{"id":1772,"date":"2016-02-15T17:58:58","date_gmt":"2016-02-15T17:58:58","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=1772"},"modified":"2016-02-23T11:29:21","modified_gmt":"2016-02-23T11:29:21","slug":"a-rara-mutacao-do-cancer-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2016\/02\/15\/a-rara-mutacao-do-cancer-no-brasil\/","title":{"rendered":"A rara muta\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>fonte: El Pa\u00eds<\/p>\n<p>Pedro Gomes \u00e9 um homem baixo e de complei\u00e7\u00e3o robusta, com pouco mais de 60 anos, o rosto corado e os bra\u00e7os bronzeados t\u00edpicos de quem trabalha ao ar livre. Est\u00e1 preocupado com um caro\u00e7o no dedo, conta ele \u00e0 m\u00e9dica geneticista-oncologista Maria Isabel Achatz, que pega a sua m\u00e3o para examin\u00e1-la melhor. Achatz lhe fala com amabilidade e depois se inclina para frente, a fim de inspecionar outra pequena les\u00e3o atr\u00e1s da orelha. Gomes \u00e9 um dos pacientes habituais de Achatz no <a href=\"http:\/\/www.accamargo.org.br\/\">A. C. Camargo C\u00e2ncer Center<\/a>, em S\u00e3o Paulo. Ele \u00e9 extraordinariamente propenso ao <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cancer\/a\/\">c\u00e2ncer<\/a>, assim como <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/01\/05\/ciencia\/1452016944_817268.html\">muitos parentes seus<\/a>. O c\u00e2ncer \u00e9 t\u00e3o comum entre eles \u2013 e a morte prematura, t\u00e3o dolorosamente habitual \u2013 que, at\u00e9 a recente descoberta da causa, havia quem acreditasse que a fam\u00edlia estava amaldi\u00e7oada.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Gomes n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica a ser afetada. A <em>maldi\u00e7\u00e3o<\/em>aflige centenas de milhares de brasileiros. Um dos casos mais destacados foi o de Jos\u00e9 Alencar, o popular e carism\u00e1tico vice-presidente do pa\u00eds durante o mandato de<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/luiz_inacio_da_silva\/a\/\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a>. Alencar morreu em 2011, e o c\u00e2ncer foi diagnosticado pela primeira vez em 1997. Com os anos, \u00e0 medida que os tumores se estendiam incans\u00e1veis por todo o seu corpo, ele se submeteu a opera\u00e7\u00f5es cada vez mais frequentes no Brasil e nos Estados Unidos. Perdeu um rim, a maior parte do est\u00f4mago e grandes por\u00e7\u00f5es do intestino. O vice-presidente falou com sinceridade sobre sua doen\u00e7a e usou a sua experi\u00eancia pessoal para defender medidas de detec\u00e7\u00e3o precoce do c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>O que Gomes, Alencar e outros brasileiros t\u00eam em comum \u00e9 <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/07\/23\/ciencia\/1437651927_396823.html\">uma \u00fanica altera\u00e7\u00e3o em seu DNA<\/a>: uma muta\u00e7\u00e3o no gene p53 que debilita sua capacidade para resistir ao c\u00e2ncer. O p53 acabou por ser o gene mais importante no c\u00e2ncer, e \u00e9 um dos campos de estudo mais populares na hist\u00f3ria da biologia molecular. Foi descoberto em 1979 por David Lane, que trabalhava no Fundo Imperial de Pesquisa do C\u00e2ncer, em Londres, e por acaso, ao mesmo tempo, por outros tr\u00eas grupos que atuavam de forma independente nos Estados Unidos e na Fran\u00e7a, sob o comando de Arnold Levine, Lloyd Old e Pierre May, respectivamente.