{"id":10903,"date":"2020-08-31T23:36:35","date_gmt":"2020-08-31T23:36:35","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=10903"},"modified":"2020-08-31T23:36:35","modified_gmt":"2020-08-31T23:36:35","slug":"artigo-tomada-de-decisao-quem-decide-pode-errar-quem-se-omite-ja-errou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2020\/08\/31\/artigo-tomada-de-decisao-quem-decide-pode-errar-quem-se-omite-ja-errou\/","title":{"rendered":"ARTIGO: Tomada de decis\u00e3o: \u2018Quem decide pode errar, quem se omite j\u00e1 errou\u2019"},"content":{"rendered":"<p>fonte: MedScape<\/p>\n<p>por Alfredo Guarischi<\/p>\n<p><b>Pre\u00e2mbulo<\/b><\/p>\n<p>Nesse artigo vamos conversar sobre os mecanismos utilizados para tomada de decis\u00e3o com \u00eanfase na incerteza. Utilizando exemplos fora da medicina, principalmente na avia\u00e7\u00e3o, buscarei alertar sobre as diversas armadilhas cognitivas do cotidiano e como super\u00e1-las.<\/p>\n<p>Nem sempre tomamos decis\u00f5es ideais \u2013 erramos \u2013, mesmo quando desprendemos grande esfor\u00e7o na an\u00e1lise e na execu\u00e7\u00e3o do que julgamos o correto. Em um cen\u00e1rio de incertezas o processo decis\u00f3rio \u00e9 muito mais complexo.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das falhas \u00e9 uma fonte de ensino permanente. O estudo de acidentes na avia\u00e7\u00e3o e outros cen\u00e1rios fora da medicina t\u00eam ajudado no desenvolvimento de habilidades n\u00e3o t\u00e9cnicas, t\u00e3o importantes quanto as t\u00e9cnicas, para diminuir e mitigar o n\u00famero e a gravidade de decis\u00f5es inadequadas.<\/p>\n<p>Decis\u00f5es ruins podem ser tomadas mesmo em situa\u00e7\u00f5es conhecidas. Isso acontece por diversos motivos, desde a perda do foco na miss\u00e3o at\u00e9 uma alta carga de trabalho. Problemas simples, aparentemente n\u00e3o relacionados em um primeiro momento, se acumulam e interagem, dificultando o diagn\u00f3stico correto da situa\u00e7\u00e3o e a elabora\u00e7\u00e3o da resposta mais adequada.<\/p>\n<p>Dada a impossibilidade de projetar sistemas \u00e0 prova de erros ou totalmente automatizados que possam lidar com toda e qualquer emerg\u00eancia, a \u00faltima linha de defesa \u00e9 a equipe que est\u00e1 atuando. O treinamento individual e em equipe deve ser cont\u00ednuo para fortalecer esse aspecto.<\/p>\n<p>Mas como equipes podem ser treinadas para tomar as melhores decis\u00f5es poss\u00edveis, especialmente sob condi\u00e7\u00f5es desafiadoras de alto risco?<\/p>\n<p>Primeiro devemos responder tr\u00eas quest\u00f5es: Como as equipes normalmente tomam decis\u00f5es? O que constitui uma tomada de decis\u00e3o eficaz? Quais fatores dificultam as decis\u00f5es e contribuem para que sejam tomadas m\u00e1s decis\u00f5es<\/p>\n<p><b>Decis\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Decis\u00f5es s\u00e3o escolhas que as pessoas fazem para enfrentar problemas ou aproveitar oportunidades. A tomada de decis\u00e3o \u00e9 inerente ao ser humano e um processo cont\u00ednuo, pessoal. Mesmo quando optamos por delegar a decis\u00e3o, arcamos com as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o tem dois objetivos: a\u00e7\u00e3o no momento e impacto no futuro. As consequ\u00eancias da decis\u00e3o devem levar em conta se ela ser\u00e1 eficaz (funciona), efetiva (quanto \u00e9 boa), eficiente (qual o custo humano, material e financeiro) e sua equidade (vai ajudar a quantos).