{"id":3558,"date":"2017-05-08T13:06:03","date_gmt":"2017-05-08T13:06:03","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=3558"},"modified":"2017-05-08T19:08:54","modified_gmt":"2017-05-08T19:08:54","slug":"falta-de-penicilina-afeta-pacientes-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2017\/05\/08\/falta-de-penicilina-afeta-pacientes-no-mundo\/","title":{"rendered":"Falta de penicilina afeta pacientes no mundo"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>M\u00e9dicos est\u00e3o cada vez mais preocupados com a crescente resist\u00eancia bacteriana a antibi\u00f3ticos, alimentada pelo uso de drogas substitutas e menos eficazes, quando n\u00e3o h\u00e1 penicilina dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>A penicilina j\u00e1 foi considerada um rem\u00e9dio milagroso, mas hoje est\u00e1 escassa em todo o mundo, j\u00e1 que poucas empresas ainda a fabricam.<\/p>\n<p>Uma dose de benzatina penicilina, uma das formula\u00e7\u00f5es mais antigas do antibi\u00f3tico, consegue curar os primeiros est\u00e1gios da s\u00edfilis, doen\u00e7a mortal que assola a humanidade h\u00e1 mais de 500 anos e est\u00e1 crescendo novamente.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios que fabricam o rem\u00e9dio, al\u00e9m de serem poucos, tamb\u00e9m produzem pouco dele, pois o medicamento n\u00e3o tem patente, gera pouco lucro e n\u00e3o h\u00e1 muitos dados sobre demanda.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2017\/05\/1881794-paises-recorrem-a-empresas-banidas-para-garantir-oferta-da-penicilina.shtml\">Com a escassez global do rem\u00e9dio, m\u00e9dicos usam medicamentos substitutos<\/a>, como a azitromicina, antibi\u00f3tico cada vez mais ineficaz contra determinadas cepas da bact\u00e9ria da s\u00edfilis.<\/p>\n<p>Muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que tornaram a s\u00edfilis resistente a uma fam\u00edlia de antibi\u00f3ticos chamada macr\u00f3lidos, que inclui a eritromicina e a azitromicina, v\u00eam sendo documentadas em todo o mundo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, da China aos EUA. Na Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 evid\u00eancias de bact\u00e9rias modificadas de s\u00edfilis na Argentina.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es do surgimento da s\u00edfilis resistente \u00e9 o uso extenso desses rem\u00e9dios para tratar a infec\u00e7\u00e3o no passado, revelam pesquisadores da Universidade de Zurique, autores de um artigo sobre as cepas resistentes da doen\u00e7a, publicado em 2016. A penicilina benzatina \u00e9 o rem\u00e9dio de primeira linha contra a s\u00edfilis, mas macr\u00f3lidos s\u00e3o usados quando n\u00e3o h\u00e1 penicilina ou em casos de alergia.<\/p>\n<p>Embora a resist\u00eancia a antibi\u00f3ticos seja um processo natural, a escassez de medicamentos de primeira linha pode aumentar o risco de as bact\u00e9rias se tornarem resistentes a antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio recente encomendado pelo governo brit\u00e2nico estimou que 700 mil pessoas morrem anualmente devido \u00e0 resist\u00eancia a medicamentos. O texto alerta que, se o problema n\u00e3o for atacado agora, bact\u00e9rias resistentes podem causar a morte de at\u00e9 10 milh\u00f5es de pessoas por ano at\u00e9 2050, com um preju\u00edzo de at\u00e9 US$ 100 trilh\u00f5es para a economia mundial.<\/p>\n<p><b>ESCASSEZ MUNDIAL<\/b><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, pessoas de pelo menos 18 pa\u00edses, incluindo \u00c1frica do Sul, EUA, Canad\u00e1, Portugal, Fran\u00e7a e Brasil, v\u00eam enfrentando uma escassez de penicilina benzatina, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p>Com a produ\u00e7\u00e3o restrita a apenas algumas poucas empresas no mundo, os pa\u00edses n\u00e3o conseguem um fornecimento adequado do medicamento que transformou a medicina moderna h\u00e1 76 anos.