediátrica aconteceu antes de engravidar. Eu sempre quis trabalhar com crianças, mas não me interessava pela área clínica da pediatria. Durante a residência me interessei muito pela Endoscopia Digestiva. Tinha um turno que a querida Beth, Dra. Maria Elizabeth Castro, com quem tenho a honra de participar junto nesta entrevista, fazia exames no HUCFF-UFRJ de crianças escolares e adolescentes. Eu adorava participar! Ao acabar a residência, uma grande amiga de faculdade, anestesista pediátrica, me sugeriu fazer a especialização no Instituto Fernandes Figueira. E eu me apaixonei pela Endoscopia Pediátrica”, recorda Dra. Paula.

Em 2003, Dra. Paula concluiu a Capacitação Profissional em Endoscopia Digestiva Pediátrica do IFF. Em 2005, terminou o mestrado. E em 2006, veio a maternidade junto com a aprovação no concurso da Fiocruz.

“Me tornei mãe em junho de 2006, no início da minha carreira. Fiz concurso para ingressar no IFF no sexto mês de gestação do Lucas, e a prova de título de especialista da SOBED já grávida da Manu. Brinco com eles dizendo que sempre me ajudaram a passar nas provas, e eles adoram! Mas confesso que foi bastante difícil no início conciliar a maternidade e a Medicina. Os meus filhos tiveram que ir cedo para a creche do IFF e eu fiz questão de continuar amamentando. Então, foi uma fase bem cansativa, levava bomba de leite e geladeira térmica para o trabalho. No entanto, a parte mais complicada foi o doutorado, com dois filhos pequenos e trabalhando. Tive algumas mudanças na minha vida pessoal durante o período e, realmente, cheguei a pensar que não daria conta. Mas o suporte de avós presentes, meus pais e a babá da minha infância, foi fundamental para conseguir concluir meus projetos. Tinha pouco tempo livre para mim. Demorei mais do que pretendia para defender a tese, mas hoje vejo que valeu a pena toda dedicação. Meus filhos se orgulham e vibram com cada conquista”, ressalta Dra. Paula.

Dra. Paula, que concluiu o doutorado em 2016, ressalta que a Medicina não é uma profissão em que se pode exercer sem dedicação e atualização. Por isso, aliar esta escolha com a maternidade sempre foi desafiador.

“Eu nunca abri mão de estudar e me dedicar com seriedade ao trabalho que amo. No entanto, é impossível fazer tudo que gostaria profissionalmente, sem me ausentar ainda mais da vida dos meus filhos. Recentemente, fiz um estágio em um hospital pediátrico na Califórnia e fiquei um período bem menor do que desejava, pois seria bastante tempo longe deles. Muitas vezes não consigo aprender todos os métodos endoscópicos que gostaria, realizar todos os cursos que planejava, e nem aceitar alguns convites, até mesmo na SOBED. As crianças estão em uma fase que ainda precisam muito da minha presença e esse tempo não vai voltar. Algumas escolhas profissionais podem esperar, e talvez “essa espera” faça com que alguns projetos nunca aconteçam, perca o momento. Mas, tudo bem, essa é uma das maravilhas da maternidade: compreender que todas as escolhas envolvem renúncias. Sou bastante grata ao que consegui conquistar até aqui”, finaliza.

Dra. Elizabeth também reconhece que a especialidade escolhida sempre exigiu muita disponibilidade para o trabalho:

“Você tinha que ser insistente e o mercado de trabalho ainda é pior para a mulher em todas as áreas, principalmente, quando você está no início da carreira, que te exige tudo ou nada. Ou você estava disponível sempre para qualquer emergência, e naquela época as emergências em endoscopia eram muito mais frequentes do que hoje, ou você era aquela pessoa com quem não dava para contar. Você era riscada da lista de contatos”, lembra.

Segundo ela, os próprios filhos brincavam com essa questão de terem uma mãe muito ocupada:

“Quando a minha filha tinha 8 anos ela chegou a dizer que a minha profissão devia ser muito divertida. Ela questionou: se você diz que ganha pouco, que trabalha muito, que queria ficar mais com a gente, mas que não pode, e mesmo assim, você continua fazendo isso, é por que deve ser muito divertido!!”

E complementa com outra lembrança:

“Quando os meus filhos eram pequenos e o telefone tocava, eles já sabiam que iriam perder a mamãe para o trabalho. Principalmente, quando reconheciam os médicos que ligavam, como era o caso do Dr. José Flávio, pai do Dr. Djalma Coelho, atual presidente da SOBED-RJ”, brinca Dra. Elizabeth.