<\/p>\n<p>Dificilmente uma decis\u00e3o ir\u00e1 satisfazer todas essas consequ\u00eancias, principalmente a equidade que, por vezes, pode transformar a decis\u00e3o em um grave erro. Decis\u00f5es podem ser inicialmente consideradas adequadas, por\u00e9m, no futuro se mostram inoportunas, inadequadas ou erradas. Sim, o efeito inicial foi antag\u00f4nico ao esperado no longo prazo. O clima organizacional influencia no modo como os profissionais tomam decis\u00f5es e como elas s\u00e3o avaliadas. N\u00e3o h\u00e1 uma receita de bolo, mas \u00e9 preciso seguir diretrizes gerais e sempre reavaliar as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><b>Processo decis\u00f3rio<\/b><\/p>\n<p>O processo de tomada de decis\u00e3o foi entendido durante muito tempo como um subproduto \u00fanico da experi\u00eancia. A partir da d\u00e9cada de 70, as transcri\u00e7\u00f5es das grava\u00e7\u00f5es de cabine dos avi\u00f5es nas investiga\u00e7\u00f5es dos desastres a\u00e9reos mostraram que isso n\u00e3o era verdade. A\u00a0<em>Federal Aviation Administration<\/em>\u00a0(FAA) dos Estados Unidos (EUA) desenvolveu, ent\u00e3o, uma metodologia para entender e ensinar julgamento aos pilotos.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas tende a agir r\u00e1pido em uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Nos avi\u00f5es modernos, pela qualidade da automa\u00e7\u00e3o e dos alarmes eletr\u00f4nicos que geram corre\u00e7\u00f5es imediatas, poucas emerg\u00eancias exigem que o piloto tome uma a\u00e7\u00e3o imediata. Na maioria das vezes h\u00e1 tempo para utilizar o modelo de processo decis\u00f3rio. No entanto essa automa\u00e7\u00e3o pode falhar e a intera\u00e7\u00e3o homem-m\u00e1quina, cada vez mais complexa, acaba exigindo muito esfor\u00e7o do piloto. Os pilotos, utilizando aeronaves altamente automatizadas, acabam &#8220;esquecendo como pilotar&#8221;. Em medicina, quanto mais os profissionais ficam &#8220;longe do paciente, da beira do leito&#8221;, acabam tendo mais dificuldade de &#8220;pilotar o paciente&#8221;. Muito tempo diante de computadores e seguindo algoritmos, sem &#8220;tocar no paciente&#8221;; s\u00e3o causa frequente de desastres na medicina.<\/p>\n<p>\u00c9 importante separar as emerg\u00eancias cr\u00edticas, nas quais a experi\u00eancia e o treinamento far\u00e3o diferen\u00e7a, daquelas em que h\u00e1 mais tempo para analisar o que realmente est\u00e1 acontecendo, reunindo todas as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos e policias (os mais desprotegidos de suporte no processo de tomada de decis\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia) t\u00eam um cen\u00e1rio bastante diverso, principalmente pela fragmenta\u00e7\u00e3o da obten\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e pela necessidade de fontes externas, diferentemente do que ocorre numa cabine de uma aeronave.<\/p>\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, a primeira etapa \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o do problema, da gravidade (n\u00edvel de risco) e do tempo dispon\u00edvel, avaliando a influ\u00eancia de cada vari\u00e1vel, procurando identificar a medida que melhor se aplica \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Finalmente, acompanhar os efeitos da decis\u00e3o. A tend\u00eancia a se &#8220;agarrar&#8221; \u00e0 primeira decis\u00e3o pode resultar em desastre. \u00c9 importante manter a mente aberta e, \u00e0 medida que aparecem novas informa\u00e7\u00f5es, revisitar o processo decis\u00f3rio. A utiliza\u00e7\u00e3o de todos os recursos humanos em situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas \u00e9 fundamental, pois apenas uma pessoa gerenciando todas as a\u00e7\u00f5es \u00e9 sempre inadequado. Al\u00e9m disso, em muitos ambientes de alto risco, o tempo para tomar uma decis\u00e3o \u00e9 limitado, as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o incompletas, as condi\u00e7\u00f5es mudam dinamicamente e as metas mudam, tornando a tomada de decis\u00e3o anal\u00edtica impratic\u00e1vel, se n\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Os recursos mais adequados nem sempre est\u00e3o dispon\u00edveis, ou o tomador de decis\u00e3o n\u00e3o tem o treinamento adequado para utiliz\u00e1-los. Se n\u00e3o tiver treinamento com a melhor op\u00e7\u00e3o, a utiliza\u00e7\u00e3o de um plano secund\u00e1rio, com o qual se tenha experi\u00eancia, ser\u00e1 a melhor op\u00e7\u00e3o. Por outro lado, algumas vezes o executor d\u00e1 prioridade \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de mecanismos com os quais est\u00e1 habituado, sem considerar outras op\u00e7\u00f5es, com o argumento que &#8220;sempre fiz dessa forma&#8221;. Isso infelizmente ocorre na medicina, tanto no cen\u00e1rio cl\u00ednico como no cir\u00fargico.