{"id":2285,"date":"2016-06-20T12:14:32","date_gmt":"2016-06-20T12:14:32","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=2285"},"modified":"2016-06-21T16:53:03","modified_gmt":"2016-06-21T16:53:03","slug":"dados-que-curam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2016\/06\/20\/dados-que-curam\/","title":{"rendered":"Dados que curam"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2286\" src=\"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/laboratorio-300x200.jpg\" alt=\"laboratorio\" width=\"300\" height=\"200\" \/>fonte: Veja<\/p>\n<p>\u201cDeclare o passado, diagnostique o presente e preveja o futuro\u201d, dizia o fisiologista grego Hip\u00f3crates, apelidado de o pai da medicina, no s\u00e9culo V a.C. Com essa elegante defini\u00e7\u00e3o do trabalho m\u00e9dico, o pensador indicava a relev\u00e2ncia do ac\u00famulo de conhecimento pr\u00e9vio para guiar os tratamentos. Ao receber um paciente, o profissional de sa\u00fade precisa, antes de tudo, relacionar os sintomas relatados a outros quadros similares para realizar o exame, prescrever medicamentos e prever qual ser\u00e1 a efici\u00eancia da terapia recomendada. At\u00e9 muito recentemente, por\u00e9m, antes do desenvolvimento de exames de laborat\u00f3rio complexos e conclusivos, os doutores tinham de confiar apenas na mem\u00f3ria de um enfermo para desenhar um caminho de cura.<\/p>\n<p>Deu-se agora uma espetacular guinada com o avan\u00e7o da era digital, da intelig\u00eancia alimentada pelos algoritmos e do big data \u2014 termo que descreve a possibilidade de organizar e consultar, de forma autom\u00e1tica, montantes colossais de dados em qualquer \u00e1rea do conhecimento humano.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, m\u00e9dicos dependem cada vez menos do pr\u00f3prio conhecimento, ou do que relatam os pacientes, para \u201cdeclarar o passado, diagnosticar o presente e prever o futuro\u201d. Bastam alguns cliques no computador para ter acesso a quase toda informa\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 acabando o tempo em que cl\u00ednicos de pronto-socorro podem se contentar em dizer aos doentes, genericamente: \u201c\u00c9 uma virose\u201d.<\/p>\n<p>O impacto das novas tecnologias de big data no trabalho m\u00e9dico pode ser medido em n\u00fameros. Ao longo da vida, um indiv\u00edduo gera o equivalente a 200 terabytes de informa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 sua sa\u00fade. Entretanto, em torno de 90% desses dados se perdem porque n\u00e3o s\u00e3o armazenados, ainda. Estima-se que, se os m\u00e9dicos tivessem acesso ao hist\u00f3rico de todos os pacientes do mundo, seria poss\u00edvel reduzir em 20% a mortalidade global. A precis\u00e3o nos diagn\u00f3sticos possibilitaria ainda uma economia de 300 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano apenas para o sistema de sa\u00fade dos Estados Unidos. Esses benef\u00edcios levam a uma ado\u00e7\u00e3o cada vez mais ampla dessa inova\u00e7\u00e3o: a cada ano, aumenta em 20% a digitaliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas no planeta. Portanto, n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o longe um futuro no qual n\u00e3o mais 90%, qui\u00e7\u00e1 nem 1%, desse conte\u00fado ser\u00e1 perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2287\" src=\"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/dados_medicos.jpg\" alt=\"dados_medicos\" width=\"680\" height=\"846\" srcset=\"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/dados_medicos.jpg 680w, https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/dados_medicos-241x300.jpg 241w, https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/dados_medicos-600x746.