{"id":11984,"date":"2021-03-19T09:19:29","date_gmt":"2021-03-19T09:19:29","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=11984"},"modified":"2021-03-22T19:10:01","modified_gmt":"2021-03-22T19:10:01","slug":"profissionais-da-saude-encaram-desgaste-na-batalha-contra-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2021\/03\/19\/profissionais-da-saude-encaram-desgaste-na-batalha-contra-coronavirus\/","title":{"rendered":"Profissionais da sa\u00fade encaram desgaste na batalha contra coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Agora<\/p>\n<p>Ang\u00fastia, cansa\u00e7o, desespero, sensa\u00e7\u00e3o de m\u00e3os atadas, estresse. Depois de um ano no foco da pandemia de Covid-19, profissionais da sa\u00fade se veem tentando juntar for\u00e7as para lutar contra o per\u00edodo mais grave da doen\u00e7a no pa\u00eds, revivendo os sentimentos que nunca foram embora.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o d\u00e1 para aguentar ver gente morrendo a toda hora, ver pessoas da sua idade com um tubo na boca para tentar respirar&#8221;, desabafa Marli Rodrigues, 44, enfermeira da UTI do Iamspe (Instituto de Assist\u00eancia M\u00e9dica ao Servidor P\u00fablico Estadual de S\u00e3o Paulo). Enquanto ela faz o relato da rotina, precisa de for\u00e7a tamb\u00e9m para segurar a emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em duas horas de plant\u00e3o, na manh\u00e3 da \u00faltima quarta-feira (10), Marli j\u00e1 tinha visto duas mortes pela doen\u00e7a. Uma terceira vaga foi aberta no setor pela alta de um paciente. Mas n\u00e3o significaria um al\u00edvio no trabalho: j\u00e1 havia outros tr\u00eas aguardando interna\u00e7\u00e3o na UTI. &#8220;A gente n\u00e3o tem mais folga de leito, estamos o tempo todo batendo 100%.&#8221;<\/p>\n<p>O efeito disso, ela diz, s\u00e3o as equipes cada vez mais sobrecarregadas e com \u00e2nimos \u00e0 flor da pele. \u00c0s vezes, o estresse fala mais alto. &#8220;As pessoas come\u00e7am a se alterar umas com as outras por causa do cansa\u00e7o. Todo dia tem um conflito para ser resolvido.&#8221;<\/p>\n<p>Conforme a pandemia se agrava, os relatos dos plant\u00f5es v\u00e3o se tornando mais dram\u00e1ticos. Na quinta-feira (4), no Hospital Universit\u00e1rio da USP, foi necess\u00e1rio reter macas de ambul\u00e2ncias. Sem elas, n\u00e3o seria poss\u00edvel acomodar os pacientes, diz Gerson Salvador, diretor do Simesp (Sindicato dos M\u00e9dicos de S\u00e3o Paulo) e m\u00e9dico da unidade. &#8220;A gente tem sempre mais paciente que o que consegue atender.&#8221;<\/p>\n<p>Os casos t\u00eam ficado cada vez mais graves e numerosos. E o efeito disso \u00e9 sentido em todo o sistema de sa\u00fade. A dificuldade para as transfer\u00eancias tem feito se repetir situa\u00e7\u00f5es em que as ambul\u00e2ncias chegam a hospitais com pacientes graves, mas n\u00e3o encontram vagas, diz um condutor do Samu (Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia) que pediu para n\u00e3o ter o nome publicado.<\/p>\n<p>&#8220;As fam\u00edlias v\u00eam pedir pelo amor de Deus para socorrermos uma pessoa. Mas voc\u00ea vai fazer o qu\u00ea? N\u00f3s fazemos o nosso melhor, colocamos oxig\u00eanio, ligamos a sirene e sa\u00edmos. Mas, depois, fazemos o qu\u00ea?&#8221;<\/p>\n<p>Na UPA Orop\u00f3, em Mogi das Cruzes, a lota\u00e7\u00e3o tem sido constante, segundo o enfermeiro Rodrigo Rom\u00e3o, 39, diretor do Sindicato dos Enfermeiros que atua na unidade. Por l\u00e1, os leitos de estabiliza\u00e7\u00e3o &#8211;onde os pacientes n\u00e3o deveriam ficar por mais de 24 horas&#8211; est\u00e3o sempre ocupados, com as mesmas pessoas por dias. &#8220;A gente sabe que s\u00f3 vai surgir vaga na UTI quando um que est\u00e1 internado morrer.&#8221;<\/p>\n<p>Na quarta (9), Rom\u00e3o viu mais um paciente morrer na unidade sem conseguir transfer\u00eancia. O homem, de 84 anos, passou cinco dias internado depois de chegar \u00e0 unidade com falta de ar. Naquele momento, ele conversava e parecia bem, diz o enfermeiro, mas teve uma piora dr\u00e1stica e, uma hora depois, precisou ser intubado.