{"id":17553,"date":"2025-03-10T06:38:59","date_gmt":"2025-03-10T09:38:59","guid":{"rendered":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=17553"},"modified":"2025-03-18T16:24:44","modified_gmt":"2025-03-18T19:24:44","slug":"o-curriculo-oculto-da-faculdade-de-medicina-coisas-que-ninguem-te-ensina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2025\/03\/10\/o-curriculo-oculto-da-faculdade-de-medicina-coisas-que-ninguem-te-ensina\/","title":{"rendered":"O \u2018curr\u00edculo oculto\u2019 da faculdade de medicina: coisas que ningu\u00e9m te ensina"},"content":{"rendered":"<p>fonte: <a href=\"https:\/\/portugues.medscape.com\/verartigo\/6512406\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medscape<\/a><\/p>\n<p>Jason Krastein se lembra de quando era jovem e via seu pai, um nefrologista, voltando do hospital para organizar as evolu\u00e7\u00f5es dos pacientes e preparar os prontu\u00e1rios para o dia seguinte antes de passar um tempo com a fam\u00edlia. Como estudante de medicina do quarto ano, Jason est\u00e1 repetindo esse mesmo padr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPreparar os prontu\u00e1rios em casa \u00e9 uma dessas coisas que ningu\u00e9m te ensina na faculdade de medicina\u201d, disse Jason, que est\u00e1 concluindo seus estudos na&nbsp;<em>George Washington School of Medicine<\/em>, nos EUA. \u201cVoc\u00ea pensa que as atividades terminam ao sair do hospital, mas essa n\u00e3o \u00e9 a realidade. Voc\u00ea precisa finalizar as evolu\u00e7\u00f5es, acompanhar os exames laboratoriais e pensar sobre os casos dos pacientes para o dia seguinte. Mesmo quando estou sentado no meu sof\u00e1, pego meu&nbsp;<em>notebook<\/em>&nbsp;e vou digitar alguma coisa. \u00c9 uma tarefa constante.\u201d<\/p>\n<p><b>Pesquisas do&nbsp;<em>Medscazpe<\/em><\/b><\/p>\n<p>O Medscape realiza&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.medscape.com\/index\/list_12363_0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisas<\/a>&nbsp;cont\u00ednuas com m\u00e9dicos e outros profissionais da sa\u00fade sobre os principais desafios da pr\u00e1tica cl\u00ednica e quest\u00f5es atuais, produzindo an\u00e1lises de alto impacto. Por exemplo, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.medscape.com\/slideshow\/2024-medical-student-report-6017682#1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Medical School Experience Report 2024<\/em>&nbsp;<\/a>publicado pelo&nbsp;<em>Medscape<\/em>&nbsp;mostrou que:<\/p>\n<ul>\n<li>53% dos estudantes de medicina entrevistados recomendariam sua faculdade;<\/li>\n<li>28% dos entrevistados estavam muito satisfeitos com sua experi\u00eancia na faculdade de medicina;<\/li>\n<li>8% estavam um pouco insatisfeitos com seus professores;<\/li>\n<li>56% dos estudantes de medicina estavam preparados em alguma medida para a resid\u00eancia;<\/li>\n<li>30% estavam muito confiantes de que seriam aprovados no processo seletivo para a resid\u00eancia.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para Jason e outros estudantes de medicina, existe um \u201ccurr\u00edculo oculto\u201d na faculdade de medicina, composto por li\u00e7\u00f5es informais n\u00e3o escritas e por valores aprendidos fora de ambientes acad\u00eamicos formais que moldam a cultura da medicina, influenciam o comportamento e determinam a abordagem no atendimento ao paciente e os relacionamentos profissionais.<\/p>\n<p>Esse curr\u00edculo oculto traz ensinamentos sobre resili\u00eancia, intelig\u00eancia emocional e uma compreens\u00e3o mais profunda do lado humano da medicina. As li\u00e7\u00f5es podem ocorrer em momentos informais, nas conversas durante corridas de leito ou com pacientes, ao observar professores lidando com casos dif\u00edceis ou ao ver como os colegas e mentores lidam com os desafios.<\/p>\n<p>Alguns estudantes de medicina do quarto ano nos EUA compartilharam exemplos pessoais relacionados ao curr\u00edculo oculto que as escolas de medicina n\u00e3o ensinam.