{"id":2575,"date":"2016-08-08T09:29:49","date_gmt":"2016-08-08T09:29:49","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=2575"},"modified":"2016-08-08T10:21:57","modified_gmt":"2016-08-08T10:21:57","slug":"para-ser-boa-cirurgia-com-robo-depende-de-bom-medico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2016\/08\/08\/para-ser-boa-cirurgia-com-robo-depende-de-bom-medico\/","title":{"rendered":"Para ser boa, cirurgia com rob\u00f4 depende de bom m\u00e9dico"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>por Miguel Srougi<\/p>\n<p>O passar dos anos \u00e9 acompanhado de tamanha deteriora\u00e7\u00e3o dos nossos genes que se fosse dada ao homem idoso a facilidade de se reproduzir, seriam gerados seres altamente imperfeitos.<\/p>\n<p>Talvez por isso, a press\u00e3o evolutiva e\/ou Deus (na ordem ou exclusividade que voc\u00ea preferir) tenham criado um mecanismo impiedoso para conter as diabruras do homem maduro: o c\u00e2ncer da pr\u00f3stata. A mol\u00e9stia atinge 11% daqueles com 60 anos e 100% daqueles que chegam aos 100. Afinal, atingido pelo problema, nenhum homem conseguir\u00e1 se reproduzir e gerar seres infelizes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do desconforto de viverem amea\u00e7ados, uma angustia bem maior permeia a mente dos homens portadores de c\u00e2ncer da pr\u00f3stata.<\/p>\n<p>A prostatectomia radical representa o m\u00e9todo mais eficiente para tratar os tumores iniciais e apesar de proporcionar elevadas taxas de cura, produz impot\u00eancia sexual em 15% dos homens com menos de 55 anos, em 50% dos indiv\u00edduos com 65 anos e em 80% dos pacientes com mais de 70 anos. Ademais, acompanha-se de perdas urin\u00e1rias molestas em 3% a 15% dos pacientes operados.<\/p>\n<p>Conscientes dos inconvenientes, alguns cirurgi\u00f5es propuseram uma nova t\u00e9cnica para executar a cirurgia radical: as interven\u00e7\u00f5es auxiliadas por um rob\u00f4, conhecido como Da Vinci, e executadas atrav\u00e9s de seis orif\u00edcios, sem incis\u00e3o abdominal.<\/p>\n<p>Publica\u00e7\u00f5es iniciais carregadas de certo vi\u00e9s, por ardor ing\u00eanuo \u2013ou nem tanto\u2013 dos advogados da t\u00e9cnica, sugeriam uma remo\u00e7\u00e3o mais segura do tumor e menor risco de les\u00e3o dos nervos e m\u00fasculos situados em torno da pr\u00f3stata. Em decorr\u00eancia estaria &#8220;quase garantida&#8221; a preserva\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia sexual e perfeito controle da mic\u00e7\u00e3o. Essas ideias fizeram com que em alguns pa\u00edses ricos a maioria das cirurgias prost\u00e1ticas fosse executada com rob\u00f4.<\/p>\n<p><b>CONTAS<\/b><\/p>\n<p>Num exemplo aleg\u00f3rico desse vi\u00e9s, um dos mais respeitados cirurgi\u00f5es rob\u00f3ticos dos EUA, em estudo publicado no &#8220;European Urology&#8221;, concluiu que 89,8% dos pacientes estavam potentes um ano ap\u00f3s a prostatectomia rob\u00f3tica. Refazendo os c\u00e1lculos, observei que apenas 47,6% dos 626 pacientes com pot\u00eancia sexual pr\u00e9via normal a preservaram ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o, n\u00famero longe de ser superior ao observado com as interven\u00e7\u00f5es abertas.<\/p>\n<p>Essa nova tecnologia suscitou algumas quest\u00f5es at\u00e9 hoje mal respondidas. O aprendizado da cirurgia rob\u00f3tica \u00e9 demorado e beira os limites do aceit\u00e1vel eticamente, j\u00e1 que a profici\u00eancia do operador s\u00f3 \u00e9 alcan\u00e7ada ap\u00f3s 250-350 interven\u00e7\u00f5es. At\u00e9 que se atinja esse patamar, as cirurgias s\u00e3o envolvidas por complica\u00e7\u00f5es frequentes, \u00e0s vezes graves. Nesse rastro, firmas de advocacia passaram a oferecer seus pr\u00e9stimos em sites emblem\u00e1ticos, como o badrobotsurgery.com!