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia tentava se apegar ao fato de que o idoso, dias antes, havia recebido a primeira dose da vacina contra a Covid-19 &#8211;mas, sem o refor\u00e7o, o imunizante ainda n\u00e3o tem o efeito completo. A segunda dose estava agendada exatamente para o dia 9, mas o homem n\u00e3o teve tempo de receb\u00ea-la. &#8220;Aquela fam\u00edlia est\u00e1 bem arrasada por conta dessa doen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Para o pediatra Walter Muller, 62, o mais dif\u00edcil tem sido perder profissionais da sa\u00fade que, al\u00e9m de companheiros de trabalho, s\u00e3o amigos. A press\u00e3o emocional, segundo ele, \u00e9 maior a cada dia. Em um s\u00f3 fim de semana, ele perdeu dois membros da sua equipe.<\/p>\n<p>&#8220;No s\u00e1bado morreu um, e, no domingo, o outro. E eu tinha que ir no domingo \u00e0 noite para o plant\u00e3o. Imagina, depois perder dois companheiros de equipe de muitos anos, como estava a minha situa\u00e7\u00e3o emocional, e ainda ter que ir trabalhar. Era o dever me chamando.&#8221;<\/p>\n<p>Trabalhando &#8220;na reserva&#8221; porque o cansa\u00e7o extremo j\u00e1 ficou para tr\u00e1s, diz o m\u00e9dico intensivista Caio Jaoude, do Iamspe. Aos 36, ele j\u00e1 precisa lidar com a ansiedade, ins\u00f4nia e a press\u00e3o alta, tudo fruto de um ano inteiro em ritmo intenso.<\/p>\n<p>A rotina extenuante acaba afetando tamb\u00e9m os momentos de pausa durante o plant\u00e3o, cada vez mais raros. &#8220;No descanso, a gente tenta ser o mais tranquilo poss\u00edvel, mais agrad\u00e1vel. Mas em muitos momentos tem um desentendimento, algu\u00e9m que tem alguma press\u00e3o maior fica mais chateado e irritado.&#8221;<\/p>\n<p>A m\u00e9dica intensivista Rebeca Klarosk, 30, tamb\u00e9m do Iamspe, j\u00e1 conta dois meses sem um fim de semana de folga. Ela tem trabalhado cerca de tr\u00eas vezes mais que a carga normal. &#8220;S\u00e3o plant\u00f5es extra para ningu\u00e9m ficar sobrecarregado, mas todo mundo j\u00e1 est\u00e1 sobrecarregado.&#8221;<\/p>\n<p>Na segunda-feira (8), Rebeca diz que viveu mais um dos momentos que marcam a rotina de um m\u00e9dico: um paciente de apenas 44 anos e sem problemas de sa\u00fade que teve uma piora r\u00e1pida, com febre e queda de press\u00e3o, at\u00e9 chegar a uma parada cardiorrespirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A equipe passou uma hora e meia se revezando para tentar reanim\u00e1-lo, sem sucesso. &#8220;Al\u00e9m de perder um paciente t\u00e3o jovem, dar a not\u00edcia para a esposa foi muito dif\u00edcil. Eu sei que a gente precisa ser forte, mas eu n\u00e3o aguentei e chorei junto com ela.&#8221;<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">Depois de um ano, reconhecimento foi embora, dizem profissionais<\/h3>\n<p>&#8220;N\u00f3s n\u00e3o somos mais her\u00f3is. Estamos todos com as capas rasgadas&#8221;. \u00c9 assim que a enfermeira Marli Rodrigues, 44, resume o trabalho para curar pessoas da Covid-19 depois de um ano que a batalha come\u00e7ou. A falta de experi\u00eancia com a doen\u00e7a, no in\u00edcio, deu lugar ao cansa\u00e7o das equipes de assist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mesmo durante o pior momento da pandemia, os repetidos relatos de pessoas se aglomerando mostram uma parcela da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem cumprido a sua parte. Por outro lado, quem combate a pandemia n\u00e3o pode deixar de fazer a sua.<\/p>\n<p>O que parece, segundo o enfermeiro Rodrigo Rom\u00e3o, 39, \u00e9 que aquele reconhecimento inicial, quando os profissionais da sa\u00fade eram vistos como her\u00f3is, passou. &#8220;As pessoas perderam o medo e tocaram a vida normalmente.&#8221;<\/p>\n<p>Desse jeito, diz Marli, \u00e9 dif\u00edcil manter as for\u00e7as para seguir na miss\u00e3o. \u201cSe eu pudesse falar o que eu quero fazer, eu sentava e chorava, de tanto cansa\u00e7o, e a gente v\u00ea que ningu\u00e9m se importa. O mundo parece que n\u00e3o est\u00e1 se importando com o nosso trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Depois de a gente ver tudo o que aconteceu em 2020 voltando, a impress\u00e3o que fica \u00e9 de que popula\u00e7\u00e3o e governos n\u00e3o d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o \u00e0 real gravidade do que est\u00e1 acontecendo, diz um condutor de ambul\u00e2ncia do Samu (Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia) que pediu para n\u00e3o ter o nome publicado.