<\/p>\n<p><b>Hierarquia na assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade<\/b><\/p>\n<p>\u201cCada hospital e cada especialidade tem um sistema \u00fanico de intera\u00e7\u00e3o entre estudantes, residentes e m\u00e9dicos assistentes\u201d, disse Jake Graff, que est\u00e1 terminando seus estudos no&nbsp;<em>Noorda College of Osteopathic Medicine<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei se me ensinaram alguma coisa sobre isso formal ou informalmente, mas durante os est\u00e1gios, eu observava como os outros estudantes e residentes interagiam e reproduzia o mesmo comportamento.\u201d<\/p>\n<p><b>Diretrizes impl\u00edcitas<\/b><\/p>\n<p>Os estudantes nem sempre t\u00eam acesso aos protocolos e prefer\u00eancias de cada hospital e programa de resid\u00eancia, disse Jake, que tamb\u00e9m \u00e9 presidente do conselho de estudantes de medicina da&nbsp;<em>American Academy of Emergency Medicine<\/em>. \u201cNo meu caso, a maior parte das descobertas sobre regras impl\u00edcitas tem sido por tentativa e erro.\u201d<\/p>\n<p>Por exemplo, o estudante passou por um est\u00e1gio em um hospital que usava um certo tipo de sutura para reparos em lacera\u00e7\u00f5es. \u201cA sutura era exatamente o contr\u00e1rio do que haviam me ensinado em um cen\u00e1rio de est\u00e1gio anterior e em orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias dadas por m\u00e9dicos assistentes.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s concluir o primeiro reparo, o estudante percebeu que o residente e o m\u00e9dico assistente queriam uma sutura diferente. Nesse caso, a decis\u00e3o de Jake n\u00e3o influenciou a recupera\u00e7\u00e3o do paciente. \u201cEntretanto, pude perceber que havia cometido um erro e acabei mudando a maneira como realizava as suturas nesse est\u00e1gio para seguir a cultura [local].\u201d<\/p>\n<p><b>Nuances na comunica\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Durante o est\u00e1gio de ginecologia e obstetr\u00edcia, a estudante Kate Spencer percebeu que nem todos os beb\u00eas tinham pais animados e participativos. \u201cMuitos tinham pais com quartos decorados esperando por eles em casa.\u201d Por outro lado, outros eram filhos de pais adolescentes ou de pessoas com dificuldades financeiras, disse Kate, que est\u00e1 no \u00faltimo ano de faculdade na&nbsp;<em>Drexel University College of Medicine<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cOs sinais sutis que eu percebia durante as corridas de leito, coisas que eu notava durante o trabalho de parto e na sala de parto, tudo isso moldava a rea\u00e7\u00e3o [dos pais] ao parto\u201d e, consequentemente, como Kate definia sua atitude \u00e0 beira do leito.<\/p>\n<p><b>Jarg\u00f5es m\u00e9dicos<\/b><\/p>\n<p>Kate tamb\u00e9m disse ao&nbsp;<em>Medscape<\/em>&nbsp;que tenta ter empatia com seus pacientes e levar em conta o conhecimento limitado desses indiv\u00edduos sobre medicina.<\/p>\n<p>\u201cEstar internado \u00e9 uma experi\u00eancia muito opressiva, especialmente para pacientes que n\u00e3o t\u00eam conhecimento m\u00e9dico.\u201d A estudante percebe rapidamente quando os pacientes n\u00e3o conseguem entender o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>\u201cAlguns deles se sentem constrangidos e envergonhados\u201d, explicou Kate. Outros querem voltar a dormir ou acreditam que est\u00e3o sendo inconvenientes ao pedir mais explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ela disse que dedica um tempo para simplificar os termos m\u00e9dicos para seus pacientes e detalhar cuidadosamente o tratamento. \u201cSe eu achar que eles n\u00e3o entenderam muito bem, pe\u00e7o que repitam o que expliquei para ter certeza de que estamos em sintonia. Quando voc\u00ea coloca sua sa\u00fade nas m\u00e3os de outras pessoas, imagine como \u00e9 muito mais estressante quando voc\u00ea n\u00e3o tem certeza do que est\u00e1 acontecendo ou por que est\u00e1 acontecendo.