{"id":10713,"date":"2020-08-10T13:07:29","date_gmt":"2020-08-10T13:07:29","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=10713"},"modified":"2020-08-18T11:32:20","modified_gmt":"2020-08-18T11:32:20","slug":"pesquisa-vai-mapear-o-esgotamento-dos-medicos-durante-pandemia-da-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2020\/08\/10\/pesquisa-vai-mapear-o-esgotamento-dos-medicos-durante-pandemia-da-covid-19\/","title":{"rendered":"Pesquisa vai mapear o esgotamento dos m\u00e9dicos durante pandemia da Covid-19"},"content":{"rendered":"<p>fonte: CNN Brasil<\/p>\n<p>Atuando em unidades de sa\u00fade da capital, no auge da pandemia da Covid-19, o que o neurologista infantil e pediatra Vin\u00edcius \u2014 que pediu para omitir o sobrenome \u2014 mais temia aconteceu. Ele contraiu o novo coronav\u00edrus e viu seus familiares tamb\u00e9m se infectarem. Entre maio e junho, ele teve de lutar contra a doen\u00e7a e ser o m\u00e9dico da mulher, dos dois filhos \u2014 um deles rec\u00e9m-nascido \u2014, da sogra e de dois av\u00f3s. Foi um estresse intenso que deixou marcas, n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsicas. S\u00f3 n\u00e3o foi pior porque a mulher, psiquiatra, o ajudou a manter o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Para avaliar at\u00e9 que ponto a pandemia est\u00e1 mexendo com os nervos dos profissionais de sa\u00fade, pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo) est\u00e3o selecionando 500 m\u00e9dicos da linha de frente contra a Covid-19 para conhecer o impacto, entre eles, da s\u00edndrome de burnout.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m conhecida como s\u00edndrome do esgotamento profissional, o problema afeta 32% dos trabalhadores brasileiros, segundo a International Isma-BR (Associa\u00e7\u00e3o do Gerenciamento do Estresse). Seus sintomas s\u00e3o cansa\u00e7o extremo, sensa\u00e7\u00e3o de incapacidade, dor abdominal e resist\u00eancia a ir para o trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Com a crescente demanda de pacientes infectados pelo novo v\u00edrus com o risco de morte sempre presente, prevemos um aumento do estresse ocupacional no setor. A probabilidade \u00e9 de que a situa\u00e7\u00e3o seja mais grave nos epicentros da epidemia, como o estado de S\u00e3o Paulo&#8221;, explicou a autora da pesquisa, Gabriela Correia Netto. O projeto ter\u00e1 supervis\u00e3o da professora Laura Camara Lima. Ser\u00e3o avaliados 250 m\u00e9dicos que atuam diretamente com a Covid-19 e outros 250 de outras \u00e1reas.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Pesquisa de junho da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Medicina ouviu 1.984 profissionais em todo o pa\u00eds. O que revelou: 69% manifestaram ansiedade; 63,5%, estresse; 49%, exaust\u00e3o emocional \u2014 76% atendem mais de 20 pacientes por dia. E 60% trabalham na linha de frente da Covid-19.<\/p>\n<p>O desafio n\u00e3o para a\u00ed. Um em cada tr\u00eas m\u00e9dicos presenciou epis\u00f3dios de agress\u00f5es a colegas e outros profissionais em \u00e1reas de atendimento ao longo da pandemia. A maioria dos 72% que admitem n\u00e3o ter pleno conhecimento da pandemia diz estar na linha de frente da doen\u00e7a por quest\u00e3o humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um exemplo concreto: do in\u00edcio da pandemia at\u00e9 30 de julho, 3.047 profissionais de sa\u00fade se afastaram do trabalho na secretaria municipal de Sa\u00fade paulistana. Reconhecendo a relev\u00e2ncia do problema, o \u00f3rg\u00e3o desenvolve desde abril um projeto piloto de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade mental dos servidores que os atende no hospital de campanha do Anhembi.<\/p>\n<p>Riscos da s\u00edndrome de burnout<\/p>\n<p>A s\u00edndrome de burnout, diz a professora Laura, afeta profissionais que se relacionam com pessoas. &#8220;O trabalho do m\u00e9dico, do enfermeiro, implica lidar com a dor, o sofrimento e a morte. M\u00e9dicos n\u00e3o podem errar. T\u00eam de enfrentar escolhas \u00e9ticas como decidir por uma cirurgia, por um diagn\u00f3stico. Imagina o que \u00e9 fazer uma escolha entre quem vai para a UTI e quem n\u00e3o vai.