<\/p>\n<p>O p53 \u00e9 um supressor de tumores. Sua miss\u00e3o \u00e9 nos proteger do c\u00e2ncer, assegurando-se de que as nossas c\u00e9lulas n\u00e3o cometam erros perigosos quando se dividem, como parte do crescimento e da manuten\u00e7\u00e3o normais do organismo. Se o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adn\/a\/\">DNA<\/a> \u2013 as instru\u00e7\u00f5es de funcionamento da c\u00e9lula \u2013 \u00e9 danificado ou n\u00e3o \u00e9 fielmente copiado a cada divis\u00e3o para gerar c\u00e9lulas filhas<em>,<\/em> o p53 interrompe o processo e envia uma <em>equipe de repara\u00e7\u00e3o<\/em> antes de permitir que a c\u00e9lula prossiga. Se o dano ao DNA for irrepar\u00e1vel, o p53 coloca a c\u00e9lula em um estado de \u201csenilidade replicativa\u201d, impedindo que volte a se dividir; ou mesmo d\u00e1 instru\u00e7\u00f5es para que se suicide, impedindo que se descontrole.<\/p>\n<p>Se considerarmos que ao longo de uma vida m\u00e9dia uma pessoa experimenta uns<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/03\/03\/sociedad\/1393875100_608698.html\">10 trilh\u00f5es de divis\u00f5es celulares<\/a>, e que uma s\u00f3 c\u00e9lula desgarrada pode dar in\u00edcio a um tumor, a import\u00e2ncia deste gene fica bastante clara. Pela fun\u00e7\u00e3o vital que desempenha no controle de qualidade, David Lane apelidou o p53 de \u201cguardi\u00e3o do genoma\u201d. Em quase todos os casos de c\u00e2ncer em humanos, o gene foi inutilizado por uma muta\u00e7\u00e3o ou algum outro mecanismo defeituoso. Muito frequentemente, essa altera\u00e7\u00e3o do p53 se produz de forma espont\u00e2nea em c\u00e9lulas ou tecidos que sofreram algum dano ao longo da vida, e isso pode coloc\u00e1-los no caminho de um c\u00e2ncer, um risco que aumenta \u00e0 medida que a pessoa vive mais. Mas alguns nascem com um p53 corrompido em todas as c\u00e9lulas do corpo e s\u00e3o extremamente vulner\u00e1veis ao c\u00e2ncer desde os seus primeiros dias.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome de Li-Fraumeni, como se chama esse transtorno (descrito pela primeira vez por Frederick Li e Joseph Fraumeni em 1969), tem v\u00e1rias caracter\u00edsticas not\u00e1veis. Os portadores ficam especialmente propensos a sofrerem de sarcomas dos tecidos moles e \u00f3sseos, c\u00e2ncer de c\u00e9rebro e mama, leucemias e carcinomas das gl\u00e2ndulas suprarrenais. Geralmente, desenvolvem o c\u00e2ncer numa idade excepcionalmente precoce, e a s\u00edndrome era considerada rar\u00edssima at\u00e9 o come\u00e7o da d\u00e9cada de 2000, quando Maria Isabel Achatz come\u00e7ou a receber pacientes em seu consult\u00f3rio de gen\u00e9tica oncol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Quando jovem, Achatz deixou o Rio, sua cidade natal, para estudar artes em Paris. Mas uma viagem de f\u00e9rias \u00e0 <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/india\/a\/\">\u00cdndia<\/a> com seus colegas de curso mudaria a sua vida. Ao visitar uma col\u00f4nia de hansenianos num long\u00ednquo ponto do deserto, perto da fronteira da Caxemira, conheceu a mission\u00e1ria que a dirigia, chamada<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/teresa_de_calcuta\/a\/\">madre Teresa<\/a>. \u201cFoi um encontro assombroso, e achei que precisava voltar para fazer alguma coisa [que valesse mais a pena]\u201d, relembra Achatz. De volta ao Brasil, ela estudou medicina e se especializou em gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Entre os primeiros pacientes atendidos em consulta, alguns j\u00e1 haviam enfrentado v\u00e1rios focos de c\u00e2ncer, muitas vezes desde a inf\u00e2ncia, e seus tumores eram t\u00edpicos dos c\u00e2nceres observados mais frequentemente em pessoas com a s\u00edndrome de Li-Fraumeni. Al\u00e9m disso, ao desenvolver \u00e1rvores geneal\u00f3gicas detalhadas de seus pacientes \u2014pr\u00e1tica comum no aconselhamento gen\u00e9tico de certas doen\u00e7as\u2014, descobria rastros de c\u00e2ncer entre os parentes que, muitas vezes, remontavam a v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Tinham todas as caracter\u00edsticas da s\u00edndrome Li-Fraumeni, mas Achatz estava confusa: &#8220;Realmente me chamou a aten\u00e7\u00e3o, porque a s\u00edndrome era considerada muito rara em todo o mundo. Naquela \u00e9poca, havia apenas 280 fam\u00edlias descritas na literatura m\u00e9dica, e eu tinha 30. Ent\u00e3o pensei que, ou estava exagerando no diagn\u00f3stico, ou havia algo raro ocorrendo aqui&#8221;.