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise detalhada de falhas no processo decis\u00f3rio, pode-se identificar que o executor manteve sua estrat\u00e9gia, apesar da exist\u00eancia de elementos sinalizando que o resultado esperado n\u00e3o estava ocorrendo. Durante a investiga\u00e7\u00e3o de algumas falhas, percebeu-se a convic\u00e7\u00e3o do executor de que a t\u00e9cnica empregada n\u00e3o estava sendo executada adequadamente, e n\u00e3o a escolha dela, com o profissional insistindo em &#8220;consertar a execu\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica&#8221;, sem considerar uma mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Outra situa\u00e7\u00e3o pode ocorrer quando h\u00e1 um grande distanciamento t\u00e9cnico ou hier\u00e1rquico entre o tomador de decis\u00e3o e seus subordinados, onde o oferecimento de sugest\u00f5es pode ser encarado como insubordina\u00e7\u00e3o. O treinamento em trabalho de equipe, com \u00eanfase na necessidade de troca de informa\u00e7\u00f5es de forma harm\u00f4nica e buscando resolver o problema \u2013 e n\u00e3o em quem tem ou n\u00e3o raz\u00e3o \u2013, faz uma enorme diferen\u00e7a no mundo real. Essa \u00e9 a maior diretriz no\u00a0<em>Crew Resource Management<\/em>\u00a0&#8211; CRM (Gerenciamento de Recursos Humanos em Cabine), empregado de rotina no treinamento de aeronautas desde 1982, e que teve forte impacto na preven\u00e7\u00e3o e na mitiga\u00e7\u00e3o de acidentes aeron\u00e1uticos relacionados a falha humana. Esse \u00e9 o foco que fazemos no GERHUS, que desenvolvemos em 2005.<\/p>\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o de alto risco e de emerg\u00eancia, pela gravidade e prem\u00eancia de tempo, a decis\u00e3o deve ser intuitiva, baseada na mem\u00f3ria ou experi\u00eancia pr\u00e9via em situa\u00e7\u00e3o semelhante. Ser\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica com pouca delibera\u00e7\u00e3o consciente. A sistematiza\u00e7\u00e3o do atendimento a paradas cardiorrespirat\u00f3rias (ACLS) ou a traumatizados (ATLS) s\u00e3o exemplos de como normatiza\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica podem ser executadas. A sobrevida dos pacientes atendidos por uma equipe de profissionais cuja maioria tem treinamento em Suporte Avan\u00e7ado de Vida faz enorme diferen\u00e7a. N\u00e3o basta ter um excelente cardiologista, cirurgi\u00e3o ou intensivista se enfermeiros e t\u00e9cnicos n\u00e3o s\u00e3o treinados. Realizar exerc\u00edcios comportamentais ajuda a entender o que \u00e9 trabalhar em equipe, trocando informa\u00e7\u00f5es entre profissionais de diversas forma\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, a melhor decis\u00e3o pode vir de um menos graduado, para isso servem os treinamentos. Nos primeiros exerc\u00edcios, esse novato pode ter receio de opinar, por\u00e9m, na sequ\u00eancia do treinamento fica \u00e0 vontade para interagir e contribuir com sua percep\u00e7\u00e3o do problema. Por outro lado, uma ordem expressa de forma assertiva, de cima para baixo, n\u00e3o deve ser encarada como desrespeito, e o treinamento, da mesma forma, ajuda ao fluxo correto da comunica\u00e7\u00e3o em um ambiente sob press\u00e3o. No mundo real, da avia\u00e7\u00e3o e de for\u00e7as especiais, esses exerc\u00edcios provaram sua efetividade.