{"id":13890,"date":"2022-02-07T08:13:52","date_gmt":"2022-02-07T11:13:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=13890"},"modified":"2022-02-08T15:02:14","modified_gmt":"2022-02-08T18:02:14","slug":"omicron-sobrecarrega-unidades-de-saude-e-gera-onda-de-agressoes-a-profissionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2022\/02\/07\/omicron-sobrecarrega-unidades-de-saude-e-gera-onda-de-agressoes-a-profissionais\/","title":{"rendered":"\u00d4micron sobrecarrega unidades de sa\u00fade e gera onda de agress\u00f5es a profissionais"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>No pronto-socorro de um hospital p\u00fablico em Macei\u00f3 (AL), a m\u00e9dica Mar\u00edlia Magalh\u00e3es, 33, e seus colegas t\u00eam atendido pacientes com dois seguran\u00e7as na porta do consult\u00f3rio. &#8220;As pessoas chutam e batem na porta, gritam, amea\u00e7am a equipe. Algumas se comportam de forma animalesca com\u00a0profissionais esgotados, que est\u00e3o trabalhando sem\u00a0parar h\u00e1 dois anos nessa pandemia,\u00a0muitas vezes com carga hor\u00e1ria triplicada para ocupar o espa\u00e7o dos colegas que est\u00e3o doentes&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>No centro de sa\u00fade da Praia dos Ingleses, em Florian\u00f3polis (SC), a enfermeira Andressa Albrecht, 35, levou um soco no olho no in\u00edcio do m\u00eas ao tentar separar uma briga entre pacientes iniciada porque os dois m\u00e9dicos do posto interromperam o atendimento por alguns minutos para tentar estabilizar um doente grave trazido pela ambul\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8220;No fim do expediente, eu e o seguran\u00e7a patrimonial, que tamb\u00e9m foi agredido, tivemos que sair da unidade escoltados por policiais. No dia seguinte, esvaziaram os quatro pneus do meu carro&#8221;, relata.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, capital, o enfermeiro Ronaldo, 40, tamb\u00e9m precisou chamar a Pol\u00edcia Militar ap\u00f3s sofrer agress\u00f5es f\u00edsicas. As verbais j\u00e1 viraram rotina. &#8220;As pessoas nos chamam de vagabundos, dizem que s\u00e3o elas que pagam os nossos sal\u00e1rios. Chegam quando a unidade j\u00e1 est\u00e1 fechada e querem ser testadas, gritam, xingam.&#8221;<\/p>\n<p>Em uma UBS na zona oeste de S\u00e3o Paulo, o m\u00e9dico de fam\u00edlia Lucas Vinicius de Lima, 29, j\u00e1 perdeu as contas das vezes em que foi amea\u00e7ado de morte e de agress\u00f5es desde o in\u00edcio deste ano. &#8220;O usu\u00e1rio vem e te amea\u00e7a de te pegar no final do plant\u00e3o. Geralmente, \u00e9 o cara h\u00edgido [saud\u00e1vel], encrenqueiro, de 20, 30 anos, que quer passar na frente dos outros e n\u00e3o aceita que tem outras pessoas com mais prioridade.&#8221;<\/p>\n<p>Com a\u00a0explos\u00e3o de casos de \u00f4micron e de gripe influenza, prontos-socorros e unidade de sa\u00fade que j\u00e1 operavam al\u00e9m do limite viram a situa\u00e7\u00e3o piorar ainda mais com o aumento da demanda e\u00a0o afastamento de funcion\u00e1rios contaminados. Em S\u00e3o Paulo, a Secretaria Municipal da Sa\u00fade registrava at\u00e9 a \u00faltima quinta (27), 4.707 profissionais afastados por Covid ou s\u00edndrome gripal \u2014o triplo do in\u00edcio do m\u00eas (1.585).<\/p>\n<p>A demora no atendimento tem gerado revolta na popula\u00e7\u00e3o e aumentado\u00a0os casos de viol\u00eancia contra profissionais de sa\u00fade. Os relatos v\u00eam de todo o pa\u00eds e afetam, principalmente, m\u00e9dicos e pessoal da enfermagem da APS (Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria \u00e0 Sa\u00fade) e dos pronto-atendimentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas que mensurem essa viol\u00eancia atual, mas, segundo\u00a0levantamento recente do\u00a0Coren (Conselho Regional de Enfermagem de S\u00e3o Paulo), com 252 trabalhadores do setor, 40,9% dos profissionais relatam ter sofrido agress\u00f5es verbais e outros 9,5% j\u00e1 foram v\u00edtimas de ataques f\u00edsicos. O Sindicato dos M\u00e9dicos de S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m est\u00e1 levantando esses dados.<\/p>\n<p>&#8220;Viol\u00eancia a gente sofre diariamente, mas agora, com esse tsunami da \u00f4micron, aumentou muito. A maioria dos usu\u00e1rios reclama do tempo de espera, acha que a espera de seis horas \u00e9 culpa do m\u00e9dico, do enfermeiro&#8221;, diz Lima, que j\u00e1 chegou a atender 120 pacientes em 12 horas de trabalho.