&#8221;<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica do burnout \u00e9 a perda no n\u00edvel de confian\u00e7a na profiss\u00e3o e na pr\u00f3pria medicina. &#8220;Embora o trabalho dos m\u00e9dicos esteja sendo reconhecido e exaltado, h\u00e1 casos de preconceito, de xingamentos e agress\u00f5es&#8221;, diz Laura.<\/p>\n<p>O terceiro fator, acrescenta a supervisora, \u00e9 a despersonaliza\u00e7\u00e3o, quando o profissional n\u00e3o aguenta mais o contato com os pacientes. O sentimento heroico inicial se transforma em indiferen\u00e7a, aparecem a ins\u00f4nia e a irritabilidade.<\/p>\n<p>Outro exemplo<\/p>\n<p>A auxiliar de enfermagem Janaine Silva, que mora em Sorocaba, ainda luta para superar os traumas das semanas em que atuou na UTI de um hospital p\u00fablico referenciado para Covid-19. &#8220;Muitos colegas estavam sendo afastados por causa do cont\u00e1gio e fomos chamadas para cobrir as vagas. Era desesperador. Antes de sair, tomava todos os cuidados para n\u00e3o levar para casa o maldito v\u00edrus, chegava e tirava as roupas, tomava banho, evitava meus filhos. Ap\u00f3s meu primeiro plant\u00e3o na UTI Covid lembro que, ao sair e subir na moto, meu \u00fanico sentimento era de tristeza, medo inseguran\u00e7a. Afinal, tinha dois filhos me esperando.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar de todos os cuidados, a profissional de sa\u00fade n\u00e3o escapou do v\u00edrus. &#8220;Comecei a sentir uma terr\u00edvel dor nas costas, acompanhada de uma tosse seca, n\u00e3o quis acreditar. Eu via de perto como era o progresso da doen\u00e7a. Estava com a Covid. Fui colocada em isolamento, eu e as crian\u00e7as, por 15 dias. Foram terr\u00edveis.&#8221;<\/p>\n<p>Ela conta que, nesse per\u00edodo, embora tivesse apoio a dist\u00e2ncia dos colegas, teve de enfrentar sozinha a doen\u00e7a. &#8220;Come\u00e7aram a surgir bolhas em meu t\u00f3rax e rosto, era imposs\u00edvel dormir pela falta de ar e eu n\u00e3o conseguia levantar. O pior era ficar sem contato com ningu\u00e9m, sendo cuidada s\u00f3 por meus filhos, apavorada s\u00f3 de imaginar que poderia contaminar as crian\u00e7as.&#8221;<\/p>\n<p>A maior afli\u00e7\u00e3o, segundo ela, era n\u00e3o saber qual seria seu destino. &#8220;Afinal, quantos \u00f3bitos eu vi, quantos corpos levei at\u00e9 o necrot\u00e9rio, pessoas novas, velhas, magras, obesas, j\u00e1 n\u00e3o existia um padr\u00e3o. Gra\u00e7as a Deus sa\u00ed dessa. S\u00f3 tenho uma certeza: ap\u00f3s a Covid-19, nunca eu e nenhum dos meus colegas de profiss\u00e3o seremos os mesmos.&#8221;<\/p>\n<p>Impacto<\/p>\n<p>Com as respostas aos question\u00e1rios, as pesquisadoras da Unifesp v\u00e3o comparar o estresse na linha de frente com o de n\u00e3o envolvidos diretamente e montar uma escala, comparando os dados com pesquisas anteriores \u00e0 pandemia. Os m\u00e9dicos interessados podem acessar a pesquisa no site da Escola Paulista de Medicina.<\/p>\n<p>O diretor de defesa profissional da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Medicina, Jo\u00e3o Sobreira de Moura Neto, acha que os m\u00e9dicos sair\u00e3o mais experientes e humanizados da pandemia. &#8220;Vai haver uma mudan\u00e7a de sentimento, vamos sair com uma necessidade de conhecer melhor as pessoas. Acredito que os m\u00e9dicos v\u00e3o ter esse sentimento de humanismo mais agu\u00e7ado.&#8221;<\/p>\n<p>Estudo chin\u00eas<\/p>\n<p>Um estudo com 1.257 profissionais de sa\u00fade que atuaram no combate ao novo coronav\u00edrus em 34 hospitais da China apontou um risco elevado de aparecimento de danos \u00e0 sa\u00fade mental. A pesquisa, publicada em mar\u00e7o na revista da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Americana (Jama), mostrou que pessoas que trabalharam na linha de frente da covid-19 relataram sintomas como depress\u00e3o, ansiedade e ins\u00f4nia. A preval\u00eancia foi maior entre enfermeiras.<\/p>\n<p>A maioria dos participantes tinha entre 26 e 40 anos (64,7%) e era do sexo feminino (76,7%). Mais de 60% dos entrevistados trabalhavam em Wuhan, onde os primeiros casos da doen\u00e7a foram registrados.