<\/p>\n<p>Nos EUA, a escassez de penicilina benzatina, que j\u00e1 dura um ano, dificulta o tratamento da s\u00edfilis, crescente no pa\u00eds. A Pfizer, \u00fanica fornecedora do medicamento, n\u00e3o tem conseguido atender \u00e0 demanda americana, devido a &#8220;atrasos de manufatura&#8221; em uma de suas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>No Brasil, a falta de penicilina benzatina que teve in\u00edcio em 2014 foi acompanhada de um surto de s\u00edfilis, que tamb\u00e9m causa malforma\u00e7\u00f5es graves em beb\u00eas. O antibi\u00f3tico \u00e9 o \u00fanico capaz de matar a bact\u00e9ria da s\u00edfilis no feto; outros antibi\u00f3ticos, como a azitromicina, a ceftriaxona e a doxiciclina, n\u00e3o conseguem tratar a infec\u00e7\u00e3o no beb\u00ea.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, rem\u00e9dios como a ceftriaxona custam o dobro da penicilina.<\/p>\n<p>&#8220;A penicilina benzatina \u00e9 a primeira e \u00fanica op\u00e7\u00e3o para tratar a s\u00edfilis na gesta\u00e7\u00e3o e a neuros\u00edfilis. Sem ela, os pacientes ficam em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil&#8221;, diz o infectologista Jorge Senise, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o tratada, a s\u00edfilis na gravidez pode deixar o rec\u00e9m-nascido cego, surdo ou com malforma\u00e7\u00f5es \u00f3sseas. A doen\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 ligada a alto n\u00famero de abortos espont\u00e2neos e mortalidade infantil.<\/p>\n<p>A escassez de penicilina impacta tamb\u00e9m os hospitais, porque os beb\u00eas que nascem com a doen\u00e7a precisam de interna\u00e7\u00e3o hospitalar m\u00ednima de dez dias.<\/p>\n<p>&#8220;Isso gera custos alt\u00edssimos. E \u00e0s vezes nem temos o medicamento certo para trat\u00e1-los&#8221;, diz a m\u00e9dica Luciane Cerqueira, do Hospital Universit\u00e1rio Pedro Ernesto, do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A moradora de Recife D\u00e9bora S. M., que pediu para n\u00e3o ter seu nome completo revelado, deu \u00e0 luz em fevereiro um beb\u00ea com neuross\u00edfilis, quando a bact\u00e9ria da s\u00edfilis infecta o c\u00e9rebro e o sistema nervoso central.<\/p>\n<p>M\u00e3e e filho poderiam ter sido tratados com uma \u00fanica inje\u00e7\u00e3o de penicilina benzatina, mas D\u00e9bora passou a gravidez sem fazer exames de pr\u00e9-natal. Ela foi v\u00e1rias vezes ao posto de sa\u00fade local, mas n\u00e3o havia m\u00e9dicos para atend\u00ea-la nem rem\u00e9dios para trat\u00e1-la.<\/p>\n<p>Foi apenas no parto que D\u00e9bora descobriu que estavam infectados. &#8220;Fiquei triste porque meu filho n\u00e3o nasceu com sa\u00fade&#8221;, diz. Ap\u00f3s dez dias de tratamento na maternidade, o beb\u00ea teve alta, mas precisar\u00e1 de acompanhamento m\u00e9dico pelos pr\u00f3ximos 18 meses. S\u00f3 ao fim desse per\u00edodo os m\u00e9dicos poder\u00e3o avaliar se o beb\u00ea ficou com sequelas causadas pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p><b>RAZ\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>A falta de penicilina tem v\u00e1rias causas. Uma delas \u00e9 a depend\u00eancia de pa\u00edses a um pequeno n\u00famero de fabricantes globais. Apenas quatro empresas no mundo produzem o ingrediente ativo do antibi\u00f3tico, e elas mant\u00eam a produ\u00e7\u00e3o de penicilina em n\u00edveis baixos, porque o medicamento \u00e9 pouco lucrativo.<\/p>\n<p>A penicilina \u00e9 usada para tratar doen\u00e7as letais, mas esquecidas, como a s\u00edfilis e a cardiopatia reum\u00e1tica cr\u00f4nica, que afetam pa\u00edses pobres com recursos limitados para identificar a abrang\u00eancia dessas enfermidades em seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma falha do mercado no setor da penicilina: existe uma demanda, mas ela vem dos pobres&#8221;, diz o cardiologista Ganesan Karthikeyan, do Instituto All India de Ci\u00eancias M\u00e9dicas, em Nova D\u00e9li, \u00cdndia.