Para as duas endoscopistas, a maternidade aflorou o lado mais sensível no trato com os pacientes. Dra. Elizabeth diz:

“Ser mulher já te dá uma visão um pouco diferente das coisas, independente de ser mãe, em termos de cuidado. Eu acho que a maternidade me fez ficar muito mais sensível quando eu vejo uma mãe sofrendo com a doença de um filho ou um pai sofrendo. Eu sabia que era uma coisa dolorosa, mas eu não sabia quão dolorosa poderia ser”, comenta.

Já a Dra. Paula ressalta:

“Após me tornar mãe, compreendi melhor este amor incondicional entre mãe e filho. Compreendi que a expectativa de um filho é de alegria, e que o processo de adoecimento de uma criança envolve uma série de frustrações e temores dos pais. Nós médicos, em especial os pediatras, escolhemos tratar estes pacientes. Mas as mães, estas jamais escolheram ter um filho doente. A maternidade me deu mais tolerância e empatia na relação médico-paciente, principalmente com as mães de crianças especiais e com doenças crônicas, que tanto respeito e admiro. Aprendo a cada dia com elas, como profissional e como mãe também.”

Nesse Dia das Mães, o que elas desejam é que as mulheres continuem fazendo trabalhos de excelência na endoscopia.

Filhos: Lilian (28), Fábio e Gustavo (24 anos)

Dra. Elizabeth (mãe da Lilian, do Fabio e do Gustavo):

“A SOBED abriga jovens e estimula a todos. Temos que agradecer ao nosso presidente, Dr. Djalma, por esse olhar mais feminino e trazer esse assunto a discussão. Tenho muito a agradecer a todos que me ensinaram, e como sou muito grata a todos, faço questão de ensinar também, para que brilhem no futuro. Aproveito para agradecer aos meus preceptores, e em especial, à chefe do serviço de Ipanema, Dra. Ana Zuccaro, que é uma pessoa que sempre incentivou muito o trabalho de todos”, conclui.

Filhos: Lucas (13), Manuela (10) e enteada Fernanda (14 anos)

Dra. Paula (mãe do Lucas, da Manuela e da enteada Fernanda):

“Aproveito para agradecer ao Dr. Djalma pelo convite e pela homenagem às mães endoscopistas. Fica aqui toda minha admiração pelas minhas colegas de trabalho endoscopistas e mães, muitas que tive o prazer em trabalhar junto e representar nesta entrevista, contando um pouco da minha história. Cada uma com suas dificuldades, mas que seguem se equilibrando nesta árdua tarefa de exercer tantas funções ao mesmo tempo. Para as endoscopistas mais jovens, não tenham medo da maternidade atrapalhar a carreira. É inevitável que interfira em alguns momentos, mas os filhos nos dão força que não imaginamos ter”, diz.

Diante da pandemia de covid-19, elas deixaram a seguinte mensagem:

Dra. Paula:

“Para as minhas colegas endoscopistas que também continuam trabalhando durante esta pandemia, segue minha admiração. Quero também parabenizar a diretoria da SOBED por ter se posicionado e elaborado prontamente um documento para endoscopia segura durante a pandemia de covid 19. Não está sendo fácil sair para trabalhar com tantas preocupações e angústias, mas as outras doenças não param e muitos dos nossos pacientes não podem esperar isto tudo acabar. Por favor, protejam-se com os EPIs adequados. É maravilhoso o rótulo de “super-heróis”, mas o único super poder dos profissionais de saúde é a CORAGEM de arriscar a própria vida e de nossas famílias, para continuar honrando um juramento que fizemos. Precisamos estar protegidas para continuarmos presentes na vida de quem amamos e onde realmente somos insubstituíveis: na vida de nossos filhos! Para as profissionais de todas as áreas que estão na linha de frente desta pandemia, em especial as intensivistas e enfermeiras de CTI, MUITO OBRIGADA!!! É incrível o que tem feito pela nossa população!! Vocês são admiráveis!!!!!”, afirma.

Dra. Elizabeth:

“A covid-19 praticamente paralisou todos os serviços públicos e privados de endoscopia. Isso nos faz refletir o quanto a medicina avançou pois os casos emergenciais de hemorragia digestiva diminuíram muito. Hoje em dia, a endoscopia é muito mais atribuída para diagnósticos e tratamentos variados. Até existem procedimentos cirúrgicos, mas na maioria são eletivos. Então, vamos usar os EPIs e esperar que este momento difícil passe”, comenta.

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