{"id":1721,"date":"2016-01-26T23:52:48","date_gmt":"2016-01-26T23:52:48","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=1721"},"modified":"2016-02-15T13:59:51","modified_gmt":"2016-02-15T13:59:51","slug":"radiografia-de-um-hospital-em-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2016\/01\/26\/radiografia-de-um-hospital-em-crise\/","title":{"rendered":"Radiografia de um hospital em crise"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1722\" src=\"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/uerj_hupe_atendimento-300x226.jpg\" alt=\"uerj_hupe_atendimento\" width=\"300\" height=\"226\" \/>fonte: El Pa\u00eds<\/p>\n<p><em>Uma volta pelo Hospital Pedro Ernesto mostra a pior face da crise na sa\u00fade do Rio<\/em><\/p>\n<p>No dia em que n\u00e3o consegue levar sua pr\u00f3pria agulha ao hospital,\u00a0Jorge Pereira, de 54 anos, sabe que lhe espera um procedimento longo e doloroso. Jorge convive h\u00e1 quatro anos com os rins e o f\u00edgado transplantados e hoje depende de um tratamento semanal para retirar l\u00edquidos do seu abd\u00f4men. \u201cOs hospitais deixaram de comprar agulhas t\u00e3o grandes porque s\u00e3o mais caras, mas as pequenas, depois de determinada quantidade de l\u00edquido, se dobram e tem que trocar. Assim acabo furado at\u00e9 cinco vezes\u201d, lamenta na recep\u00e7\u00e3o do Hospital Universit\u00e1rio Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A crise nos hospitais do Rio chegou a um limite em que os pacientes levam as fraldas e as agulhas de casa. O Pedro Ernesto, refer\u00eancia em radioterapia e quimioterapia, maternidade de alto risco, cirurgia card\u00edaca, hemodi\u00e1lises e transplantes, funciona hoje na precariedade. O principal problema \u00e9 que os servi\u00e7os de limpeza, lavanderia, manuten\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e cozinha deixaram de funcionar regularmente porque os funcion\u00e1rios terceirizados, que ganham pouco mais que um sal\u00e1rio m\u00ednimo, n\u00e3o recebem h\u00e1 dois meses. Assim, as l\u00e2mpadas que quebram n\u00e3o s\u00e3o trocadas, os aparelhos m\u00e9dicos n\u00e3o s\u00e3o consertados, as pias ficam entupidas, os banheiros, sujos e as lixeiras, cheias.<\/p>\n<p>\u00c0 falta de pagamento do Estado, que <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/12\/24\/politica\/1450956742_848507.html\">reconhece dever 1,4 bilh\u00e3o ao sistema de sa\u00fade<\/a> e arrasta uma media de atraso nos pagamentos \u00e0s empresas de at\u00e9 quatro meses, somam-se os atrasos da Prefeitura, denuncia a diretoria do hospital. Ela \u00e9 respons\u00e1vel por depositar cerca de 20% do or\u00e7amento do centro, repassado a ela pelo SUS, e que corresponde aos procedimentos realizados pelo centro. \u201cA justificativa \u00e9 que os recursos est\u00e3o sendo destinados \u00e0s emerg\u00eancias dos hospitais municipais [sobrecarregadas com as dificuldades dos centros estaduais]\u201d, afirma o diretor Edmar Santos, rec\u00e9m empossado. A Prefeitura, que n\u00e3o informa das datas espec\u00edficas de quando os repasses devem ser feitos, afirma que os pagamentos est\u00e3o &#8220;dentro do cronograma&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 com esse dinheiro, cerca 3,5 milh\u00f5es de reais mensais, que se compram os insumos, hoje em falta na enfermaria de doen\u00e7as infecciosas, onde n\u00e3o h\u00e1 fraldas, \u00e0 de pediatria, onde n\u00e3o h\u00e1 gazes esterilizadas para fazer curativos. Uma lista na central de distribui\u00e7\u00e3o de material do centro j\u00e1 