{"id":11558,"date":"2020-12-10T15:23:41","date_gmt":"2020-12-10T15:23:41","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=11558"},"modified":"2020-12-10T15:23:41","modified_gmt":"2020-12-10T15:23:41","slug":"nota-de-luto-da-smcrj-dr-ricardo-jose-lopes-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2020\/12\/10\/nota-de-luto-da-smcrj-dr-ricardo-jose-lopes-da-cruz\/","title":{"rendered":"Nota de luto da SMCRJ: Dr. Ricardo Jos\u00e9 Lopes da Cruz"},"content":{"rendered":"<p>A Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro lamenta profundamente a morte do Dr. Ricardo Jos\u00e9 Lopes da Cruz, ocorrida em 7 de dezembro de 2020.<\/p>\n<p>Nascido em 10 de abril de 1954, Ricardo Cruz graduou-se em Medicina na UFRJ em 1977. Fez resid\u00eancia m\u00e9dica em Cirurgia Geral no Hospital de Ipanema e em Cirurgia de Cabe\u00e7a e Pesco\u00e7o no Instituto Nacional do C\u00e2ncer, completando a sua forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de Cirurgia Cr\u00e2nio-Maxilo-Facial no Departamento de Cirurgia Pl\u00e1stica da PUC-Rio, sob a lideran\u00e7a de Ivo Pitanguy.<\/p>\n<p>Criou o Servi\u00e7o de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial do Hospital Federal de Ipanema, que chefiou por vinte anos. Foi m\u00e9dico do Servi\u00e7o de Cirurgia de Cabe\u00e7a e Pesco\u00e7o do Instituto Nacional do C\u00e2ncer por seis anos, al\u00e9m de ter trabalhado no Servi\u00e7o de Cirurgia Pedi\u00e1trica do Instituto Fernandes Figueira por doze anos.<\/p>\n<p>Mantendo sua atividade de alt\u00edssima qualifica\u00e7\u00e3o e ex\u00edmia qualidade no SUS, criou em 2003 o Centro de Aten\u00e7\u00e3o Especializada em Cirurgia Cr\u00e2nio-Maxilo-Facial do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), atendendo a pacientes com deformidades cong\u00eanitas, do desenvolvimento e adquiridas do esqueleto craniofacial, com mais de mil cirurgia realizadas desde ent\u00e3o. Ultimamente, vinha se preparando para a realiza\u00e7\u00e3o de transplantes de face.<\/p>\n<p>Era membro do Col\u00e9gio Brasileiro de Cirurgi\u00f5es, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Pl\u00e1stica, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cirurgia Cranio-Maxilo-Facial (que presidiu por duas vezes) e da Academia Nacional de Medicina, entre outras associa\u00e7\u00f5es e entidades. Al\u00e9m disso, era membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O Dr. Ricardo Cruz estava internado h\u00e1 v\u00e1rias semanas na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Samaritano, onde recebeu cuidados e aten\u00e7\u00f5es que certamente muito poucos dos quase 180 mil outros brasileiros que morreram de COVID-19 at\u00e9 hoje puderam receber \u2013 inclusive o uso de oxigena\u00e7\u00e3o extracorp\u00f3rea por membrana de troca, procedimento de complexa tecnologia, de elevado custo e de disponibilidade rarefeita, principalmente (mas n\u00e3o apenas) no Sistema \u00danico de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Por exposi\u00e7\u00e3o profissional, os m\u00e9dicos est\u00e3o entre os grupos populacionais mais afetados pela pandemia: no \u00faltimo Dia do M\u00e9dico, a SMCRJ homenageou aqueles at\u00e9 ent\u00e3o falecidos. Mas a morte de Ricardo Cruz tem um significado especial, que vai al\u00e9m da perda precoce de um dos mais brilhantes cirurgi\u00f5es de sua gera\u00e7\u00e3o e das que lhe s\u00e3o pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Ricardo morre ap\u00f3s dez meses de pandemia, quando a percep\u00e7\u00e3o err\u00f4nea da sociedade de que a transmiss\u00e3o est\u00e1 em vias de se extinguir levou a um relaxamento das normas de distanciamento social, com o consequente aumento da transmiss\u00e3o comunit\u00e1ria do SARS-CoV-2. Percep\u00e7\u00e3o err\u00f4nea esta estimulada e coonestada por uma pol\u00edtica homicida (repitamos: homicida) por parte de autoridades municipais, estaduais e federais (em final, meio ou come\u00e7o de mandato), que trocam votos e apoios por uma proposta indulgente e sedutora, que pode ser popular e atraente, mas que \u00e9 (repitamos, ainda) simplesmente homicida.