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/p>\n<p>Dada a imensid\u00e3o de estat\u00edsticas que podem ser colhidas, como or\u00adga\u00adni\u00adz\u00e1-\u00adlas e compreend\u00ea-las? A resposta est\u00e1 nos softwares de big data. Eles s\u00e3o resultado direto do exponencial barateamento da capacidade de armazenamento dos computadores, acompanhado pela multiplica\u00e7\u00e3o do processamento dessas m\u00e1quinas e pelo avan\u00e7o da tecnologia de sequenciamento gen\u00e9tico. Tudo somado, temos a interpreta\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, mesmo por aparelhos comerciais como smart\u00adpho\u00adnes e tablets, de todo o conte\u00fado compilado pelos profissionais. E haja dados: um \u00fanico hospital pode acumular 665 terabytes deles ao ano, o equivalente a tr\u00eas vezes todo o cat\u00e1logo da Biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo.<\/p>\n<p>Um dos mais novos e promissores frutos desse caldo tecnol\u00f3gico \u00e9 o programa Watson Health, pr\u00f3prio para hospitais. Lan\u00e7ado pela IBM em abril de 2015, ele \u00e9 um refinado produto de intelig\u00eancia artificial, alimentado pelos potentes servidores da empresa americana, cuja miss\u00e3o \u00e9 agrupar grande parte dos dados medicinais do planeta para facilitar o trabalho dos m\u00e9dicos. No m\u00eas passado, a IBM come\u00e7ou a negociar a instala\u00e7\u00e3o do programa em cl\u00ednicas brasileiras. Como ele vai funcionar? O Watson \u00e9 alimentado de informa\u00e7\u00f5es provenientes de laborat\u00f3rios, hospitais e at\u00e9 mesmo iPhones. Em uma parceria com a Apple, a IBM fez com que seu software tivesse acesso a informa\u00e7\u00f5es geradas a partir de aplicativos de celular e tablet que medem o estado de sa\u00fade de seus usu\u00e1rios. Que tipo de material \u00e9 coletado? Quantos passos as pessoas d\u00e3o em um dia, se dormem bem, em que ritmo bate o cora\u00e7\u00e3o, e muito mais. \u201cH\u00e1 uns cinco anos come\u00e7amos a notar quanto essa abordagem da computa\u00e7\u00e3o, chamada de cognitiva, se tornar\u00e1 chave para a evolu\u00e7\u00e3o do cuidado m\u00e9dico\u201d, disse a VEJA o oncologista americano Mark Kris, um dos respons\u00e1veis pelo projeto do Watson Health. \u201cA ferramenta que criamos \u00e9 fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de tratamentos individuais, espec\u00edficos e sob medida, de cada paciente, em qualquer lugar. \u00c9 o futuro da medicina, come\u00e7ando hoje.\u201d<\/p>\n<p>No consult\u00f3rio, o Watson Health acaba por operar como um Google dos m\u00e9dicos. A tecnologia apresenta subdivis\u00f5es de acordo com a especialidade do campo da sa\u00fade. Uma das mais consultadas \u00e9 o Watson Oncology, focado na oncologia e desenvolvido em parceria com o prestigiado hospital americano Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Durante os \u00faltimos cinco anos, m\u00e9dicos abasteceram o Watson \u2014 e continuam a fa\u00adz\u00ea-lo \u2014 com hist\u00f3rias de casos atuais e antigos de c\u00e2ncer, ensinando assim a intelig\u00eancia artificial a abordar cada varia\u00e7\u00e3o da mol\u00e9stia. Hoje, oncologistas com acesso ao programa consultam esse banco de dados antes de atender um paciente. Nele, \u00e9 poss\u00edvel inserir o quadro cl\u00ednico geral de um paciente. A partir da\u00ed, a intelig\u00eancia artificial calcula quais s\u00e3o os m\u00e9todos que se provaram mais eficientes para o tratamento da enfermidade em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes da chegada do Watson Health ao pa\u00eds, hospitais brasileiros j\u00e1 vinham instalando tecnologias similares. H\u00e1 quatro anos o paulistano S\u00ed\u00adrio-Li\u00adba\u00adn\u00eas investe na cria\u00e7\u00e3o do que denominou de Biobanco, uma central de servidores com dados de amostras de sangue e tecido e com informa\u00e7\u00f5es sobre tumores de pacientes. A tecnologia, em teste, ainda \u00e9 acessada apenas por uma \u00e1rea de pesquisas, na qual quarenta pacientes t\u00eam servido de volunt\u00e1rios. \u201cMas estamos felizes com os resultados e logo implementaremos esse recurso em todo o nosso complexo\u201d, diz o bioqu\u00edmico Luiz Fernando Reis, respons\u00e1vel pela iniciativa.