avisa no balc\u00e3o: \u201cN\u00e3o h\u00e1: fraldas, torneirinhas [que permitem a infus\u00e3o intravenosa de v\u00e1rias solu\u00e7\u00f5es], Transofix [dispositivo para mistura de medicamentos em frascos], Jelco [cateteres], Nasodrem [para o tratamento da sinusites], l\u00e2minas de bisturi, coletor fechado [de urina]&#8230;\u201d \u201cSempre vivemos momentos c\u00edclicos em que falta alguma coisa, mas chegar a zerar as gazes \u00e9 chegarmos a uma situa\u00e7\u00e3o limite\u201d, explica uma das respons\u00e1veis pelo servi\u00e7o de enfermaria.<\/p>\n<p>Os tapumes para tampar algumas janelas, goteiras, sacos de lixo em algumas esquinas e falta de manuten\u00e7\u00e3o geral de paredes e do sistema el\u00e9trico e hidr\u00e1ulico revelam que a crise n\u00e3o \u00e9 de hoje. \u201cIsto j\u00e1 vem acontecendo h\u00e1 anos, mas a situa\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 cr\u00edtica\u201d, revela um veterano doutor. \u201cEsse hospital, por ser universit\u00e1rio, tem que ter um tratamento diferente dentro do poder p\u00fablico, e ele, apesar de ser refer\u00eancia da rede, est\u00e1 sendo tratado como mais um centro\u201d, reclama seu diretor.<\/p>\n<p>Nos corredores, a calma se estende enquanto o hospital se esvazia. O centro, que conta com cerca de 480 m\u00e9dicos, 380 enfermeiros e mais de 1.100 t\u00e9cnicos de enfermagem, resolveu suspender no s\u00e1bado novas interna\u00e7\u00f5es. As cerca de 25 cirurgias realizadas por dia tamb\u00e9m foram canceladas na sexta-feira, porque o teto desabou devido \u00e0 infiltra\u00e7\u00e3o da chuva. Nenhum aparelho foi danificado, mas, sem faxineiras, a limpeza das salas estava sendo feita s\u00f3 nesta quinta-feira, quase uma semana depois. Os professores e doutores chegaram a discutir a possibilidade de eles limparem para retomar os procedimentos, mas finalmente a empresa respons\u00e1vel pelo servi\u00e7o enviou funcion\u00e1rios de fora do hospital. \u201cEst\u00e1 todo contaminado, vamos demorar muito mais em acondicionar todo de novo\u201d, lamentavam os t\u00e9cnicos de enfermagem na correria do mutir\u00e3o de limpeza. N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o para voltar \u00e0 normalidade e a sala de cirurgias, se for poss\u00edvel funcionar na semana que vem, ser\u00e1 apenas para procedimentos de urg\u00eancia.<\/p>\n<p>Sem receber, a auxiliar de servi\u00e7os gerais Ana Lucia Alla dos Santos resolveu formar parte da escala de servi\u00e7os m\u00ednimos que atende o hospital, enquanto muitos dos seus colegas, como j\u00e1 fizeram no m\u00eas de setembro tamb\u00e9m por falta de pagamento, est\u00e3o na entrada de bra\u00e7os cruzados ou com um microfone na m\u00e3o reclamando seus direitos. Ela faz o b\u00e1sico, recolhe o lixo, passa um paninho, mas n\u00e3o limpa as paredes do banheiro nem lava o ch\u00e3o. Tem 59 anos e recebe 980 reais por m\u00eas. &#8220;Estou devendo o aluguel, a luz e j\u00e1 cortaram meu celular\u201d, lamenta Ana Lucia, que diz n\u00e3o ter recebido o sal\u00e1rio de dezembro, nem metade do d\u00e9cimo terceiro. \u201cEu tive essa considera\u00e7\u00e3o com os pacientes, mas isto n\u00e3o pode continuara assim&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: El Pa\u00eds Uma volta pelo Hospital Pedro Ernesto mostra a pior face da crise na sa\u00fade do Rio No dia em que n\u00e3o consegue levar sua pr\u00f3pria agulha ao hospital,\u00a0Jorge Pereira, de 54 anos, sabe que lhe espera um procedimento longo e doloroso. 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