{"id":15240,"date":"2022-09-30T12:55:42","date_gmt":"2022-09-30T15:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=15240"},"modified":"2022-10-03T18:48:04","modified_gmt":"2022-10-03T21:48:04","slug":"saude-enfrenta-doencas-seculares-falta-cronica-de-recursos-e-efeitos-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2022\/09\/30\/saude-enfrenta-doencas-seculares-falta-cronica-de-recursos-e-efeitos-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade enfrenta doen\u00e7as seculares, falta cr\u00f4nica de recursos e efeitos da pandemia"},"content":{"rendered":"<p>fonte: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2022\/09\/saude-enfrenta-doencas-seculares-falta-cronica-de-recursos-e-efeitos-da-pandemia.shtml?\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Folha de SP<\/a><\/p>\n<p>O Brasil chega a seus\u00a0200 anos como na\u00e7\u00e3o independente\u00a0ainda lidando com doen\u00e7as que remontam ao per\u00edodo colonial, muitas delas decorrentes de problemas sanit\u00e1rios e de qualidade de vida hist\u00f3ricos, como falta de acesso \u00e0 rede de esgoto e \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, o SUS expandiu o atendimento b\u00e1sico e propiciou o aumento da expectativa de vida no pa\u00eds, mas seus avan\u00e7os s\u00e3o limitados pelo\u00a0subfinanciamento\u00a0e pela\u00a0inefici\u00eancia na gest\u00e3o dos recursos.<\/p>\n<p>O Brasil chega ao bicenten\u00e1rio de sua independ\u00eancia lidando com doen\u00e7as infecciosas que remontam ao seu passado colonial, como a tuberculose, a s\u00edfilis e a var\u00edola, agora em uma vers\u00e3o menos grave, aliadas a problemas ligados ao envelhecimento populacional, como o c\u00e2ncer e as doen\u00e7as cardiovasculares, tudo isso somado \u00e0\u00a0alta de transtornos mentais\u00a0e a outras demandas geradas pela pandemia de Covid-19.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tamb\u00e9m enfrenta uma tens\u00e3o crescente acerca das necessidades de financiamento e sustentabilidade do SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), que atende a 75% da popula\u00e7\u00e3o e que, nos \u00faltimos 30 anos, contribuiu para a queda das taxas de mortalidade infantil e de \u00f3bitos por doen\u00e7as transmiss\u00edveis e de causas evit\u00e1veis, que levaram a um aumento da expectativa de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde a sua cria\u00e7\u00e3o, na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, o sistema nunca teve recursos suficientes para fazer valer os preceitos que o regem: universalidade (direito de todos, sem discrimina\u00e7\u00e3o), integralidade (preven\u00e7\u00e3o, tratamento e reabilita\u00e7\u00e3o) e equidade (atendimento de acordo com as necessidades de cada paciente).<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias do subfinanciamento cr\u00f4nico e da inefici\u00eancia na gest\u00e3o dos recursos s\u00e3o bem conhecidas e traduzidas em dificuldade de acesso, longas filas de espera para consultas e exames especializados, procedimentos e cirurgias, falta de medicamentos, entre outros.<\/p>\n<p>A pandemia encontrou um SUS ainda mais depauperado com os efeitos do\u00a0teto de gastos de 2016, que limita os gastos federais e tem impedido, na pr\u00e1tica, o aumento de recursos para sa\u00fade e outras \u00e1reas sociais. A medida j\u00e1 retirou quase R$ 37 bilh\u00f5es do sistema p\u00fablico entre 2018 e 2020.<\/p>\n<p>Com a inje\u00e7\u00e3o de recursos extraordin\u00e1rios usados na amplia\u00e7\u00e3o de leitos de UTI, compra de equipamentos, contrata\u00e7\u00e3o de pessoal, vacina\u00e7\u00e3o, entre outros, o sistema de sa\u00fade conseguiu enfrentar a maior crise sanit\u00e1ria da sua hist\u00f3ria, que causou mais de 683 mil mortes at\u00e9 o fim de agosto.