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa, 71,5% dos profissionais relataram ang\u00fastia, 50,4% falaram que tiveram sintomas de depress\u00e3o, 44,6% disseram ter tido ansiedade e 34% relataram que sofreram com ins\u00f4nia.<\/p>\n<p>Exaust\u00e3o e terapia<\/p>\n<p>Ansiedade e medo s\u00e3o os principais dist\u00farbios apresentados por profissionais de sa\u00fade atendidos durante a pandemia do novo coronav\u00edrus por um sistema de consulta a dist\u00e2ncia criado pela Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Chamado Telepan Sa\u00fade, o sistema j\u00e1 atendeu cerca de 300 profissionais em todo o pa\u00eds. H\u00e1 casos em que houve a decis\u00e3o pelo afastamento de profissionais atendidos, que chegaram a apresentar quadros de depress\u00e3o e risco de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>A plataforma foi criada no in\u00edcio da pandemia, em mar\u00e7o, a partir de artigos sobre o tema publicados em outros pa\u00edses, conforme explica o psiquiatra e coordenador do sistema, Helian Nunes, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Neuropsiquiatria e professor da UFMG. O atendimento \u00e9 feito por enfermeiros, psic\u00f3logos e psiquiatras, todos volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>O atendimento e as orienta\u00e7\u00f5es aos que recorrem ao Telepan acontecem por dois grupos \u2014 um para casos mais simples e outro para os mais graves, em que \u00e9 recomendado atendimento presencial. Para ter acesso \u00e0 consulta, os profissionais entram no site do sistema. De acordo com Nunes, os enfermeiros s\u00e3o os que mais procuram o servi\u00e7o. &#8220;\u00c9 o grupo mais vulner\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 pela carga hor\u00e1ria, por estarem no front, mas tamb\u00e9m por vulnerabilidade salarial&#8221;, diz o coordenador.<\/p>\n<p>Assistente de um Caps (Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial) da Prefeitura de S\u00e3o Paulo, Adriana Domingos Ferreira, de 43 anos, recorreu ao Telepan com quadro de p\u00e2nico e tristeza. Casada e m\u00e3e de uma menina, passou a trabalhar com medo ao longo da epidemia, mas a situa\u00e7\u00e3o piorou depois de ter tido contato com quatro pacientes que contra\u00edram a Covid-19. &#8220;Temos caso de depress\u00e3o entre parentes, e decidi que n\u00e3o passaria minha situa\u00e7\u00e3o a eles.&#8221; Na avalia\u00e7\u00e3o da assistente social, a busca pelo programa evitou o pior. &#8220;N\u00e3o fosse isso, n\u00e3o conseguiria me recuperar mais&#8221;.<\/p>\n<p>Ansiedade<\/p>\n<p>Com dez anos de profiss\u00e3o, a fisioterapeuta Ivan\u00edzia Soares viveu em Natal, no Rio Grande do Norte, realidades opostas. Enquanto salvava vidas na UTI de um hospital p\u00fablico, o forte estresse do dia a dia a levou a crises de ansiedade e choro.<\/p>\n<p>Ivan\u00edzia se divide entre dois hospitais p\u00fablicos de Natal que se tornaram refer\u00eancia do novo coronav\u00edrus, o Municipal e o Infantil Maria Alice Fernandes. Desde mar\u00e7o, viu o aumento de servi\u00e7o e a escassez de profissionais intensivistas. &#8220;Houve um crescimento exponencial nos atendimentos, mas sem amplia\u00e7\u00e3o dos quadros&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A cada turno de seis horas, ela atende entre 6 e 10 pacientes. Durante a pandemia, a carga de trabalho aumentou em decorr\u00eancia do estado grave da maioria dos internados nas UTIs. &#8220;A gente j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais dar conta. Abriram leitos de UTI, mas n\u00e3o contrataram fisioterapeutas.&#8221;<\/p>\n<p>A fisioterapeuta passou 15 dias afastada dos hospitais e s\u00f3 retornou ao ambiente de trabalho ap\u00f3s iniciar sess\u00f5es de terapia com um psic\u00f3logo. &#8220;Hoje, sinto melhora gra\u00e7a a esse tratamento&#8221;, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: CNN Brasil Atuando em unidades de sa\u00fade da capital, no auge da pandemia da Covid-19, o que o neurologista infantil e pediatra Vin\u00edcius \u2014 que pediu para omitir o sobrenome \u2014 mais temia aconteceu. Ele contraiu o novo coronav\u00edrus e viu seus familiares tamb\u00e9m se infectarem. 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