{"id":11938,"date":"2021-03-15T11:30:57","date_gmt":"2021-03-15T11:30:57","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=11938"},"modified":"2021-03-15T17:54:24","modified_gmt":"2021-03-15T17:54:24","slug":"sem-profissionais-hospital-federal-do-rio-tem-leitos-fechados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2021\/03\/15\/sem-profissionais-hospital-federal-do-rio-tem-leitos-fechados\/","title":{"rendered":"Sem profissionais, hospital federal do Rio tem leitos fechados"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>A c\u00e2mera passeia pelo corredor do sexto andar do Hospital Federal da Lagoa, na zona sul carioca. Em vez de m\u00e9dicos e enfermeiros circulando, impera um grande vazio onde chamam aten\u00e7\u00e3o apenas as correntes e cadeados em volta da fechadura das portas.<\/p>\n<p>Os quartos por tr\u00e1s delas est\u00e3o equipados e limpos, prontos para serem usados, exceto por um detalhe: n\u00e3o h\u00e1 profissionais de sa\u00fade. Essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de centenas de vagas de interna\u00e7\u00e3o geridas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A cidade tem nove unidades federais de alta complexidade, quantidade que n\u00e3o existe em nenhuma outra regi\u00e3o do pa\u00eds. Nelas, h\u00e1 2.508 leitos, incluindo cl\u00ednicos e UTIs de todas as especialidades.<\/p>\n<p>Nesta quarta (10), um ter\u00e7o desses leitos (851) estava bloqueado, quase metade (397) por falta de funcion\u00e1rios, segundo o\u00a0censo hospitalar\u00a0da prefeitura.\u00a0A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 cr\u00f4nica, mas ganha ares ainda mais dram\u00e1ticos agora, com um terceiro repique de casos de Covid se aproximando e\u00a0UTIs com mais de\u00a090% de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema dos leitos fechados ocorre porque, desde 2005, ano em que o Rio de Janeiro entrou em calamidade p\u00fablica, os hospitais federais funcionam com base em milhares de contratos tempor\u00e1rios. Isso quer dizer que existem m\u00e9dicos e enfermeiros que trabalham na rede h\u00e1 15 ou 16 anos, mas formalmente n\u00e3o s\u00e3o fixos.<\/p>\n<p>No ano passado, grande parte desses contratos expirou no pico da pandemia, em maio. Em meio ao caos, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade estendeu 3.600 deles at\u00e9 o fim do ano e, depois, 1.400 desse total at\u00e9 o fim de fevereiro, quando todos sa\u00edram.<\/p>\n<p>Paralelamente, o governo havia aberto um processo seletivo para suprir essas vagas quando elas fossem extintas e empregar cerca de 4.100 funcion\u00e1rios, tamb\u00e9m tempor\u00e1rios. Mas a contrata\u00e7\u00e3o deles tem sido lenta.<\/p>\n<p>O governo diz que mais de 3.350 desses profissionais j\u00e1 se apresentaram nas unidades e que \u201cas provid\u00eancias est\u00e3o sendo tomadas para que a totalidade desta contrata\u00e7\u00e3o ocorra com a maior brevidade poss\u00edvel\u201d. O n\u00famero, por\u00e9m, n\u00e3o condiz com os relatos.<\/p>\n<p>\u201cSe chamou tanta gente, por que tantos leitos foram bloqueados? Na pr\u00e1tica, chamaram meia d\u00fazia de enfermeiros e os hospitais n\u00e3o est\u00e3o funcionando na sua plenitude\u201d, diz o m\u00e9dico J\u00falio Noronha, presidente do corpo cl\u00ednico do\u00a0Hospital de Bonsucesso.<\/p>\n<p>Sem enfermeiros especializados, o Hospital da Lagoa, por exemplo, suspendeu a coleta de exames ambulatoriais e tomografias, reduziu a quimioterapia, hemodi\u00e1lise, pediatria e centro cir\u00fargico e fechou a unidade de p\u00f3s-operat\u00f3rio. \u201cAguardando provid\u00eancias urgentes\u201d, informa um comunicado interno da entidade.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da quest\u00e3o da quantidade, h\u00e1 ainda o fator da qualidade. O sindicato dos trabalhadores em sa\u00fade (Sindsprev\/RJ) alega que problemas no processo seletivo fizeram com que profissionais que j\u00e1 atuavam na rede fossem descartados, em favor de outros mais novos e com experi\u00eancia apenas em postos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cO processo foi extremamente falho, n\u00e3o levou em conta que a rede \u00e9 de alta complexidade. A pessoa se inscreve, fala que tem dez anos de experi\u00eancia, mas n\u00e3o perguntam se \u00e9 em UTI, cl\u00ednica etc.