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m muitos\u00a0afastamentos de colegas por\u00a0burnout, segundo a enfermeira Glaycie de Abreu Branco, 41, que trabalha na mesma UBS de Lima. &#8220;\u00c9 muita sobrecarga de trabalho, poucos funcion\u00e1rios para a demanda e h\u00e1 um esgotamento mental geral. S\u00e3o dois anos nessa pegada louca&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>A sobrecarga de trabalho, o esgotamento f\u00edsico e ps\u00edquico dos profissionais da sa\u00fade e os problemas estruturais (falta de medicamentos b\u00e1sicos, EPIs, testes, papel higi\u00eanico, entre outros) t\u00eam sido denunciados reiteradamente pelo Sindicato dos M\u00e9dicos da capital, que j\u00e1 aprovou indicativo de greve, mas a paralisa\u00e7\u00e3o foi\u00a0suspensa por decis\u00e3o do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Para Branco, que est\u00e1 escrevendo um livro sobre o tema da viol\u00eancia contra a enfermagem, muitas agress\u00f5es ocorrem pelo fato de a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o entender que as equipes de sa\u00fade t\u00eam que seguir protocolos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade com crit\u00e9rios e prioridades para atendimentos no SUS.<\/p>\n<p>&#8220;Tem gente assintom\u00e1tica que quer fazer teste da Covid para viajar. A\u00ed a gente tenta explicar que o SUS n\u00e3o pode bancar o teste nessas situa\u00e7\u00f5es e a\u00ed a pessoa j\u00e1 fica nervosa, te xinga e acha que voc\u00ea \u00e9 que n\u00e3o quer fazer&#8221;, conta a enfermeira.<\/p>\n<p>Para Gabriela Lotta, professora de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica da FGV (Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas), o aumento de viol\u00eancia pode ter v\u00e1rias causas, que demandam diferentes interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ela lembra que a popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 esgotada, ap\u00f3s dois anos de pandemia, e isso se reflete em aumento de ansiedade, em dificuldade de intera\u00e7\u00e3o social e outras quest\u00f5es que podem gerar uma rea\u00e7\u00e3o negativa contra os profissionais da linha de frente.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 relatos no mundo todo mostrando como os profissionais da linha de frente dos servi\u00e7os [n\u00e3o s\u00f3 de sa\u00fade], por serem as primeiras pessoas com quem interagimos, est\u00e3o sofrendo a consequ\u00eancia desse longo per\u00edodo de distanciamento e tendo que lidar com pessoas com baixa toler\u00e2ncia e muito nervosismo.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, para os especialistas, seria poss\u00edvel minimizar essa hostilidade contra profissionais da linha de frente da sa\u00fade se os servi\u00e7os estivessem mais bem preparados para enfrentar essas novas demandas.<\/p>\n<p>Segundo Michelle Fernandez, pesquisadora do Instituto de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da UnB (Universidade de Bras\u00edlia),\u00a0a sinaliza\u00e7\u00e3o vinda dos Estados Unidos\u00a0e da Europa de que a chegada da variante \u00f4micron no Brasil sobrecarregaria os servi\u00e7os de sa\u00fade estava clara, mas foi ignorada por muitos gestores.<\/p>\n<p>&#8220;Para a popula\u00e7\u00e3o, os profissionais de sa\u00fade s\u00e3o a cara do estado. As pessoas chegam em um servi\u00e7o de sa\u00fade, demoram horas para ser atendidas e descontam em quem est\u00e1 na linha de frente. Os profissionais, por sua vez, est\u00e3o vulner\u00e1veis, se contaminando muito, se sobrecarregando para dar conta de cobrir os colegas doentes.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo ela, os profissionais de sa\u00fade passam hoje por um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o, muitas vezes sem conseguir almo\u00e7ar, ir ao banheiro, tudo em prol do &#8220;bom funcionamento da unidade de sa\u00fade&#8221;. &#8220;Mas o bom funcionamento tem que ser garantido por quem est\u00e1 na gest\u00e3o, pensando em toda essa din\u00e2mica.&#8221;<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio de viol\u00eancia em Florian\u00f3polis ilustra bem isso. O centro de sa\u00fade da praia do Ingleses, o maior da cidade, atende normalmente a uma popula\u00e7\u00e3o de 7.000 pessoas, quase o triplo da capacidade. E nesse per\u00edodo do ano tamb\u00e9m \u00e9 muito procurado pelos turistas.