\u201d<\/p>\n<p><b>Defendendo os pacientes<\/b><\/p>\n<div id=\"instream-recirc\">&nbsp;<\/div>\n<p>Ao ter contato com a assist\u00eancia cl\u00ednica, a estudante Roosha Mandal percebeu a natureza frequentemente impessoal da medicina. \u201cFicava irritada quando os pacientes eram designados apenas pelos seus quadros cl\u00ednicos ou doen\u00e7as por outros m\u00e9dicos, enquanto eu tive a oportunidade maravilhosa de conhec\u00ea-los como pessoas\u201d, disse Roosha, que est\u00e1 em seu \u00faltimo ano na&nbsp;<em>University of Illinois College of Medicine<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cComo uma estudante com tempo extra em compara\u00e7\u00e3o aos residentes e m\u00e9dicos assistentes, fiz quest\u00e3o de n\u00e3o apenas aprender sobre as doen\u00e7as dos meus pacientes, mas tamb\u00e9m [entender] o que \u00e9 importante para eles em suas vidas di\u00e1rias. Nas corridas de leito, \u00e0s vezes eu me sentia como se estivesse fornecendo uma informa\u00e7\u00e3o \u2018privilegiada\u2019 sobre a fam\u00edlia ou a situa\u00e7\u00e3o de vida de algu\u00e9m, quando na verdade essa informa\u00e7\u00e3o poderia ter sido facilmente obtida em uma conversa r\u00e1pida\u201d, disse ela.<\/p>\n<p>Roosha disse que trabalhar em um cen\u00e1rio de sa\u00fade urbano tamb\u00e9m permitiu que ela visse que pacientes com recursos limitados tinham dificuldade em continuar o tratamento ap\u00f3s deixar o hospital.<\/p>\n<p>\u201cUm dos pacientes que eu acompanhei estava lidando com um transtorno [por uso] de opioides em meio a uma perda de emprego e resid\u00eancia fixa. Embora nossas discuss\u00f5es sobre o tratamento m\u00e9dico dele frequentemente fossem voltadas \u00e0 depend\u00eancia, muitas vezes eu me perguntava qual seria o sentido de manter um acompanhamento ou solicitar exames se ele n\u00e3o tivesse um meio de transporte ou sistemas de apoio est\u00e1veis. Mesmo no meu curto per\u00edodo envolvida no seu tratamento, me concentrei em aspectos sociais que influenciariam o seu caso, como conect\u00e1-lo a servi\u00e7os m\u00f3veis de redu\u00e7\u00e3o de danos e moradia segura pr\u00f3ximos de onde ele morava.\u201d<\/p>\n<p><b>Quest\u00f5es \u00e9ticas nebulosas<\/b><\/p>\n<p>As discuss\u00f5es sobre os cuidados de fim de vida est\u00e3o entre as \u00e1reas \u00e9ticas nebulosas com as quais os estudantes t\u00eam de lidar fora do seu ambiente de treinamento formal. Jake ressaltou que pacientes com ordens de n\u00e3o ressuscita\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o intuba\u00e7\u00e3o ainda podem precisar de interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p>\u201cExplorar o que o paciente gostaria [que fosse feito] em conjunto com seus parentes pr\u00f3ximos pode representar uma conversa \u00edntima e desafiadora. Ter uma ordem de n\u00e3o ressuscitar n\u00e3o significa n\u00e3o tratar, mas \u00e9 essencial garantir que a equipe do pronto-socorro e a fam\u00edlia tenham o mesmo entendimento.\u201d<\/p>\n<p><b>Lidando com perdas<\/b><\/p>\n<p>Jason relembrou sua primeira conversa sobre cuidados de fim de vida com um paciente e sua fam\u00edlia. \u201cAp\u00f3s muita discuss\u00e3o, eles decidiram interromper o tratamento e focar no conforto. Ele queria passar os \u00faltimos dias [de vida] em casa, e n\u00e3o em um leito de hospital rodeado por monitores apitando.\u201d<\/p>\n<p>\u201cLembro-me de sair daquele quarto com uma mistura estranha de emo\u00e7\u00f5es: orgulho de poder ajudar a guiar uma conversa t\u00e3o importante, mas tamb\u00e9m uma tristeza profunda\u201d, disse Jason.