<\/p>\n<p>Os colegas brasileiros estavam t\u00e3o intrigados com os resultados quanto ela, e por isso a incentivaram a levar o caso ao congresso de oncologia organizado na Fran\u00e7a, em 2002. L\u00e1, Achatz chamou a aten\u00e7\u00e3o de Pierre Hainaut, um belga de estatura alta e de \u00f3culos que trabalhava na Ag\u00eancia Internacional de Pesquisa em C\u00e2ncer, ligada \u00e0 <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/oms_organizacion_mundial_salud\/a\/\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade<\/a> (OMS), com sede em Lyon. Hainaut tinha uma base de dados de diferentes muta\u00e7\u00f5es do p53 registradas na literatura m\u00e9dica, e os tipos de c\u00e2ncer associados \u00e0 muta\u00e7\u00e3o. Tendo conhecimento da extrema raridade da s\u00edndrome de Li-Fraumeni, devido aos seus registros, as anota\u00e7\u00f5es de Achatz o fascinaram. Convenceu a jovem m\u00e9dica a voltar \u00e0 Fran\u00e7a, com amostras de sangue dos pacientes brasileiros, para trabalhar com ele com o objetivo de determinar exatamente o acontecia com os genes p53 nesses casos.<\/p>\n<p>Os dois pesquisadores teriam algumas surpresas. Poucos pacientes tinham as muta\u00e7\u00f5es &#8220;cl\u00e1ssicas&#8221; do p53 associadas com a s\u00edndrome de Li-Fraumeni em outras partes do mundo; a primeira conclus\u00e3o de Achatz foi que a s\u00edndrome havia sido diagnosticada muito tarde. Mas uma inspe\u00e7\u00e3o mais minuciosa revelou que muitos de seus pacientes tinham uma muta\u00e7\u00e3o do p53 localizada fora dos pontos problem\u00e1ticos do gene, conhecidos por serem mais vulner\u00e1veis \u00e0 altera\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, todos os pacientes com essa muta\u00e7\u00e3o rara eram portadores de uma c\u00f3pia exata do gene.<\/p>\n<p>A cerca de 1.200 quil\u00f4metros ao sul de S\u00e3o Paulo, Patricia Prolla \u2014outra geneticista que trabalhava em Porto Alegre\u2014 tamb\u00e9m estava recebendo um n\u00famero incomum de pacientes com s\u00edndrome de Li-Fraumeni. E, quando tinham a mesma muta\u00e7\u00e3o p53 dos pacientes de Achatz, Prolla e Hainaut resolveram descobrir qual poderia ser a incid\u00eancia dessa muta\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o em geral. Analisaram o sangue de uma grande amostra de mulheres aparentemente saud\u00e1veis, que participaram de um programa de detec\u00e7\u00e3o precoce do c\u00e2ncer de mama na consulta de Porto Alegre, e descobriram que, surpreendentemente, quase uma em cada 300 era portadora do p53 defeituoso. Esse resultado alarmante foi confirmado por um programa de triagem realizado com quase 200.000 rec\u00e9m-nascidos no Paran\u00e1, onde os m\u00e9dicos haviam identificado taxas especialmente altas de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/11\/25\/ciencia\/1416944651_232182.html\">c\u00e2ncer suprarrenal em crian\u00e7as pequenas<\/a>. Mais uma vez, estavam relacionados com a mesma muta\u00e7\u00e3o do p53.<\/p>\n<p>&#8220;Isso significa que a popula\u00e7\u00e3o do Sul e Sudeste do Brasil tem um enorme n\u00famero de portadores da Li-Fraumeni, provavelmente mais de 300.000 pessoas&#8221;, diz Achatz. &#8220;Essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o conscientes disso, por isso muitos c\u00e2nceres est\u00e3o se desenvolvendo na popula\u00e7\u00e3o em geral devido a essa muta\u00e7\u00e3o, e os pacientes n\u00e3o sabem&#8221;. E isso n\u00e3o acontece apenas no Brasil. Muito recentemente, a muta\u00e7\u00e3o do p53 tamb\u00e9m foi encontrada no <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paraguay\/a\/\">Paraguai<\/a>, onde geneticistas analisaram aleatoriamente 10.000 amostras de sangue de rec\u00e9m-nascidos. Os resultados indicam que tamb\u00e9m poderia haver no pa\u00eds vizinho milhares de pessoas com a s\u00edndrome de Li-Fraumeni.