&#8221;, afirma a diretora regional do sindicato Christiane Gerardo, que \u00e9 auxiliar de enfermagem h\u00e1 23 anos no Hospital Cardoso Fontes.<\/p>\n<p>O risco, diz, s\u00e3o erros que podem custar vidas. Mas ela evitou citar exemplos: \u201cS\u00e3o problemas de natureza grave, que foram encaminhados aos conselhos. Quando voc\u00ea coloca uma pessoa sem experi\u00eancia numa emerg\u00eancia, coloca todo mundo em risco: o paciente, a equipe, o profissional\u201d.<\/p>\n<p>Por essas raz\u00f5es, o sindicato entrou na Justi\u00e7a para pedir a anula\u00e7\u00e3o do concurso, o que at\u00e9 agora n\u00e3o foi julgado. A Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o tamb\u00e9m entrou com a\u00e7\u00e3o para que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade estenda o prazo dos 1.400 funcion\u00e1rios que acabaram de sair, ou comprove que as novas admiss\u00f5es s\u00e3o suficientes para suprir a demanda.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 a descontinuidade desses contratos provocar o impedimento de leitos\u201d, alerta a defensora federal Shelley Maia.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio ministro da Sa\u00fade, Eduardo Pazuello, admitiu os riscos de demitir funcion\u00e1rios experientes quando pediu a prorroga\u00e7\u00e3o dos contratos em dezembro, em\u00a0carta ao presidente Jair Bolsonaro\u00a0(sem partido).<\/p>\n<p>\u201cA especificidade da assist\u00eancia m\u00e9dica de alta complexidade exige uma transi\u00e7\u00e3o segura dos cargos e encargos [&#8230;], pois a ruptura abrupta traz um elevad\u00edssimo risco de desassist\u00eancia, de incid\u00eancia de erros m\u00e9dicos e de outros problemas assistenciais com impactos irrevers\u00edveis e incalcul\u00e1veis\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>As unidades geridas pela Uni\u00e3o no Rio passam por uma\u00a0crise h\u00e1 anos, o que fez o governo Bolsonaro prometer um \u201cchoque de gest\u00e3o\u201d assim que assumiu,\u00a0enviando militares para organizar\u00a0processos administrativos e financeiros. Dois anos depois, por\u00e9m, pouco parece ter mudado.<\/p>\n<p>O Hospital de Bonsucesso \u00e9 o maior s\u00edmbolo do fracasso, com 266 dos seus 376 leitos interditados (71%) e os servi\u00e7os de alta complexidade interrompidos. Ele chegou a ser anunciado como refer\u00eancia para a Covid-19, mas acabou acumulando vagas ociosas pela falta de servidores e tem seu principal pr\u00e9dio fechado desde um\u00a0inc\u00eandio em outubro.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade cita licen\u00e7as m\u00e9dicas relacionadas ou n\u00e3o ao v\u00edrus e afastamentos de grupos de risco como justificativas para a falta de profissionais e o consequente impedimento de leitos. \u201cO problema est\u00e1 sendo mitigado com o retorno paulatino ao trabalho\u201d, diz.<\/p>\n<p>A dificuldade \u00e9 mais latente na rede federal, mas as outras esferas n\u00e3o saem ilesas, diz Thaisa Guerreiro, coordenadora de sa\u00fade da Defensoria do Rio de Janeiro. Segundo ela, houve um aumento no n\u00famero de leitos p\u00fablicos impedidos na cidade de novembro para fevereiro \u2014o que a gest\u00e3o Eduardo Paes (DEM) rebate, dizendo que o n\u00famero \u00e9 din\u00e2mico.<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 importante destacar \u00e9 que estamos h\u00e1 um ano passando pelas mesmas dificuldades, falando as mesmas coisas. Mas a gente olha e v\u00ea um retrovisor: os leitos aparecem quando o repique j\u00e1 est\u00e1 em queda. A fila n\u00e3o cai pela abertura de leitos, e sim porque as pessoas morrem\u201d, alerta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP A c\u00e2mera passeia pelo corredor do sexto andar do Hospital Federal da Lagoa, na zona sul carioca. Em vez de m\u00e9dicos e enfermeiros circulando, impera um grande vazio onde chamam aten\u00e7\u00e3o apenas as correntes e cadeados em volta da fechadura das portas. 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