<\/p>\n<p>Ricardo Cruz morreu apesar de ser submetido a um tratamento caro, sofisticado e dispon\u00edvel a uma minoria dos brasileiros, a\u00ed inclu\u00eddos os usu\u00e1rios de planos de sa\u00fade de alto custo. Isto demonstra a miopia, a desumanidade, a neglig\u00eancia e a criminosa irresponsabilidade hist\u00f3rica de pol\u00edticos e mandat\u00e1rios que prop\u00f5em aumento de n\u00fameros de leitos de UTI ou extens\u00e3o do hor\u00e1rio de funcionamento de aparelhos de tomografia computadorizada, trocando essas aparentes benesses de apelo popular (ofertadas a uma popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 exaurida por dez meses de confinamento for\u00e7ado) pela libera\u00e7\u00e3o de eventos e de situa\u00e7\u00f5es que inevitavelmente agravaram, agravam e agravar\u00e3o a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a. O que levar\u00e1 ao aumento do n\u00famero de casos e, portanto, e mesmo com uma (necess\u00e1ria) sufici\u00eancia de vagas, a um indesculp\u00e1vel aumento de mortes.<\/p>\n<p>Nosso colega n\u00e3o morreu porque lhe faltou leito, ou porque a assist\u00eancia demorou a chegar. Morreu pela inexorabilidade de uma doen\u00e7a que, se n\u00e3o mata sempre, sempre mata. A sua morte exp\u00f5e a miopia criminosa oculta na barganha do relaxamento no distanciamento social (leia-se: aumento da transmiss\u00e3o) pelo aparente bom neg\u00f3cio de um incremento no n\u00famero de leitos (ou de tom\u00f3grafos, ou outros cala-bocas ilus\u00f3rios e enganosos) oferecidos a uma popula\u00e7\u00e3o cansada, sem rumo &#8211; e sem lideran\u00e7a. N\u00e3o importa o quantitativo de leitos de UTI oferecidos: quanto maior o n\u00famero de admitidos a essas unidades, maior ser\u00e1 o n\u00famero final de mortos. Ricardo Cruz n\u00e3o morreu por falta de leito, ou de assist\u00eancia, ou de cobertura. Morreu de COVID.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, n\u00e3o h\u00e1 qualquer outro meio de impedir a transmiss\u00e3o do v\u00edrus que n\u00e3o o distanciamento social, em que pese a promessa pr\u00f3xima da vacina. Neste sentido, e mudando de unidade federativa, mas n\u00e3o abandonando a cr\u00edtica e den\u00fancia do populismo negligente e midi\u00e1tico, \u00e9 criminosamente irrespons\u00e1vel acenar-se \u00e0 popula\u00e7\u00e3o com uma vacina ainda n\u00e3o registrada nos \u00f3rg\u00e3os competentes (portanto, sem autoriza\u00e7\u00e3o de uso), sequer com uma avalia\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia divulgada &#8211; mas com data in\u00edcio de campanha de vacina\u00e7\u00e3o j\u00e1 estabelecida e espetacularmente clangorada.<\/p>\n<p>Fundada em 1886 com o objetivo prec\u00edpuo de discutir quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro lamenta, estranha e repele o sil\u00eancio, a ina\u00e7\u00e3o e a abulia da quase totalidade das entidades m\u00e9dicas do pa\u00eds, e as conclama \u00e0 ela se unirem pela demanda por pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0 pandemia, baseadas na evid\u00eancia cient\u00edfica dos fatos, e dissociadas de considera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, partid\u00e1rias ou ideol\u00f3gicas que possam vir a prejudicar o enfrentamento da maior crise sanit\u00e1ria que esta mais que centen\u00e1ria associa\u00e7\u00e3o jamais presenciou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Celso Ferreira Ramos Filho<\/p>\n<p>Presidente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro lamenta profundamente a morte do Dr. Ricardo Jos\u00e9 Lopes da Cruz, ocorrida em 7 de dezembro de 2020. 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