<\/p>\n<p>Desconhecemos o nome desse portador original, o antepassado comum de todos os portadores atuais, e qual \u00e9 sua origem. Pode ter sido um imigrante europeu. O gene defeituoso, acredita-se, viajou pelas rotas abertas da costa ao interior pelos primeiros exploradores, colonos e militares. Uma ideia interessante \u00e9 que o fundador tenha sido um tropeiro, membro de um grupo de vendedores ambulantes que se moviam em lombo de mulas entre os assentamentos dispersos, transportando mercadorias, not\u00edcias e correspond\u00eancia nos s\u00e9culos XVII e XVIII. Como passava a maior parte do tempo fora de casa, \u00e9 prov\u00e1vel que um tropeiro possu\u00edsse diversas amantes ao longo do caminho, uma oportunidade ideal para transmitir seus genes. Uma das maiores fam\u00edlias portadoras de Li-Fraumeni entre os pacientes de Achatz sabe que alguns de seus antepassados eram tropeiros.<\/p>\n<p>Mas Hainaut pensa que um candidato mais prov\u00e1vel a \u201cpaciente zero\u201d seria um militar ou um bandeirante, um dos impiedosos aventureiros que se embrenharam no interior na captura de nativos para vend\u00ea-los como escravos e em busca de minerais preciosos. Quando o ouro foi descoberto no s\u00e9culo XVII, a obsess\u00e3o era exigir territ\u00f3rio em nome de Portugal antes que os espanh\u00f3is pudessem faz\u00ea-lo. Tanto os bandeirantes como os funcion\u00e1rios p\u00fablicos se dedicaram febrilmente a essa tarefa, estabelecendo rotas ao interior e criando assentamentos ao longo do caminho. Um mapa de distribui\u00e7\u00e3o da muta\u00e7\u00e3o original tem grandes semelhan\u00e7as com essas rotas.<\/p>\n<p>Se o fundador fosse portador de uma das muta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas do p53 que provocam a s\u00edndrome de Li-Fraumeni, \u00e9 improv\u00e1vel que seus genes tivessem se espalhado tanto. O risco de se desenvolver c\u00e2ncer nos portadores de tais muta\u00e7\u00f5es beira os 90%, e os nascidos com esses genes perniciosos t\u00eam poucas probabilidades de chegar a constituir fam\u00edlia. (Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual existiam t\u00e3o poucos casos registrados na bibliografia m\u00e9dica quando Achatz come\u00e7ou a observar a s\u00edndrome em suas consultas). O risco de se ter c\u00e2ncer ao longo da vida no caso da muta\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 entre 50% e 70% e, paradoxalmente, \u00e9 esse car\u00e1ter mais leve que lhe permitiu se espalhar tanto e afetar um n\u00famero t\u00e3o elevado de pessoas. A maioria dos portadores sobrevive o suficiente para transmitir o gene aos seus filhos, e alguns nunca desenvolvem c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>O A.C. Camargo Cancer Center se encontra em um bairro decadente de S\u00e3o Paulo, de ruas estreitas, lojas pequenas e caf\u00e9s com vidra\u00e7as. Em seus modernos laborat\u00f3rios est\u00e1 armazenada a maior cole\u00e7\u00e3o de amostras de tumores da regi\u00e3o, 30.000 fragmentos de tecido conservados em blocos de parafina, meticulosamente etiquetados e dispostos em arm\u00e1rios. Atrav\u00e9s dos estudos dessas amostras oncol\u00f3gicas, Achatz e seus colaboradores tentam entender como o p53 funciona em pessoas, n\u00e3o em placas de laborat\u00f3rios e ratos, e como o c\u00e2ncer se desenvolve quando o gene deixa de funcionar como se deve. Por exemplo, entre os pacientes de Achatz se encontra uma mulher que aos 18 anos j\u00e1 havia desenvolvido 14 tumores diferentes. Foram retiradas amostras de muitos desses tumores, e agora os pesquisadores podem examinar as diferen\u00e7as entre o DNA do tecido cancer\u00edgeno e o das c\u00e9lulas normais da mulher.