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as fragilidades ficaram expostas. &#8220;A pandemia mostrou que n\u00e3o temos pol\u00edtica p\u00fablica para enfrentar futuras epidemias que vir\u00e3o. Governos do Reino Unido e dos Estados Unidos j\u00e1 anunciaram propostas concretas para aumentar os gastos na sa\u00fade, mas, por aqui, n\u00e3o h\u00e1 nada ainda. Qual \u00e9 o projeto de sistema adequado para que as pessoas tenham o m\u00ednimo de bem-estar social e n\u00e3o se sintam humilhadas quando precisam de atendimento?&#8221;, questiona a\u00a0m\u00e9dica sanitarista Ligia Bahia, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, os gastos p\u00fablicos em sa\u00fade se mantiveram est\u00e1veis, enquanto as fam\u00edlias brasileiras passaram a gastar mais com planos de sa\u00fade, consultas e rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>Segundo o IBGE, entre 2010 e 2019, os gastos totais (p\u00fablicos e privados) em sa\u00fade subiram de 8% para 9,6% do PIB. Por\u00e9m, dos R$ 711,4 bilh\u00f5es investidos em 2019, R$ 427,8 bilh\u00f5es foram despesas privadas (5,8% do PIB). Os gastos do governo somaram R$ 283,6 bilh\u00f5es (3,8%). Em 2010, a fatia das fam\u00edlias correspondia a 4,4%, e a do governo, a 3,6%.<\/p>\n<p>Na m\u00e9dia, em pa\u00edses da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico), os governos gastaram em 2019 o equivalente a 6,5% do PIB, e as fam\u00edlias desembolsam s\u00f3 2,3% do PIB. Os governos de Alemanha, Fran\u00e7a e Reino Unido investiram 9,9%, 9,3% e 8,0% do PIB, respectivamente.<\/p>\n<p>At\u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, quando a sa\u00fade p\u00fablica passou a ser um direito de todos e dever do Estado, a \u00e1rea era de responsabilidade do Inamps (Instituto Nacional de Assist\u00eancia M\u00e9dica da Previd\u00eancia Social) e destinada apenas aos trabalhadores com carteira assinada.<\/p>\n<p>O restante das pessoas participava de programas espec\u00edficos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ou das secretarias estaduais, como o de vacina\u00e7\u00e3o, ou buscava ajuda em institui\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas, como as Santas Casas. &#8220;Vinha carimbado no prontu\u00e1rio \u2018indigente\u2019. Isso significava que todos os que trabalhavam na cidade sem carteira assinada e toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira do campo n\u00e3o tinham direito a nada&#8221;, lembra o oncologista\u00a0Drauzio Varella, colunista da\u00a0<strong>Folha<\/strong>.<\/p>\n<p>No final dos anos 1980<strong>,\u00a0<\/strong>o Inamps entrou em decl\u00ednio. Al\u00e9m dos in\u00fameros esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, a arrecada\u00e7\u00e3o n\u00e3o cobria os gastos, e a conta n\u00e3o fechava. Ao mesmo tempo, existia uma press\u00e3o dos movimentos populares por uma reforma sanit\u00e1ria no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O artigo 198 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal estabeleceu que os recursos para financiar o SUS viriam do or\u00e7amento da seguridade social, entre outras fontes. &#8220;Quando a Constituinte permitiu a cria\u00e7\u00e3o do SUS, colocou nas disposi\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias que 30% do Fapas [Fundo de Previd\u00eancia e Assist\u00eancia Social] iriam para o SUS, mas, na primeira crise da Previd\u00eancia, em 1992, os recursos deixaram de ir&#8221;, conta o\u00a0m\u00e9dico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor de sa\u00fade p\u00fablica da USP.<\/p>\n<p>Em 1993, a receita de contribui\u00e7\u00f5es de empregados e empregadores, que representava um ter\u00e7o do or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, passou a financiar exclusivamente benef\u00edcios previdenci\u00e1rios, deixando a pasta da Sa\u00fade endividada para bancar despesas de custeio.