SUS, ciência e universidades se valorizam na pandemia, sugere pesquisa

fonte: Folha de SP

A pandemia de Covid-19 fez com que disparasse o número de brasileiros que valorizam o SUS (Sistema Único de Saúde), a ciência, as universidades públicas e os hospitais universitários.

De acordo com pesquisa recente do centro de estudos Sou_Ciência (Sociedade, Universidade e Ciência), antes da chegada do coronavírus, 40% dos brasileiros atribuíam importância altíssima ao SUS. Agora, essa cifra passou para 62%.

Ao mesmo tempo, o percentual dos que dão importância baixa ou baixíssima ao Sistema Único de Saúde caiu de 14% para 9%.

O estudo confirma a percepção de gestores e profissionais da saúde, que já vinham apontando para uma redescoberta do SUS.

O Sou_Ciência, centro de estudos sediado na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), entrevistou 1.268 pessoas com 16 anos ou mais em todas as regiões do país, respeitando recortes demográficos baseados na Pnad de 2018 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) e no Censo de 2010, ambos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). As entrevistas foram conduzidas entre os dias 2 e 5 de agosto e tem grau de confiança de 95%.

A pesquisa, feita em parceria com o Instituto Idea Big Data, mostrou também uma valorização da ciência, cuja importância era vista como altíssima por 47%, antes da pandemia, e que passou para 70% agora.

O percentual dos que dão importância baixa ou baixíssima para a ciência despencou de 12% para 5%.

A valorização da ciência ocorre mesmo entre os que consideram ótimo ou bom o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), embora o presidente tenha dado inúmeras demonstrações de desapreço pelo método científico.

Segundo Pedro Fiori Arantes, professor de história da arte da Unifesp e um dos coordenadores do Sou_Ciência, o próximo passo da pesquisa é entender melhor esse fenômeno chamado por ele de perfis cruzados. “São os bolsonaristas a favor da ciência e da universidade pública e, do outro lado, temos críticos ao governo que não são favoráveis à ciência e a universidade”, afirma.

Para o Arantes, uma possível explicação preliminar para os perfis cruzados seria o fato de os apoiadores do presidente terem maior renda e escolaridade do que a média da população.

Os pesquisadores também coletaram dados relacionados à vacinação contra a Covid-19. Do total de respostas, somente 5,5% disseram que não tomaram nenhuma dose e não pretendem fazê-lo. O resultado é semelhante a pesquisa Datafolha que mostrou adesão recorde às vacinas.

O papel das universidades públicas e dos hospitais universitários foi outro eixo da pesquisa. Nesse caso, o percentual dos que atribuem importância altíssima passou de 42% para 59%.

O Sou_Ciência também questionou os entrevistados sobre a ampliação do número de universidades e institutos federais no país. Pouco mais da metade (52%) disse ser favorável à retomada da expansão da educação superior pública e gratuita e de aumentar esse tipo de investimento. Uma fatia minoritária (8%) defendeu privatizar as universidades e/ou cobrar mensalidade, além de reduzir o investimento no setor.

Para Soraya Smaili, ex-reitora da Unifesp e uma das coordenadoras do Sou_Ciência, o aumento da confiança no SUS, nas universidades públicas e na ciência brasileira estão interligados. Segundo ela, o Brasil conta com 40 hospitais universitários que compõem uma rede decisiva de atendimento durante a pandemia e que causou grande impacto em como as pessoas enxergam a saúde pública.

“As nossas universidades tiveram um papel fundamental na promoção da saúde, na realização de exames para diagnósticos, na produção de pesquisas clínicas para novos tratamentos e também na obtenção das vacinas contra a Covid-19”, diz.

A política de cotas raciais foi outro ponto abordado na pesquisa. Pouco menos da metade dos entrevistados (44%) disse ser a favor da continuidade dessa política pública, enquanto 19% defendem seu cancelamento.

Outro ponto que os pesquisadores investigaram foi o meio utilizado quando os entrevistados buscam informação confiável sobre pandemia, prevenção, tratamento e vacinas. Televisão aberta (44%), mídias sociais (39%) e revistas e jornais (35%) foram as mais indicadas em pergunta com múltiplas respostas possíveis.

Pedro Fiori Arantes afirma que esse dado mostra que, mesmo com as redes sociais, a mídia tradicional ainda é vista como a mais segura e confiável para grande parcela da população.

Comunicações oficiais do governo federal (27%) e das instâncias estaduais e municipais (31%) aparecem um pouco atrás. Pronunciamentos oficiais de Bolsonaro foram apontados como fontes confiáveis de informação por 9% dos entrevistados.

Sites de institutos de pesquisas e universidades foram indicados por 32%.

“Essa informação é promissora, no sentido de que a população está disposta a ouvir e procurar informações nas universidades, mas existe uma desigualdade enorme [no acesso a esses canais] entre pessoas de maior renda e instrução e aquelas de renda baixa e com menor instrução”, afirma Arantes, que vê o grande desafio da ciência brasileira conseguir ser mais acessível para maior parcela da população.

“É importante que as universidades e os cientistas tenham canais instituídos, de ampla divulgação e mais reconhecidos”, afirma Arantes.