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Fernanda Fortes, colega de Achatz no A.C. Camargo, quer saber por que as crian\u00e7as brasileiras portadoras da muta\u00e7\u00e3o do p53 apresentam um risco pelo menos 10 vezes superior de sofrer c\u00e2ncer suprarrenal do que a popula\u00e7\u00e3o em geral. E, como nem todas as crian\u00e7as com a muta\u00e7\u00e3o desenvolvem esse c\u00e2ncer, o que faz com que a balan\u00e7a se incline do lado dos que desenvolvem a doen\u00e7a. Fortes espera descobrir a resposta analisando o maior n\u00famero poss\u00edvel de amostras. J\u00e1 sabe que a acidez das c\u00e9lulas tumorais \u00e9 maior do que o normal. E sabe que isso \u00e9 significativo. Mas em que medida e de que forma? A acidez geralmente mais alta \u00e9 uma causa ou uma consequ\u00eancia da doen\u00e7a?<\/p>\n<p>Isso faz parte de um assunto muito mais amplo que hoje fascina a comunidade que estuda o p53: a fun\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/02\/20\/sociedad\/1392925700_749339.html\">metabolismo no c\u00e2ncer<\/a>, porque o supressor de tumores \u00e9 tamb\u00e9m um elemento importante nesse campo. O fato de que o metabolismo das c\u00e9lulas cancer\u00edgenas \u00e9 altamente an\u00f4malo n\u00e3o \u00e9 uma nova descoberta. Na d\u00e9cada de 1920, o m\u00e9dico e bi\u00f3logo alem\u00e3o Otto Warburg observou que as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas consomem glicose num ritmo muito elevado. Descobriu que enquanto a maioria das c\u00e9lulas normais quebra a glicose e envia o produto \u00e0s mitoc\u00f4ndrias \u2013as centrais energ\u00e9ticas da c\u00e9lula\u2013 que o queimam no forno para produzir energia, as c\u00e9lulas tumorais suprimem parcialmente a atividade das mitoc\u00f4ndrias e utilizam boa parte da glicose para criar os tijolos de novas c\u00e9lulas. Esse processo metab\u00f3lico, conhecido como glic\u00f3lise aer\u00f3bica, consome quase 20 vezes mais glicose do que a respira\u00e7\u00e3o mitocondrial para produzir a energia que as c\u00e9lulas necessitam, da\u00ed o voraz apetite por glicose das c\u00e9lulas tumorais.<\/p>\n<p>Warburg acreditava que esse metabolismo alterado era a causa do c\u00e2ncer, e afirmou isso num artigo publicado em 1956. Mas essa provocativa teoria logo foi eclipsada pela revolu\u00e7\u00e3o da biologia molecular, quando os entusiasmados cientistas come\u00e7aram a procurar as causas de tudo no nosso DNA. O apetite excessivo por glicose (o chamado efeito Warburg), disseram, era consequ\u00eancia de uma transforma\u00e7\u00e3o maligna das c\u00e9lulas e n\u00e3o uma for\u00e7a motriz dessa transforma\u00e7\u00e3o. Mas agora est\u00e3o sendo acumuladas evid\u00eancias de que o pr\u00f3prio metabolismo influencia ativamente o desenvolvimento dos tumores. O trabalho recente sobre o p53 em especial, afirma Hainaut, indica que os fatores metab\u00f3licos s\u00e3o \u201cabsolutamente fundamentais para a biologia do c\u00e2ncer\u201d.<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1990 havia ind\u00edcios de que o p53 interv\u00e9m no metabolismo, mas n\u00e3o estava completamente esclarecido como se encaixava na imagem do gene como supressor tumoral. Em 2005, no entanto, os pesquisadores dos Institutos Nacionais de Sa\u00fade dos EUA compararam a resist\u00eancia de camundongos normais com camundongos cujo p53 havia sido suprimido. Eles os introduziram num recipiente com \u00e1gua e os que careciam de p53 afundavam muito mais r\u00e1pido do que os normais: ficou claro que tinham dificuldades para gerar a energia suficiente para se manter \u00e0 tona. O que aconteceu ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Em seu laborat\u00f3rio no Instituto Beatson, em Glasgow, Karen Vouden e