<\/p>\n<p>Em 1996, o cardiologista Adib Jatene, ent\u00e3o ministro da Sa\u00fade de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), usou do seu prest\u00edgio para obter a\u00a0aprova\u00e7\u00e3o da CPMF\u00a0(Contribui\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria sobre Movimenta\u00e7\u00e3o Financeira). Mas, de novo, os novos recursos n\u00e3o chegaram \u00e0 sa\u00fade, o que levou o m\u00e9dico a pedir demiss\u00e3o do cargo.<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1990, as verbas federais eram inst\u00e1veis, e o setor dependia de medidas emergenciais e provis\u00f3rias. A emenda constitucional 29, de 2000, foi criada estabelecer par\u00e2metros do financiamento, mas s\u00f3 em 2012 uma lei complementar definiu que a Uni\u00e3o passaria a aplicar, anualmente, o montante correspondente ao valor empenhado no exerc\u00edcio financeiro anterior, acrescido de, no m\u00ednimo, o percentual correspondente \u00e0 varia\u00e7\u00e3o nominal do PIB. Os estados e o Distrito Federal gastariam, no m\u00ednimo, 12% e os munic\u00edpios, 15%.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, os gastos federais em sa\u00fade est\u00e3o em queda. Em 1991, a Uni\u00e3o contribu\u00eda com 73% do financiamento do SUS. Em 2019, entrou com 43%, segundo a Abres (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Economia da Sa\u00fade). Neste ano, o or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade encolheu 20%, passando dos R$ 200,6 bilh\u00f5es em 2021 para R$ 160,4 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Para Ligia Bahia, da UFRJ, o setor econ\u00f4mico se divorciou definitivamente das pol\u00edticas sociais e, neste ano de elei\u00e7\u00f5es presidenciais, s\u00e3o necess\u00e1rias\u00a0propostas concretas dos candidatos para o aumento dos gastos p\u00fablicos em sa\u00fade. &#8220;Mas os recursos p\u00fablicos precisam ser alocados na sa\u00fade p\u00fablica.&#8221;<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o do m\u00e9dico sanitarista Vecina Neto, da USP, o problema de financiamento n\u00e3o se resolver\u00e1 nos pr\u00f3ximos quatro anos, independentemente do resultado das elei\u00e7\u00f5es de outubro, mas \u00e9 poss\u00edvel otimizar os atuais recursos redesenhando o modelo de gest\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div class=\"js-gallery-widget rs_skip\"><\/div>\n<\/div>\n<p>&#8220;Grande parte dos atendimentos fica a cargo de prefeituras que n\u00e3o t\u00eam capacidade administrativa para entregar todos os servi\u00e7os de sa\u00fade, e \u00e0s vezes, nem a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria&#8221;, diz o\u00a0cientista pol\u00edtico Miguel Lago, diretor do Ieps (Instituto de Estudos de Pol\u00edticas de Sa\u00fade).<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o de outros pa\u00edses, como a Espanha, que no passado descentralizaram os servi\u00e7os de sa\u00fade em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades aut\u00f4nomas (com autonomia legislativa e compet\u00eancia jur\u00eddicas pr\u00f3prias), o Brasil optou por um processo de descentraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa voltado aos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Se, por um lado, isso possibilitou um SUS com capilaridade no pa\u00eds todo, por outro, dificultou o trabalho em rede. &#8220;A gente v\u00ea uma quantidade de prefeitos que s\u00e3o rivais entre si e que n\u00e3o t\u00eam motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para cooperarem&#8221;, observa o historiador da sa\u00fade Carlos Henrique Paiva, pesquisador do Observat\u00f3rio Hist\u00f3ria e Sa\u00fade da Casa Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p>Al\u00e9m do preju\u00edzo \u00e0 assist\u00eancia e de drenar os parcos recursos da sa\u00fade, a troca de gestores a cada elei\u00e7\u00e3o municipal leva \u00e0 descontinuidade nas a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o e de controle de\u00a0epidemias como de dengue, zika e\u00a0chikungunya, afirma o historiador Luiz Antonio Teixeira, tamb\u00e9m pesquisador da Fiocruz.