<\/p>\n<p>\u201cFoi a decis\u00e3o certa para ele, e eu verdadeiramente acreditava nisso, mas saber que o paciente estava deixando o hospital para ir morrer em casa n\u00e3o era algo que eu pudesse simplesmente ignorar. Naquela noite, senti o peso daquele caso e pensei no homem, na sua fam\u00edlia e na confian\u00e7a que depositaram em mim e na minha equipe durante um momento t\u00e3o vulner\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Jason apontou que a faculdade de medicina ensina os estudantes a cuidar, diagnosticar e tratar os pacientes, mas n\u00e3o a como lidar com os sentimentos que surgem quando eles morrem.<\/p>\n<p><b>Resili\u00eancia emocional<\/b><\/p>\n<p>\u201cComo a maioria dos estudantes, tive dias com casos desafiadores, pacientes dif\u00edceis e uma fila de espera intermin\u00e1vel. Uma das melhores m\u00e9dicas com quem trabalhei sempre dizia \u2018vamos comer alguma coisa\u2019 no momento certo. Durante nossa caminhada at\u00e9 a cafeteria e o retorno, ela falava discretamente sobre seus desafios e como ela os superou. Ela focava em amar os pacientes, estar dispon\u00edvel, ser profissional e fazer o trabalho necess\u00e1rio. Como um jovem estudante de medicina, ouvir isso era inspirador, e nunca mais voltei ao hospital frustrado.<\/p>\n<p><b>Equil\u00edbrio entre trabalho e vida pessoal<\/b><\/p>\n<p>Jason descreveu como foi sair de um plant\u00e3o de ginecologia e obstetr\u00edcia de 24 horas, caminhando at\u00e9 o carro enquanto o sol nascia. \u201cA noite havia sido implac\u00e1vel: cesarianas de emerg\u00eancia, manejo de complica\u00e7\u00f5es e correria de um quarto para o outro. Quando o plant\u00e3o terminou, n\u00e3o conseguia me lembrar da \u00faltima vez que havia sentado ou comido\u201d, lembrou ele.<\/p>\n<p>\u201cAo voltar para casa, senti-me vazio e completamente exaurido. Eu havia dito para mim mesmo que iria descansar quando chegasse em casa, mas, em vez disso, ca\u00ed na cama, ainda com a roupa do hospital, e acordei horas depois desorientado e mais cansado do que antes. N\u00e3o era apenas o desgaste f\u00edsico, mas tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o crescente de dissocia\u00e7\u00e3o. Comecei a perceber que n\u00e3o estava sentindo a mesma alegria ou realiza\u00e7\u00e3o que costumava sentir, mesmo ap\u00f3s partos bem-sucedidos ou desfechos positivos. Essa foi a primeira vez que reconheci os sinais de esgotamento, quando a exaust\u00e3o come\u00e7ou a ofuscar todo o resto.\u201d<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica exigiu at\u00e9 mesmo que ele perdesse o casamento do melhor amigo. \u201cFui escalado para um plant\u00e3o de 24 horas na cirurgia do trauma. Tentei de tudo \u2014 trocar o plant\u00e3o, encontrar algu\u00e9m para me cobrir \u2014, mas n\u00e3o havia como contornar a situa\u00e7\u00e3o. Naquele dia, enquanto atendia um caso de emerg\u00eancia ap\u00f3s o outro na sala de cirurgia, eu continuava pensando na cerim\u00f4nia que estava perdendo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMais tarde naquela noite, em um raro momento no qual consegui me sentar, vi as postagens no&nbsp;<em>Instagram<\/em>&nbsp;das pessoas celebrando e senti a dor de perder esse marco. A medicina est\u00e1 cheia desses sacrif\u00edcios \u2013 anivers\u00e1rios, casamentos, feriados \u2013 at\u00e9 mesmo uma noite tranquila com a fam\u00edlia. A parte mais dif\u00edcil \u00e9 saber que a vida n\u00e3o pausa enquanto voc\u00ea est\u00e1 ligado \u00e0s suas responsabilidades e, \u00e0s vezes, voc\u00ea tem de aceitar que estar\u00e1 ausente nos momentos que mais importam.\u201d Isso \u00e9 algo que a faculdade de medicina n\u00e3o ensina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Medscape Jason Krastein se lembra de quando era jovem e via seu pai, um nefrologista, voltando do hospital para organizar as evolu\u00e7\u00f5es dos pacientes e preparar os prontu\u00e1rios para o dia seguinte antes de passar um tempo com a fam\u00edlia. 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