{"id":3060,"date":"2016-11-22T11:49:01","date_gmt":"2016-11-22T11:49:01","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=3060"},"modified":"2016-11-24T08:10:32","modified_gmt":"2016-11-24T08:10:32","slug":"na-rocinha-uma-mesma-rua-vive-diferentes-extremos-da-tuberculose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2016\/11\/22\/na-rocinha-uma-mesma-rua-vive-diferentes-extremos-da-tuberculose\/","title":{"rendered":"Na Rocinha, uma mesma rua vive diferentes extremos da tuberculose"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>No beco, o esgoto corre a c\u00e9u aberto. H\u00e1 casas e por\u00f5es sem janelas, com pouca ilumina\u00e7\u00e3o e quase nenhuma ventila\u00e7\u00e3o. Entre os moradores, v\u00e1rios j\u00e1 tiveram ou ainda se tratam da tuberculose.<\/p>\n<p>A 50 metros dali, na mesma rua 4, 144 fam\u00edlias viviam na mesma situa\u00e7\u00e3o at\u00e9 2010. Ap\u00f3s obras de urbaniza\u00e7\u00e3o do PAC (Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento), um trecho foi aberto e as casas prec\u00e1rias, demolidas.<\/p>\n<p>Isso permitiu a entrada de luz solar e a circula\u00e7\u00e3o de ar nas novas moradias ali constru\u00eddas. Antes conhecido como &#8220;beco da tuberculose&#8221;, o local praticamente zerou os casos da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Os dois cen\u00e1rios est\u00e3o na mesma Rocinha, a maior favela do Brasil, localizada na zona sul do Rio. Com popula\u00e7\u00e3o estimada em mais de 100 mil habitantes, ela tem uma das maiores taxas de incid\u00eancia de tuberculose da Am\u00e9rica Latina (372 casos por 100 mil habitantes), \u00edndice 11 vezes maior do que o do Brasil (33,8 casos por 100 mil).<\/p>\n<p>Doen\u00e7a contagiosa provocada por uma bact\u00e9ria, a tuberculose \u00e9 transmitida pelas vias a\u00e9reas e se dissemina facilmente em \u00e1reas com grandes aglomera\u00e7\u00f5es de pessoas, alta concentra\u00e7\u00e3o de pobreza, ambientes sem entrada de luz solar e pouca circula\u00e7\u00e3o de ar.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e os desafios para o seu controle foi tema de um debate no congresso mundial de m\u00e9dicos de fam\u00edlia (Wonca), que ocorreu no in\u00edcio do m\u00eas no Rio. O Estado do Rio concentra 68 casos de tuberculose por 100 mil, e a cidade, 89,7 casos.<\/p>\n<p>Dados preliminares de um estudo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) apresentado no evento mostram que as chances de cura da tuberculose aumentam em at\u00e9 39% nas \u00e1reas cobertas pela Estrat\u00e9gia Sa\u00fade da Fam\u00edlia (ESF) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quelas sem cobertura.<\/p>\n<p>&#8220;Os resultados demonstram que a expans\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia \u00e9 o caminho para se alcan\u00e7ar a meta proposta pela OMS de eliminar a doen\u00e7a at\u00e9 2035&#8221;, diz a infectologista Betina Durovni, subsecret\u00e1ria de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e vigil\u00e2ncia em sa\u00fade do munic\u00edpio do Rio.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos sete anos, o \u00edndice de cobertura de sa\u00fade da fam\u00edlia na cidade do Rio passou de 3,5% (em 2009) para 66% (at\u00e9 agora). O modelo, que acompanha hoje mais de 4 milh\u00f5es de cariocas, se baseou em experi\u00eancias de Portugal e da Inglaterra.<\/p>\n<p>No caso da Rocinha, a incid\u00eancia da tuberculose ainda \u00e9 muito alta, mas j\u00e1 foi pior (455 casos por 100 mil habitantes em 2001). Houve avan\u00e7o na taxa de cura, que passou de 66,1% em 2001 para 81,2% em 2013, e no \u00edndice de abandono do tratamento \u2013de 18,2% para 11,6%.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortos pela doen\u00e7a caiu quase pela metade, de 51 (2005-2009) para 29 (2010-2015).<\/p>\n<p>&#8220;A maioria dos casos hoje \u00e9 diagnosticada precocemente e tratada na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Antes, muitas pessoas descobriam a doen\u00e7a quando davam entrada em hospitais, em est\u00e1gios mais avan\u00e7ados&#8221;, diz Marcos Goldraich, m\u00e9dico da cl\u00ednica da fam\u00edlia Maria do Socorro.