<\/p>\n<p>No campo da assist\u00eancia, alguns estados t\u00eam investido em cons\u00f3rcios regionais de sa\u00fade para melhorar a oferta de consultas m\u00e9dicas especializadas em \u00e1reas como cardiologia, endocrinologia, urologia, ortopedia e neurologia, um dos grandes gargalos do SUS.<\/p>\n<p>A Bahia, por exemplo, criou 22 policl\u00ednicas, que atendem hoje 402 munic\u00edpios \u201496% das cidades baianas. Os pacientes s\u00e3o deslocados de uma cidade a outra em micro\u00f4nibus e vans. O estado participa com 40% do custeio, e outros 60% s\u00e3o financiados pelos munic\u00edpios consorciados.<\/p>\n<p>Vecina Neto \u00e9 um dos defensores da cria\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es de sa\u00fade com base populacional como forma de melhorar a gest\u00e3o dos recursos do SUS e da assist\u00eancia. &#8220;Os recursos v\u00e3o para um conjunto de munic\u00edpios e estados para fazer a gest\u00e3o conjunta e decidir onde investir&#8221;, diz. Para ele, parcerias p\u00fablico-privadas podem ajudar nesse processo.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos de mais efici\u00eancia na capacidade de comprar, contratar e de criar escala. N\u00e3o interessa quem faz, interessa o que faz e para quem faz. O estado tem fazer a fiscaliza\u00e7\u00e3o. Sem fiscaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural que existam desvios.&#8221;<\/p>\n<p>A expans\u00e3o e a melhoria da qualidade da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade \u2014tendo como pilar a\u00a0Estrat\u00e9gia Sa\u00fade da Fam\u00edlia, conectada aos demais n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o, como ambulat\u00f3rios de especialidades e hospitais\u2014 tamb\u00e9m s\u00e3o citadas como caminhos que o SUS deveria perseguir.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 problemas ainda mais b\u00e1sicos a serem atacados, como as doen\u00e7as ligadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. &#8220;As interven\u00e7\u00f5es na tuberculose, s\u00edfilis e c\u00e2ncer de colo de \u00fatero continuam t\u00e3o fr\u00e1geis quanto no passado&#8221;, afirma o pesquisador Luiz Teixeira, da Fiocruz.<\/p>\n<p>&#8220;Se n\u00e3o melhorar a nutri\u00e7\u00e3o e a moradia, n\u00e3o vai se reverter a tuberculose. Se n\u00e3o diminuir o machismo na sociedade, n\u00e3o tem como reduzir a s\u00edfilis cong\u00eanita que est\u00e1 relacionada, principalmente, ao fato de os maridos [portadores da doen\u00e7a] n\u00e3o quererem transar com camisinha. Mulheres com menos estudo s\u00e3o as\u00a0mais afetadas pelo c\u00e2ncer de colo de \u00fatero\u00a0porque n\u00e3o fazem o Papanicolaou.&#8221;<\/p>\n<p>Sem resolver a falta de saneamento b\u00e1sico, o pa\u00eds continuar\u00e1 refor\u00e7ando as desigualdades na sa\u00fade, de acordo com o historiador Andr\u00e9 Mota, diretor do Museu Hist\u00f3rico da Faculdade de Medicina da USP. Hoje, quase metade dos brasileiros vive sem acesso \u00e0 rede de esgoto, e 16% n\u00e3o s\u00e3o atendidos pela rede de \u00e1gua. Um\u00a0novo marco legal do setor estabeleceu que, at\u00e9 2033, 99% da popula\u00e7\u00e3o tenha \u00e1gua pot\u00e1vel e 90% desfrute de coleta e tratamento de esgoto.<\/p>\n<p>Mota lembra que, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, j\u00e1 se sabe que as condi\u00e7\u00f5es de vida est\u00e3o intrinsecamente ligadas \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, mas o pa\u00eds ainda patina nessa quest\u00e3o. &#8220;Quantas pessoas morreram de Covid por n\u00e3o terem \u00e1gua para lavar as m\u00e3os? A assepsia era uma quest\u00e3o nossa no s\u00e9culo 19 e continua at\u00e9 hoje.