<\/p>\n<p>&#8220;A gente compreende, tem empatia pelas pessoas que ficam cinco horas em p\u00e9, no sol, mas as pessoas precisam entender que n\u00e3o somos n\u00f3s os respons\u00e1veis pela falta de organiza\u00e7\u00e3o. Algumas coisas j\u00e1 eram previstas, como a chegada \u00f4micron e o aumento do fluxo de turistas&#8221;, diz a enfermeira Andressa Albrecht.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as agress\u00f5es que Albrecht e o seguran\u00e7a sofreram, a Secretaria Municipal da Sa\u00fade enviou mais profissionais de sa\u00fade para ajudar no atendimento e abriu mais consult\u00f3rios no centro de sa\u00fade. &#8220;O atendimento ficou mais \u00e1gil e os usu\u00e1rios n\u00e3o est\u00e3o mais t\u00e3o agressivos&#8221;, conta a enfermeira.<\/p>\n<p>Segundo Rudi Rocha, diretor do Ieps (Instituto de Estudos para Pol\u00edticas de Sa\u00fade), cabe \u00e0 gest\u00e3o cuidar diretamente da seguran\u00e7a e responder de maneira efetiva, jur\u00eddica e criminalmente, a ofensas e agress\u00f5es, mas tamb\u00e9m falta treinamento aos profissionais da sa\u00fade e de outras \u00e1reas que d\u00e3o suporte, como o pessoal da seguran\u00e7a e do almoxarifado, para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da\u00a0atual crise provocada\u00a0pela \u00f4micron, Gabriela Lotta lembra que h\u00e1 uma demanda reprimida enorme por outros cuidados, e os servi\u00e7os de sa\u00fade ter\u00e3o que gerenci\u00e1-la. &#8220;Muitas pessoas ficaram dois anos longe das unidades de sa\u00fade, n\u00e3o fizeram os tratamentos e consultas preventivas, e agora est\u00e3o com baixa toler\u00e2ncia para faz\u00ea-los e esperar o tempo e os tr\u00e2mites dos servi\u00e7os. E isso acaba sendo descontado nos profissionais.&#8221;<\/p>\n<p>Ela sugere campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o tentando sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o para a necessidade de maior toler\u00e2ncia dada a sobrecarga atual, al\u00e9m de suporte t\u00e9cnico e apoio psicol\u00f3gico aos profissionais.<\/p>\n<p>&#8220;Eles est\u00e3o na ativa h\u00e1 dois anos, sem descanso, sob muito estresse, e precisam conseguir lidar com isso e com as poss\u00edveis rea\u00e7\u00f5es violentas dos usu\u00e1rios. A gest\u00e3o precisa estar muito pr\u00f3xima do cotidiano desse profissional, precisa acompanhar as filas e salas de espera para tentar aliviar esses problemas.&#8221;<\/p>\n<p>Ela diz que outra causa da viol\u00eancia tem sido o\u00a0negacionismo de parte da popula\u00e7\u00e3o, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vacinas. &#8220;Os antivacinas explicitam sua discord\u00e2ncia aos profissionais de sa\u00fade de forma violenta. Est\u00e1 mais complicado em algumas \u00e1reas os agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade irem aos domic\u00edlios sozinhos para convencer a popula\u00e7\u00e3o a se vacinar. \u00c9 melhor a gest\u00e3o criar grupos maiores.&#8221;<\/p>\n<p>Em nota, a Secretaria Municipal da Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo diz que tem respondido ao aumento da demanda desde o in\u00edcio da pandemia, com a entrega de dez hospitais, amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de leitos de UTI de 507 para mais de 1.400, no auge da pandemia, al\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3o de seus leitos de enfermaria.<\/p>\n<p>Diz ainda que para atender a demanda dos mun\u00edcipes que procuram as unidades de sa\u00fade, as UBSs est\u00e3o atendendo pacientes com sintomas gripais sem a necessidade de agendamento pr\u00e9vio e 39 AMAs (Assist\u00eancias M\u00e9dicas Ambulatoriais) e UBSs Integradas tiveram o hor\u00e1rio ampliado.<\/p>\n<p>A secretaria ressalta que, mesmo com o empenho de todos os profissionais, a colabora\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o dos usu\u00e1rios \u00e9 primordial, principalmente, para seguir o fluxo no atendimento nos equipamentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP No pronto-socorro de um hospital p\u00fablico em Macei\u00f3 (AL), a m\u00e9dica Mar\u00edlia Magalh\u00e3es, 33, e seus colegas t\u00eam atendido pacientes com dois seguran\u00e7as na porta do consult\u00f3rio. &#8220;As pessoas chutam e batem na porta, gritam, amea\u00e7am a equipe. 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