<\/p>\n<p>A \u00cdndia tem o maior n\u00famero de mortes decorrentes da cardiopatia reum\u00e1tica cr\u00f4nica no mundo, com 111 mil casos fatais em 2015, segundo a OMS. Apesar disso, o abastecimento de penicilina, o \u00fanico rem\u00e9dio capaz de frear a doen\u00e7a, tem sido inst\u00e1vel no pa\u00eds. Pacientes muitas vezes n\u00e3o conseguem comprar o medicamento, relata Karthikeyan.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma quest\u00e3o produtiva. Em busca de menores custos, as empresas farmac\u00eauticas fragmentaram a produ\u00e7\u00e3o da penicilina e de outros medicamentos baratos. Os laborat\u00f3rios compram o ingrediente farmac\u00eautico ativo de outras empresas, a maioria localizada na China e na \u00cdndia, e formulam o medicamento final. Por\u00e9m, tal fragmenta\u00e7\u00e3o torna a cadeia fr\u00e1gil e deixa o abastecimento global da penicilina exposto a flutua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Se um fabricante do ingrediente farmac\u00eautico ativo sai do mercado, isso afeta as empresas que produzem o rem\u00e9dio final, o que pode gerar atrasos na produ\u00e7\u00e3o e afetar a disponibilidade mundial do medicamento&#8221;, diz Maggie Savage, da equipe de novas oportunidades de mercado da Clinton Health Access Initiative (Iniciativa Clinton de Acesso \u00e0 Sa\u00fade), que no ano passado fez um estudo sobre a disponibilidade global da penicilina benzatina.<\/p>\n<p>A especialista destaca ainda que nos \u00faltimos dez anos pelo menos cinco empresas abandonaram o mercado global de penicilina em busca de rem\u00e9dios mais rent\u00e1veis.<\/p>\n<p>&#8220;A penicilina n\u00e3o d\u00e1 dinheiro. Por isso as empresas n\u00e3o querem produzi-la&#8221;, diz o m\u00e9dico Amit Sengupta, de Nova D\u00e9li, coordenador global da rede People&#8217;s Health Movement (Movimento de Sa\u00fade Popular). &#8220;Havia um grande n\u00famero fabricantes de penicilina na \u00e9poca em que ela era o medicamento mais poderoso do mundo, mas agora ela virou um mercado de nicho.&#8221;<\/p>\n<p>Um estudo de 2011 da London School of Economics estimou que o valor l\u00edquido de antibi\u00f3ticos injet\u00e1veis \u00e9 de US$100 milh\u00f5es, enquanto a previs\u00e3o para medicamentos para tratar desordens musculoesquel\u00e9ticos, como a artrite, passa de US$1 bilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo dependem desse &#8220;mercado de nicho&#8221;. Cerca de 33 milh\u00f5es de pessoas sofrem da cardiopatia reum\u00e1tica cr\u00f4nica e precisam de inje\u00e7\u00f5es mensais de penicilina para evitar a morte, enquanto a OMS estima que uma dose \u00fanica de penicilina benzatina por paciente poderia ter salvado mais de 53 mil beb\u00eas em 30 pa\u00edses que morreram de s\u00edfilis contra\u00edda no \u00fatero em 2012.<\/p>\n<p>De acordo com o Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as (CDC) dos EUA, apenas nove antibi\u00f3ticos novos foram desenvolvidos e aprovados nos EUA entre 2005 e 2014, um ter\u00e7o do n\u00famero de drogas aprovadas na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos de antibi\u00f3ticos novos, mas tamb\u00e9m precisamos preservar os que j\u00e1 existem, porque eles podem nos salvar agora&#8221;, diz a professora C\u00e9line Pulcini, do Centro Hospitalar Regional da Universidade de Nancy, que coordenou um estudo em 2015 sobre o desabastecimento de antibi\u00f3ticos antigos em 39 pa\u00edses.<\/p>\n<p>&#8220;Resolver esse problema precisa ser uma das maiores prioridades de qualquer governo&#8221;, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP M\u00e9dicos est\u00e3o cada vez mais preocupados com a crescente resist\u00eancia bacteriana a antibi\u00f3ticos, alimentada pelo uso de drogas substitutas e menos eficazes, quando n\u00e3o h\u00e1 penicilina dispon\u00edvel. 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