&#8221;<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es, segundo ele, \u00e9 o fato de o Brasil produzir tecnologias de ponta em sa\u00fade, mas elas n\u00e3o chegarem \u00e0s popula\u00e7\u00f5es de baixa renda. &#8220;Por que, na Cidade Tiradentes [zona leste de S\u00e3o Paulo], as pessoas morrem, em m\u00e9dia, aos 58 anos e no Alto de Pinheiros [zona oeste], aos 80? Porque esse raio tecnol\u00f3gico n\u00e3o desce, n\u00e3o perpassa a vida do indiv\u00edduo como um direito.&#8221;<\/p>\n<h3 id=\"sus-e-herdeiro-de-experiencias-da-era-vargas\" class=\"c-news__subtitle\">SUS \u00c9 HERDEIRO DE EXPERI\u00caNCIAS DA ERA VARGAS<\/h3>\n<p>O SUS \u00e9 herdeiro de v\u00e1rias experi\u00eancias anteriores, principalmente as que ocorreram na Era Vargas, entre 1930 e 1945. Com a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e da Sa\u00fade P\u00fablica, em 1930, iniciou-se um per\u00edodo de transforma\u00e7\u00f5es, especialmente na gest\u00e3o de\u00a0Gustavo Capanema\u00a0(1934-1945). A estrutura de sa\u00fade passou a estar em todo o pa\u00eds, e uma rede de servi\u00e7os come\u00e7ou a ser montada.<\/p>\n<p>&#8220;A ideia central da reforma Capanema era a de que a sa\u00fade deveria ser organizada com base no territ\u00f3rio. Ou seja, a maneira como respondemos aos problemas de sa\u00fade tem que estar relacionada a quest\u00f5es demogr\u00e1ficas e epidemiol\u00f3gicas locais. Parece \u00f3bvio hoje, mas foi fruto de aprendizado e um investimento imenso em a\u00e7\u00f5es nos anos 1930&#8221;, afirma o pesquisador Carlos Paiva, da Fiocruz.<\/p>\n<p>Segundo ele, pela primeira vez a pol\u00edtica de sa\u00fade passou a ser pensada em \u00e2mbito nacional, o que estava alinhado com o ideal de na\u00e7\u00e3o de Get\u00falio Vargas. Na pr\u00e1tica, o territ\u00f3rio brasileiro foi dividido em grandes regi\u00f5es e, em cada uma delas, havia uma autoridade de sa\u00fade (delegacias federais de sa\u00fade).<\/p>\n<p>Dentro dessas regi\u00f5es, existiam microrregi\u00f5es, os distritos sanit\u00e1rios, com centros de sa\u00fade. &#8220;Digamos que ali estava um certo esbo\u00e7o da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria que a gente tem hoje&#8221;, diz ele, coautor da obra &#8220;Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria: uma Hist\u00f3ria Brasileira Recente&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 exista a compreens\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade precisavam se articular e estar integradas, de que os problemas de sa\u00fade das pessoas s\u00e3o complexos e de que o percurso do usu\u00e1rio no sistema necessitava uma certa racionalidade. &#8220;A ideia era n\u00e3o deixar que as pessoas ficassem zanzando, procurando um local de atendimento. Era um problema dos anos 1930 e ainda hoje n\u00e3o foi todo resolvido&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m remonta ao governo Vargas a ideia de que as a\u00e7\u00f5es preventivas e curativas de sa\u00fade devessem estar integradas institucionalmente. Durante a ditadura militar (1964-1985), contudo, houve uma separa\u00e7\u00e3o dessas a\u00e7\u00f5es. A partir de 1975, a medicina curativa ficou a cargo do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia, e as a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica permaneceram no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;Isso fortalece uma dualidade institucional na sa\u00fade brasileira. O Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia fica com muito mais recursos, e m\u00edngua o or\u00e7amento para as a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Luiz Teixeira, da Fiocruz.