seus colegas descobriram que quando os acontecimentos seguem seu curso normal, o p53 desempenha um papel sutil nos bastidores. N\u00e3o apenas vigia e espera para deter ou matar c\u00e9lulas potencialmente perigosas como realmente ajuda as c\u00e9lulas a evitar ou sobreviver a coisas que poderiam prejudic\u00e1-las, isto \u00e9, coisas que poderiam desencadear uma resposta antitumoral. Em outras palavras, o p53 desempenha uma dupla fun\u00e7\u00e3o: promove a sobreviv\u00eancia em certas condi\u00e7\u00f5es, mas chama o esquadr\u00e3o da morte quando se percebe que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ficando fora de controle.<\/p>\n<p>Como regulador do metabolismo, explica Vousden, o p53 promove a sobreviv\u00eancia das c\u00e9lulas ajudando-as a suportar flutua\u00e7\u00f5es no fornecimento de combust\u00edvel. \u201cIsso poderia ser algo que acontece constantemente, e nem sempre ser\u00e1 necess\u00e1rio matar todas as c\u00e9lulas que transitoriamente carecem de glicose suficiente. Assim, nessas situa\u00e7\u00f5es \u00e9 evidente que o p53 ajuda as c\u00e9lulas a sobreviver. E o faz permitindo que reorganizem seu metabolismo\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto regulador b\u00e1sico do metabolismo, o p53 ajuda as c\u00e9lulas resistir a um ineficiente efeito Warburg devorador de glicose, exceto em emerg\u00eancias. Tamb\u00e9m ajuda a eliminar os radicais livres \u2013corrosivos subprodutos da queima de a\u00e7\u00facar nas mitoc\u00f4ndrias para obter energia\u2013 fomentando a sobreviv\u00eancia das c\u00e9lulas ao limitar os danos que essas part\u00edculas podem causar no DNA. Mas se o supressor de tumores n\u00e3o funcionar, os nocivos radicais livres podem proliferar e as c\u00e9lulas corrompidas t\u00eam liberdade para sequestrar a maquinaria metab\u00f3lica e alterar a glic\u00f3lise, o que aumenta enormemente sua capacidade de se duplicar. Assim come\u00e7a o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Essa linha de pesquisa sobre as anomalias metab\u00f3licas do c\u00e2ncer oferece \u00f3timas perspectivas para os pacientes. E se, por exemplo, pud\u00e9ssemos ir at\u00e9 o arm\u00e1rio de rem\u00e9dios \u00e0 procura de medicamentos j\u00e1 existentes para doen\u00e7as metab\u00f3licas e us\u00e1-los como novos tratamentos contra o c\u00e2ncer? \u201cN\u00e3o precisar\u00edamos sequer de testes cl\u00ednicos para provar sua seguran\u00e7a\u201d, diz Vouden, \u201cporque tais medicamentos s\u00e3o usados h\u00e1 anos em milh\u00f5es de seres humanos\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ideia que muitos laborat\u00f3rios de todo o mundo, incluindo o dele e o de Hainaut, na Fran\u00e7a, j\u00e1 est\u00e3o explorando com a metformina, a droga mais prescrita contra o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/diabetes\/a\/\">diabetes<\/a>, e dirigida contra o metabolismo inadequado da glicose. Geralmente os diab\u00e9ticos t\u00eam um risco maior de c\u00e2ncer, mas os m\u00e9dicos come\u00e7aram a notar que o risco de c\u00e2ncer em pacientes submetidos a um tratamento cr\u00f4nico de metformina parecia ser ainda menor do que o da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o diab\u00e9tica. A droga poderia ter um efeito protetor? Experi\u00eancias de laborat\u00f3rio demonstraram que \u00e9 de fato t\u00f3xico para as c\u00e9lulas tumorais.