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m est\u00e1 preocupado com o trabalhador. Parece que acham que a gente \u00e9 m\u00e1quina, que a gente n\u00e3o sente dor, que n\u00e3o tem fam\u00edlia.\u201d Para o condutor do Samu, falta consci\u00eancia. &#8220;S\u00f3 d\u00e3o valor ao nosso trabalho quando t\u00eam um familiar entre a vida e a morte. S\u00f3 a\u00ed passam a reconhecer que a pandemia \u00e9 grave. Fora isso, n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed. E a gente sai todo dia para trabalhar pedindo a Deus para ter sa\u00fade para ajudar a quem precisa.&#8221;<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">Pico atual \u00e9 pior que o vivido em 2020<\/h3>\n<p>&#8220;O momento \u00e9 muito mais grave, mas as pessoas est\u00e3o se cuidando menos&#8221;, afirma Gerson Salvador, diretor do Simesp (Sindicato dos M\u00e9dicos de S\u00e3o Paulo) e m\u00e9dico do Hospital Universit\u00e1rio da USP. Com isso, os n\u00fameros de casos e mortes pela Covid-19 n\u00e3o param de crescer.<\/p>\n<p>Recordes atr\u00e1s de recordes, a situa\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o ter um fim pr\u00f3ximo. O medo da doen\u00e7a j\u00e1 nem afeta tanto, diz o pediatra Walter Muller, 62. O cen\u00e1rio agora \u00e9 de des\u00e2nimo por ver que n\u00e3o h\u00e1 como fugir da piora que se desenrola. &#8220;Esse ano eu j\u00e1 considero como perdido.&#8221; E isso porque a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 sinais de que vai colaborar com as medidas b\u00e1sicas para a preven\u00e7\u00e3o da Covid-19: distanciamento, higiene das m\u00e3os e uso de m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>Apesar do aprendizado acumulado ao longo do \u00faltimo ano, a Covid-19 parece continuar descobrindo novas formas de surpreender as equipes de assist\u00eancia. Na onda atual, chegam pacientes mais jovens e mais graves. \u201cEstamos reaprendendo muita coisa\u201d, diz a intensivista Rebeca Klarosk, 30.<\/p>\n<p>Um novo padr\u00e3o, ela diz, \u00e9 a necessidade de reintubar pacientes depois que eles melhoram. \u201cA gente tira o tubo e, dali a dois dias, come\u00e7a tudo de novo. Por mais que a gente estude, a gente ainda n\u00e3o conhece totalmente o coronav\u00edrus, ele ainda \u00e9 uma inc\u00f3gnita. Isso nos deixa muito assustados.\u201d<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">Recupera\u00e7\u00f5es d\u00e3o g\u00e1s para seguir na miss\u00e3o<\/h3>\n<p>No meio de tantos dramas, focar nos casos positivos \u00e9 uma forma para ter for\u00e7as para seguir na linha de frente, diz o m\u00e9dico intensivista Caio Jaoude, 36. Um dos casos que mais lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o recentemente foi o de um homem internado na UTI com a mesma idade que ele.<\/p>\n<p>Depois de passar cinco dias intubado, o paciente teve melhora e saiu da ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica. Poucos dias depois, quando a equipe achava que a alta estava pr\u00f3xima, ele piorou novamente e passou mais 25 dias com a intuba\u00e7\u00e3o. &#8220;Foi um per\u00edodo com diversas intercorr\u00eancias, a gente [a equipe] ficou arrasado, fazendo tudo o que era necess\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p>Ao todo, foram 70 dias no tratamento intensivo, em que precisou inclusive de hemodi\u00e1lise. &#8220;Na Covid-19, n\u00e3o existe controle. S\u00f3 podemos dizer que a doen\u00e7a est\u00e1 controlada quando damos alta.&#8221;<\/p>\n<p>\u201cLembra do fulano\u201d, \u00e9 a palavra de guerra para que a equipe mantenha o foco na luta, diz a enfermeira Marli Rodrigues, 44. Um deles foi um paciente de 42 anos que chegou a um est\u00e1gio em que parecia n\u00e3o haver mais esperan\u00e7as. Surpreendentemente, ele come\u00e7ou a melhorar.<\/p>\n<p>Depois da alta, a fam\u00edlia mandou v\u00eddeos dele indo embora no grupo pelo qual trocavam mensagens &#8211;um dos ind\u00edcios dos v\u00ednculos formados. \u201c\u00c9 isso o que nos motiva.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Agora Ang\u00fastia, cansa\u00e7o, desespero, sensa\u00e7\u00e3o de m\u00e3os atadas, estresse. 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