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas de sa\u00fade dos tempos imperiais at\u00e9 o final da Primeira Rep\u00fablica (1930) priorizaram basicamente\u00a0debelar as epidemias, como o c\u00f3lera, a febre amarela e a peste bub\u00f4nica. As quest\u00f5es sanit\u00e1rias, agravadas com a urbaniza\u00e7\u00e3o das capitais e as condi\u00e7\u00f5es de vida prec\u00e1rias, geravam surtos de infec\u00e7\u00f5es gastrointestinais e doen\u00e7as transmiss\u00edveis como a s\u00edfilis e a tuberculose.<\/p>\n<p>&#8220;A sa\u00fade era importante \u00e0 medida que n\u00e3o atrapalhasse a economia. S\u00f3 tinha or\u00e7amento se tivesse epidemia. As a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o tinham continuidade para evitar novos problemas&#8221;, diz Teixeira.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, S\u00e3o Paulo constru\u00eda um projeto de sa\u00fade \u00e0 parte do resto do Brasil. Antes mesmo da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, oligarquias cafeeiras come\u00e7aram a investir em a\u00e7\u00f5es para evitar que as epidemias afetassem a economia. Em 1891, por determina\u00e7\u00e3o constitucional, estados e munic\u00edpios passaram a ser respons\u00e1veis pelos cuidados da sa\u00fade de suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o Paulo acaba fazendo um c\u00f3digo sanit\u00e1rio independente do Brasil. A funda\u00e7\u00e3o Instituto Butantan [em 1901] e a produ\u00e7\u00e3o de soro antiof\u00eddico v\u00eam a socorrer uma demanda gerada pela chegada dos imigrantes nas fazendas de caf\u00e9 no interior, pelas picadas de cobras, aranhas, escorpi\u00f5es&#8221;, afirma o historiador Andr\u00e9 Mota, da USP.<\/p>\n<p>O Brasil entrou nos anos 1900 com as epidemias causando muitas mortes, especialmente de imigrantes. A cidade do Rio de Janeiro era conhecida na \u00e9poca como o t\u00famulo dos estrangeiros.<\/p>\n<p>Iniciou-se, no per\u00edodo, um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o com uma meta ambiciosa de reverter a imagem da capital do pa\u00eds e transform\u00e1-la na &#8220;Paris dos tr\u00f3picos&#8221;. Sob comando do engenheiro Francisco Pereira Passos, ent\u00e3o prefeito do Rio, ruas foram alargadas e corti\u00e7os, demolidos. Os mais pobres acabaram expulsos para os extremos, formando as favelas.<\/p>\n<p>O saneamento da cidade ficou a cargo do m\u00e9dico Oswaldo Cruz, que dirigia o Instituto Soroter\u00e1pico Federal (hoje Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz). Em 1903, ele assumiu tamb\u00e9m a diretoria-geral de Sa\u00fade P\u00fablica com a meta de enfrentar as doen\u00e7as epid\u00eamicas, especialmente a febre amarela, a peste bub\u00f4nica e a var\u00edola.<\/p>\n<p>As campanhas sanit\u00e1rias ganharam um car\u00e1ter militar, e, em 1904, foi aprovada a Lei da Vacina\u00e7\u00e3o Obrigat\u00f3ria, desencadeando\u00a0uma grande manifesta\u00e7\u00e3o popular que ficou conhecida como a Revolta da Vacina.<\/p>\n<p>Para muitos, a obrigatoriedade da vacina\u00e7\u00e3o contra a var\u00edola infringia o direito \u00e0 privacidade e \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, discursos muito parecidos aos atuais negacionistas da vacina contra a Covid-19. No fim, depois de muita briga, Oswaldo Cruz recebeu v\u00e1rias homenagens no exterior e se tornou her\u00f3i nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP O Brasil chega a seus\u00a0200 anos como na\u00e7\u00e3o independente\u00a0ainda lidando com doen\u00e7as que remontam ao per\u00edodo colonial, muitas delas decorrentes de problemas sanit\u00e1rios e de qualidade de vida hist\u00f3ricos, como falta de acesso \u00e0 rede de esgoto e \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. 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