<\/p>\n<p>Outro exemplo do bom uso do big data na \u00e1rea m\u00e9dica vem do laborat\u00f3rio paulistano Mendelics. Fundada h\u00e1 quatro anos pelo neurologista David Schle\u00adsin\u00adger, a empresa \u00e9 especializada em sequenciamento gen\u00e9tico, t\u00e9cnica que contribuiu para o desenvolvimento desta era do big data. Por menos de 10\u2009000 reais, em m\u00e9dia (h\u00e1 cinco anos, esse valor era mais que o dobro), em apenas um m\u00eas de trabalho, o Mendelics analisa o DNA de uma pessoa e identifica as altera\u00e7\u00f5es nos genes que podem predispor a algum mal, como a doen\u00e7a de Parkinson, por exemplo.<\/p>\n<p>As vantagens dessas inova\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentes. \u00c9 preciso, por\u00e9m, atentar tamb\u00e9m para alguns perigos da novidade. Um deles \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o da privacidade das pessoas. Afinal, como saber se um paciente concorda que as informa\u00e7\u00f5es de sua doen\u00e7a sejam coletadas e jogadas em um banco de dados, expondo sua condi\u00e7\u00e3o a desconhecidos? Ilustra bem esse n\u00f3 a exist\u00eancia de uma rede social para profissionais de sa\u00fade (o cadastro \u00e9 gratuito, mas apenas acess\u00edvel a quem \u00e9 da \u00e1rea), a Figure 1. Ela funciona como um Instagram com imagens de doen\u00e7as e adoecidos. Em teoria, \u00e9 preciso preservar a identidade do paciente ao compartilhar uma imagem \u2014 conte\u00fado que pode ser \u00fatil, por exemplo, para um m\u00e9dico pedir orienta\u00e7\u00f5es a um colega, especialista em uma enfermidade, de um hospital do outro lado do planeta. Entretanto, como tudo na internet, h\u00e1 brechas que acabam por expor as pessoas.<\/p>\n<p>Outro dilema, este talvez ainda mais delicado, \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o de qualquer paciente em um especialista, dada a facilidade de coletar dados. No Google, 20% das buscas realizadas s\u00e3o relacionadas a doen\u00e7as \u2014 e muita bobagem, como tratamentos sem fundamentos cient\u00edficos, aparece quando se faz esse tipo de pesquisa. Com a inten\u00e7\u00e3o de reduzir danos, o Google se uniu a hospitais como o paulistano Albert Einstein para sempre apresentar informa\u00e7\u00f5es corretas quando um usu\u00e1rio faz buscas no site. Desde mar\u00e7o, quando algu\u00e9m procura por uma enfermidade, como a zika, aparece, ao lado dos resultados usuais (normalmente, pouco confi\u00e1veis), uma tabela feita por especialistas que descreve a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e indica onde procurar ajuda. Como \u00e9 habitual no mundo da inova\u00e7\u00e3o, o problema que surge com a tecnologia acabou sendo resolvido, tamb\u00e9m, pela pr\u00f3pria tecnologia. H\u00e1, sim, quest\u00f5es a ser discutidas quando se trata de coleta extensiva de informa\u00e7\u00f5es individuais. Por\u00e9m, separar o joio do trigo \u00e9 algo que j\u00e1 come\u00e7a a ser feito a partir da an\u00e1lise de dados. O \u201cachismo\u201d morreu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Veja \u201cDeclare o passado, diagnostique o presente e preveja o futuro\u201d, dizia o fisiologista grego Hip\u00f3crates, apelidado de o pai da medicina, no s\u00e9culo V a.C. 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