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 bons e maus aspectos\u201d, diz Hainaut. \u201cA metformina ser\u00e1 facilmente introduzida no tratamento do c\u00e2ncer porque j\u00e1 est\u00e1 no mercado e h\u00e1 muita experi\u00eancia em sua administra\u00e7\u00e3o a pacientes: foi testada, \u00e9 segura e f\u00e1cil de administrar. Tem todas as caracter\u00edsticas que podem torn\u00e1-la um r\u00e1pido sucesso no tratamento do c\u00e2ncer se os seus efeitos forem positivos. Mas na hora de abordar a fraqueza por glicose das c\u00e9lulas cancer\u00edgenas, ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa\u201d. A metformina j\u00e1 foi avaliada fora dos laborat\u00f3rios, em testes cl\u00ednicos com pacientes em v\u00e1rios centros ao redor do mundo e Hainaut est\u00e1 incentivando Achartz a experiment\u00e1-la tamb\u00e9m com alguns de seus pacientes. Mas tanto m\u00e9dicos como cientistas est\u00e3o bastante conscientes da sensibilidade de sua pesquisa entre as fam\u00edlias brasileiras que sofrem de Li-Fraumeni, e do perigo de suscitar esperan\u00e7as prematuras em pessoas desesperadas para ver os progressos.<\/p>\n<p>Desde a detec\u00e7\u00e3o do p53 mutante em muitos membros da grande fam\u00edlia de Pedro Gomes cada um lutou \u2013a seu modo\u2013para assumir o que isso implica para si mesmo e para seus entes queridos. O irm\u00e3o de Gomes, prefeito de uma cidade nos arredores de S\u00e3o Paulo, fez exames de sangue, mas n\u00e3o quis saber dos resultados. Somente quando sua filha foi diagnosticada com c\u00e2ncer da mama na v\u00e9spera do casamento, ele compreendeu que n\u00e3o poderia esconder a verdade. O casamento foi adiado enquanto ela se recuperava de uma <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/03\/24\/ciencia\/1427202122_270731.html\">mastectomia dupla<\/a> e hoje a jovem pressiona o pai para acompanh\u00e1-la para fazer exames anuais de detec\u00e7\u00e3o precoce no A. C. Camargo.<\/p>\n<p>Duas sobrinhas do prefeito tamb\u00e9m s\u00e3o portadoras do gene mutante. Uma delas diz sobre o seu diagn\u00f3stico: \u201cMudou minha vida para sempre; realmente me enlouqueceu\u201d. Ela teme os controles anuais, que requerem muito tempo, s\u00e3o invasivos e lhe causam ansiedade at\u00e9 receber os resultados, sempre esperando m\u00e1s not\u00edcias depois de ter perdido a m\u00e3e por <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cancer_mama\/a\/\">c\u00e2ncer de mama<\/a>. Teme pelo seu filhinho, que ainda n\u00e3o levou para fazer o teste, e tamb\u00e9m est\u00e1 preocupada sobre se seria moral ter mais filhos, que ela e o marido tanto desejam, e a possibilidade de perder o ov\u00e1rios, o \u00fatero ou as mamas por c\u00e2ncer antes de poder t\u00ea-los. Sua prima, que tamb\u00e9m quer ter filhos, encara a situa\u00e7\u00e3o com mais filosofia: \u201co que tiver de ser, ser\u00e1\u201d, diz encolhendo os ombros. Quando lhe deram a not\u00edcia de que \u00e9 portadora da muta\u00e7\u00e3o, o desgosto que poderia ter sentido por ela e pelo pai, que recebeu os resultados junto com ela, foi superado pela preocupa\u00e7\u00e3o provocada pela intensa ang\u00fastia experimentada por sua m\u00e3e diante da situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Achatz est\u00e1 muito consciente dos problemas emocionais das fam\u00edlias que sofrem de Li-Fraumeni, que v\u00ea todos os dias em seu consult\u00f3rio. \u201cTenho muito claro que me dedico \u00e0 ci\u00eancia para tratar dos meus pacientes\u201d, diz. \u201cTudo o que fa\u00e7o se reduz a como isso os afeta\u201d. E as perspectivas da droga contra o diabetes? \u201cEntre o estudo preliminar de que a metformina funciona em seres humanos e o conhecimento de como administr\u00e1-la em condi\u00e7\u00f5es adequadas ainda h\u00e1 muitos passos\u201d, adverte Pierre Hainaut. \u201cMas tenho verdadeiras esperan\u00e7as de que funcione, pelo menos para os brasileiros\u201d.<\/p>\n<p>Os nomes dos pacientes foram trocados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: El Pa\u00eds Pedro Gomes \u00e9 um homem baixo e de complei\u00e7\u00e3o robusta, com pouco mais de 60 anos, o rosto corado e os bra\u00e7os bronzeados t\u00edpicos de quem trabalha ao ar livre. 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