<\/p>\n<p>Caso a situa\u00e7\u00e3o seja considerada um pouco menos grave, ou haja um pouco mais de tempo, a decis\u00e3o deve ser tomada baseada em regras, seguindo o manual, que baseou o treinamento.<\/p>\n<p>Quando o risco \u00e9 considerado menor, cen\u00e1rios podem ser estabelecidos para permitir compara\u00e7\u00e3o entre as diversas op\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Este m\u00e9todo requer um tempo consider\u00e1vel e concentra\u00e7\u00e3o mental.<\/p>\n<p>Em uma situa\u00e7\u00e3o de baixo risco e com consider\u00e1vel tempo para resolver o problema, podemos ser criativos e propor uma linha nova de a\u00e7\u00e3o. Raramente \u00e9 poss\u00edvel sua utiliza\u00e7\u00e3o em ambientes com grande press\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao tempo ou o risco.<\/p>\n<p><b>Consci\u00eancia situacional e tomada de decis\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>As decis\u00f5es em sistemas complexos como a medicina, as for\u00e7as policiais e a avia\u00e7\u00e3o, exigem ajuste do curso de uma a\u00e7\u00e3o planejada e geralmente s\u00e3o motivadas por condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o esperadas ou mudan\u00e7as das caracter\u00edsticas da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De uma forma simples, podemos considerar tr\u00eas n\u00edveis da consci\u00eancia situacional no processo decis\u00f3rio. Em um primeiro momento temos a percep\u00e7\u00e3o dos elementos (fatos) que comp\u00f5em o cen\u00e1rio da situa\u00e7\u00e3o atual. Com essa percep\u00e7\u00e3o tomamos consci\u00eancia do problema (diagnosticamos o que est\u00e1 ocorrendo). A partir da\u00ed projetamos as eventuais consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o (ou as diversas op\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es) a ser tomada.<\/p>\n<p>Esse processo, que pode ser treinado com o estudo da an\u00e1lise das falhas, permite criar a &#8220;consci\u00eancia completa da situa\u00e7\u00e3o&#8221;, facilitando tomada de decis\u00e3o de forma consciente. Exerc\u00edcios constantes, variando o cen\u00e1rio, aumentam a capacidade cognitiva do executor.<\/p>\n<p>Observamos ent\u00e3o o resultado (efeito) dessa decis\u00e3o. Caso essa a\u00e7\u00e3o tenha atingido o objetivo esperado, mantemos a conduta. Caso contr\u00e1rio, refazemos todo o ciclo considerando novas a\u00e7\u00f5es para atingir o objetivo.<\/p>\n<p><b>Avalia\u00e7\u00e3o de risco<\/b><\/p>\n<p>Para gerenciar riscos, as amea\u00e7as devem ser percebidas e avaliadas. O risco inclui dois componentes: a probabilidade de uma amea\u00e7a e a gravidade de suas consequ\u00eancias. Os dois variam independentemente, embora eventos \u00fanicos como quebra de equipamentos com as consequ\u00eancias mais graves, geralmente ocorram com pouca frequ\u00eancia. Outras amea\u00e7as menos graves s\u00e3o mais comuns, mas as estrat\u00e9gias para o gerenciamento delas acabam sendo delegadas ou negligenciadas, o que contribui para que essas pequenas falhas se acumulem e levem a desastres.<\/p>\n<p><b>O papel da experi\u00eancia no processo de tomada de decis\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>A experi\u00eancia (conhecimento especializado) contribui para a tomada de decis\u00e3o de tr\u00eas maneiras. Primeiro, facilita a percep\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e precisa das possibilidades e a interpreta\u00e7\u00e3o dos problemas. Em segundo lugar, esse conhecimento inclui padr\u00f5es de condi\u00e7\u00e3o-a\u00e7\u00e3o armazenados, a base para decis\u00f5es baseadas em reconhecimento. Por fim, fornece uma base para a avalia\u00e7\u00e3o de riscos e para estimar a probabilidade de ocorr\u00eancia de v\u00e1rios tipos de problemas.