<\/p>\n<p>A unidade \u00e9 uma das tr\u00eas de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria na Rocinha, que tamb\u00e9m tem uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). At\u00e9 2010, s\u00f3 havia um centro de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de acabar com a tuberculose, at\u00e9 porque a cura depende de outras \u00e1reas que n\u00e3o a sa\u00fade [infra-estrutura, saneamento]. A experi\u00eancia da rua 4 mostrou isso&#8221;, diz Goldraich.<\/p>\n<p>Hoje, a favela est\u00e1 dividida em 25 \u00e1reas e cada uma possui uma equipe de sa\u00fade da fam\u00edlia, composta por um m\u00e9dico, um enfermeiro e seis agentes comunit\u00e1rios (todos moradores do lugar).<\/p>\n<p><b>MULTIRRESIST\u00caNCIA<\/b><\/p>\n<p>Elaine Gomes, 37, \u00e9 uma das agentes. Ganha R$ 1.150 mensais por oito horas de trabalho di\u00e1rio por entre becos e vielas da Rocinha, acompanhando pacientes com tuberculose, hipertensos, diab\u00e9ticos e gestantes de risco.<\/p>\n<p>Na \u00faltima sexta (18), a <b>Folha<\/b> acompanhou sua ida \u00e0 casa do aposentado Roberto Ramos, 66, que tem tuberculose multirresistente, causada por bact\u00e9rias que n\u00e3o respondem ao tratamento com as drogas convencionais.<\/p>\n<p>O problema surge quando os pacientes n\u00e3o usam corretamente a medica\u00e7\u00e3o ou abandonam a terapia. Foi o que aconteceu com Ramos, que hoje toma 13 c\u00e1psulas de antibi\u00f3ticos por dia (no tratamento padr\u00e3o, s\u00e3o quatro) sob supervis\u00e3o de Elaine.<\/p>\n<p>&#8220;Ele reclama da quantidade de rem\u00e9dio e dos efeitos colaterais [n\u00e1usea e dores no corpo], mas a gente s\u00f3 sai de perto quando ele toma toda a medica\u00e7\u00e3o&#8221;, conta a agente, m\u00e3e de quatro filhos e av\u00f3 de um menino de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Nascida e criada na Rocinha, ela decidiu ser agente comunit\u00e1ria depois que o filho teve diagnosticado um tumor cerebral e passou a ser acompanhado em uma das cl\u00ednicas de fam\u00edlia da favela.<\/p>\n<p>&#8220;O cuidado e o carinho que recebemos n\u00e3o tem pre\u00e7o. Quis retribuir isso. N\u00e3o h\u00e1 nada mais gratificante do que ver um paciente curado.&#8221;<\/p>\n<p>Elaine lembra de um morador de rua com tuberculose que todos os dias desaparecia dos radar dos agentes. &#8220;Aquele que o encontrasse primeiro dava a medica\u00e7\u00e3o e avisava o resto da equipe por WhatsApp&#8221;, conta.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois meses, exames apontaram que o morador est\u00e1 curado. &#8220;Fizemos at\u00e9 festa para comemorar.&#8221;<\/p>\n<p><b>PRECONCEITO<\/b><\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o conte para a minha fam\u00edlia ou para o meu vizinho que eu tenho tuberculose&#8221;. O pedido recorrente que os pacientes fazem a m\u00e9dicos e agentes da sa\u00fade exp\u00f5e o estigma que envolve a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Atendi um paciente que s\u00f3 aceitou iniciar um segundo tratamento depois que garanti sigilo. Na primeira vez em que ele se infectou, os vizinhos queimaram a casa e as coisas dele&#8221;, conta o m\u00e9dico Marcos Goldraich, que atua numa cl\u00ednica na Rocinha.<\/p>\n<p>Um estudo da Fiocruz (Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz) mostrou que os pacientes associam a doen\u00e7a fortemente ao estigma. Dentre os relatos, h\u00e1 casos de pessoas que esconderam o diagn\u00f3stico de familiares e de colegas de trabalho por medo de sofrer rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A pr\u00f3pria fam\u00edlia, por ignor\u00e2ncia, separa garfo, faca. Mas a transmiss\u00e3o n\u00e3o acontece assim. \u00c9 pelas vias a\u00e9reas, pelas got\u00edculas da tosse, do espirro. Precisa de um contato muito pr\u00f3ximo&#8221;, diz Elaine Gomes, agente de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a tem cura em praticamente 100% dos casos novos desde que o tratamento seja feito de forma correta e at\u00e9 o final. Ap\u00f3s 15 dias de terapia, o paciente n\u00e3o transmite mais a doen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP No beco, o esgoto corre a c\u00e9u aberto. H\u00e1 casas e por\u00f5es sem janelas, com pouca ilumina\u00e7\u00e3o e quase nenhuma ventila\u00e7\u00e3o. Entre os moradores, v\u00e1rios j\u00e1 tiveram ou ainda se tratam da tuberculose. A 50 metros dali, na mesma rua 4, 144 fam\u00edlias viviam na mesma situa\u00e7\u00e3o at\u00e9 2010. 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