<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o \u00e9 o elevado custo de aquisi\u00e7\u00e3o e de manuten\u00e7\u00e3o desse procedimento, da ordem, respectivamente, de mais U$ 3 milh\u00f5es e de mais de U$ 300 mil d\u00f3lares anuais. Valores ut\u00f3picos para oferecer a t\u00e9cnica a uma na\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade devastada e com prioridades elementares inating\u00edveis para sua popula\u00e7\u00e3o \u2013e tamb\u00e9m mais onerosa para quem se disp\u00f5e a realiz\u00e1-la sem patroc\u00ednio.<\/p>\n<p>A ideia de maior preserva\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es sexual e urin\u00e1ria com a interven\u00e7\u00e3o rob\u00f3tica tamb\u00e9m se mostra, agora, falaciosa. Na \u00faltima semana foram divulgados os resultados preliminares do primeiro estudo mundial, de alto n\u00edvel de evid\u00eancia cient\u00edfica, comparando a prostatectomia aberta e rob\u00f3tica.<\/p>\n<p>Nessa pesquisa, publicada na revista &#8220;The Lancet&#8221; e realizada por investigadores australianos, foram avaliados 308 pacientes aleatoriamente tratados com uma das duas t\u00e9cnicas. Os resultados foram iguais quanto \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o sexual e aos riscos de descontrole urin\u00e1rio ou de complica\u00e7\u00f5es p\u00f3s-operat\u00f3rias, conforme mostrado em reportagem da <b>Folha<\/b>.<\/p>\n<p><b>CONSENSO<\/b><\/p>\n<p>Esses dados refor\u00e7am uma ideia consensual que tem prosperado entre especialistas: o sucesso da prostatectomia radical est\u00e1 mais ligado \u00e0 experi\u00eancia do cirurgi\u00e3o e menos ao m\u00e9todo cir\u00fargico utilizado. De outra forma: mais importante do que a t\u00e9cnica escolhida \u00e9 o t\u00e9cnico envolvido.<\/p>\n<p>O que fica claro nessa discuss\u00e3o \u00e9 que os especialistas da \u00e1rea t\u00eam diverg\u00eancias que n\u00e3o s\u00e3o apenas sem\u00e2nticas Tentando resumir meus sentimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cirurgias auxiliadas por rob\u00f4s, penso que elas se impor\u00e3o no futuro, pelo aperfei\u00e7oamento dos sistemas rob\u00f3ticos, que ainda falham por n\u00e3o oferecerem sensa\u00e7\u00e3o t\u00e1ctil ao cirurgi\u00e3o, pela atra\u00e7\u00e3o que as t\u00e9cnicas high tech exercem sobre a mente humana e pelo barateamento desses equipamentos.<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o se concretiza, gostaria de lembrar as observa\u00e7\u00f5es feitas pelo grupo de Florian Schroeck, da Universidade Duke, nos EUA. Entrevistando pacientes submetidos \u00e0 prostatectomia radical, constataram que lamenta\u00e7\u00f5es pela op\u00e7\u00e3o adotada foram quatro vezes mais frequentes entre os escolheram a t\u00e9cnica rob\u00f3tica, principalmente porque foram criadas expectativas irreais.<\/p>\n<p>Por esse motivo, um m\u00e9dico s\u00f3 exercer\u00e1 com grandeza o seu papel de guardi\u00e3o do corpo e da alma se, tanto na sa\u00edda como na chegada, levar em conta n\u00e3o apenas a doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m os sentimentos e as afli\u00e7\u00f5es que envolvem seus pacientes.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos e doentes, num certo conluio durante a travessia, devem estabelecer rela\u00e7\u00f5es envolvidas por respeito, compaix\u00e3o e sinceridade, tornando o percurso mais suport\u00e1vel para esses pacientes. Realidade que Riobaldo, o jagun\u00e7o fil\u00f3sofo de Guimar\u00e3es Rosa, sabia muito bem como descortinar: &#8220;Digo, o real n\u00e3o est\u00e1 na sa\u00edda ou na chegada, ele se disp\u00f5e para a gente no meio da travessia.&#8221;<\/p>\n<p><strong>MIGUEL SROUGI<\/strong>, 69, m\u00e9dico, p\u00f3s-graduado em urologia pela Harvard Medical School (EUA), \u00e9 professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho do Instituto Crian\u00e7a \u00e9 Vida<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP por Miguel Srougi O passar dos anos \u00e9 acompanhado de tamanha deteriora\u00e7\u00e3o dos nossos genes que se fosse dada ao homem idoso a facilidade de se reproduzir, seriam gerados seres altamente imperfeitos. 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