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um escudo contra erros. Ela \u00e9 a base da heur\u00edstica, que, \u00e0s vezes, resulta em julgamentos ruins. O conhecimento profundo \u00e9 respons\u00e1vel por decis\u00f5es eficientes na maioria das vezes, mas ocasionalmente o tomador de decis\u00f5es pula etapas, utilizando-se de &#8220;atalhos&#8221;, alegando experi\u00eancia. Pilotos, m\u00e9dicos, policiais de for\u00e7as especiais e bombeiros podem agir dessa forma e cometer graves erros pelo excesso de autoconfian\u00e7a. O treinamento em simula\u00e7\u00f5es real\u00edsticas deve ser realizado periodicamente e \u00e9 obrigat\u00f3rio para os pilotos que se envolvem em acidentes, antes de receber permiss\u00e3o para voltar a voar. Na medicina temos excelentes centros de treinamento, mas que infelizmente s\u00e3o muito pouco utilizados.<\/p>\n<p>O conhecimento de especialistas confere vantagem apenas em cen\u00e1rios espec\u00edficos. Os mestres do xadrez mostram uma mem\u00f3ria not\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as que representam posi\u00e7\u00f5es durante o jogo, uma base para movimentos estrat\u00e9gicos. Mas se essas mesmas pe\u00e7as s\u00e3o colocadas aleatoriamente no tabuleiro, a lembran\u00e7a dos mestres n\u00e3o \u00e9 melhor que a dos novatos.<\/p>\n<p><b>Modelos de tomada de decis\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um melhor modelo a ser seguido, pois tomar uma decis\u00e3o \u00e9 um processo din\u00e2mico e dependente do contexto. A gravidade da quest\u00e3o e o tempo para a decis\u00e3o s\u00e3o extremamente importantes.<\/p>\n<p><em>Modelo intuitivo:<\/em>\u00a0O problema \u00e9 reconhecido e a decis\u00e3o \u00e9 rapidamente tomada baseada na mem\u00f3ria ou na experi\u00eancia pr\u00e9via encontrada em situa\u00e7\u00e3o semelhante. A\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica com pouca delibera\u00e7\u00e3o consciente. Princ\u00edpio do &#8220;Arco-reflexo&#8221;.<\/p>\n<p><em>Modelo baseado em regras<\/em>: Identificada a situa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um esfor\u00e7o mental para lembrar ou procurar, em algum &#8220;manual&#8221;, a melhor conduta.\u00a0 \u00c9 amplamente usado no treinamento de novatos, aprendendo procedimentos padronizados para situa\u00e7\u00f5es mais frequentes ou de alto risco. Princ\u00edpio empregado no ACLS e ATLS.<\/p>\n<p><em>Modelo anal\u00edtico ou comparativo<\/em>: A tomada de decis\u00e3o leva em conta as diversas possibilidades e as compara simultaneamente, para determinar a que melhor conv\u00e9m para a situa\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que este m\u00e9todo requer consider\u00e1vel tempo e concentra\u00e7\u00e3o mental em sua condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Modelo criativo<\/em>: Uma linha nova de a\u00e7\u00e3o \u00e9 proposta. Raramente \u00e9 poss\u00edvel sua utiliza\u00e7\u00e3o em ambientes com grande press\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao tempo ou alto risco.<\/p>\n<p><b>Auxilio na tomada de decis\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Devemos priorizar tr\u00eas elementos: a\u00e7\u00e3o que funciona; que atenda ao objetivo; e a um custo adequado (pessoal, financeiro, social, etc.). N\u00e3o \u00e9 tarefa simples considerar todas essas consequ\u00eancias. No processo decis\u00f3rio essas quest\u00f5es devem ser consideradas e individualizadas.<\/p>\n<p><em>Estabelecer o real problema e a urg\u00eancia da solu\u00e7\u00e3o<\/em>. Lembre-se: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho! Pe\u00e7a ajuda e opini\u00e3o. A maioria das pessoas tende a agir r\u00e1pido em uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Poucas emerg\u00eancias exigem uma a\u00e7\u00e3o imediata. Na maioria das vezes h\u00e1 tempo para utilizar o modelo de processo decis\u00f3rio.<\/p>\n<p><em>Identificar o problema claramente<\/em>. Uma experi\u00eancia anterior positiva ou negativa (s\u00edndrome do caso anterior) pode induzir a graves erros. N\u00e3o \u00e9 infrequente que profissionais reajam de forma imediata, deixando de avaliar o cen\u00e1rio, que pode n\u00e3o ser exatamente como pressupunham, indo direto para decis\u00e3o, fazendo &#8220;atalhos cognitivos na tomada de decis\u00e3o&#8221;, sem passar pelo processo de verifica\u00e7\u00e3o. Profissionais experientes podem perceber precocemente e trocar de estrat\u00e9gia, mas entre os novatos isso pode ser n\u00e3o acontecer.<\/p>\n<p>A personalidade do tomador de decis\u00e3o e seu tipo de lideran\u00e7a podem influenciar de forma positiva ou negativa o desfecho da situa\u00e7\u00e3o. Sempre questionar se o que apresenta \u00e9 um diagn\u00f3stico completo da situa\u00e7\u00e3o ou apenas sintoma de um problema maior. Re\u00fana toda informa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e compartilhe. Fale, mas tamb\u00e9m ou\u00e7a. A ajuda de outros profissionais, exames complementares, manuais, outras pessoas que estejam pr\u00f3ximas ao evento podem ajudar a identificar alternativas poss\u00edveis. Avalie a influ\u00eancia de cada uma e identifique a que melhor se aplica \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Em algumas delas o tempo \u00e9 curto e isso limita o processo decis\u00f3rio. Nessa fase deve-se considerar o tempo para completar esse processo, pois pode ser necess\u00e1ria uma resposta mais r\u00e1pida. A padroniza\u00e7\u00e3o de procedimentos e o treinamento preparam o profissional para uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Nos procedimentos padronizados, as decis\u00f5es cr\u00edticas j\u00e1 foram tomadas anteriormente e em condi\u00e7\u00f5es ideais.<\/p>\n<p><em>Adotar a a\u00e7\u00e3o<\/em>. Nesse momento, adota-se a medida ou as medidas julgadas oportunas. N\u00e3o h\u00e1 volta desse ponto. A decis\u00e3o j\u00e1 foi tomada.<\/p>\n<p><em>Acompanhar os efeitos<\/em>. Verificar se a decis\u00e3o foi efetiva. Geralmente h\u00e1 uma tend\u00eancia de se agarrar \u00e0 decis\u00e3o e esperar que ela atinja seu objetivo. Eventualmente o cen\u00e1rio pode estar se deteriorando e o tomador de decis\u00e3o insiste em manter a conduta. Em simuladores de panes ou cen\u00e1rios (hospitalares ou opera\u00e7\u00f5es policiais) isso pode ser treinado, de modo a que o tomador de decis\u00f5es mantenha a mente aberta \u00e0 medida que aparecerem novas informa\u00e7\u00f5es, renovando dessa forma o processo decis\u00f3rio.<\/p>\n<p><b>Resumo<\/b><\/p>\n<p>O processo de tomada de decis\u00e3o \u00e9 din\u00e2mico. O diagn\u00f3stico do problema deve ser o mais detalhado poss\u00edvel. O grau de urg\u00eancia e a gravidade podem limitar a apura\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico da situa\u00e7\u00e3o. O modelo de tomada de decis\u00e3o vai variar de acordo com urg\u00eancia, gravidade, ferramentas dispon\u00edveis e experi\u00eancia do tomador de decis\u00f5es. O treinamento continuado da equipe, em cen\u00e1rios j\u00e1 conhecidos, \u00e9 a mais eficiente metodologia para mitigar danos.<\/p>\n<p>Quem decide pode errar, quem se omite j\u00e1 errou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: MedScape por Alfredo Guarischi Pre\u00e2mbulo Nesse artigo vamos conversar sobre os mecanismos utilizados para tomada de decis\u00e3o com \u00eanfase na incerteza. Utilizando exemplos fora da medicina, principalmente na avia\u00e7\u00e3o, buscarei alertar sobre as diversas armadilhas cognitivas do cotidiano e como super\u00e1-las. Nem sempre tomamos decis\u00f5es ideais \u2013 erramos \u2013, mesmo quando desprendemos grande esfor\u00e7o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10903","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"aioseo_notices":[],"gutentor_comment":0,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10903"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10905,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10903\/revisions\/10905"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}