{"id":4125,"date":"2017-09-04T16:06:56","date_gmt":"2017-09-04T16:06:56","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=4125"},"modified":"2017-09-05T11:51:00","modified_gmt":"2017-09-05T11:51:00","slug":"diagnostico-de-cancer-ainda-e-gargalo-para-pacientes-do-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2017\/09\/04\/diagnostico-de-cancer-ainda-e-gargalo-para-pacientes-do-sus\/","title":{"rendered":"Diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer ainda \u00e9 gargalo para pacientes do SUS"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>Livian Soares, 32, suava \u00e0 noite, tinha febre, dores constantes de cabe\u00e7a e, a cada dia, perdia mais peso. Os m\u00e9dicos em Urua\u00e7u, no interior de Goi\u00e1s, diziam que era anemia.<\/p>\n<p>Demorou um ano para ela ser atendida por um especialista em doen\u00e7as do sangue no SUS e outros 90 dias para realizar os exames e chegar ao diagn\u00f3stico \u2013linfoma de Hodgkin, tipo raro de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Em 2014, o n\u00f3dulo ocupava sua axila, mas, na \u00e9poca do diagn\u00f3stico tardio, j\u00e1 tinha se espalhado por garganta, t\u00f3rax e est\u00f4mago. Estava no est\u00e1gio quatro, considerado avan\u00e7ado pelos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>O tratamento deveria come\u00e7ar imediatamente, mas a primeira quimioterapia foi marcada para tr\u00eas meses depois, em Goi\u00e2nia, a cinco horas de dist\u00e2ncia da sua casa.<\/p>\n<p>A espera de Livian mostra que a demora entre a suspeita inicial e a chegada a um diagn\u00f3stico \u00e9 o principal gargalo para obter o tratamento adequado no servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em vigor desde 2014, a chamada Lei dos Sessenta Dias determina que todos os pacientes com c\u00e2ncer devem ser tratados na rede p\u00fablica at\u00e9 dois meses ap\u00f3s o diagn\u00f3stico. No entanto, quatro em cada dez casos esperam mais do que o prazo legal para receber atendimento, de acordo com dados do Siscan (Sistema de Informa\u00e7\u00e3o do C\u00e2ncer) do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;A lei pressup\u00f5e que o paciente consegue chegar imediatamente a um hospital especializado em c\u00e2ncer, mas, antes disso, alguns passam por mais de oito consultas&#8221;, diz Merula Steagall, presidente da Abrale (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Linfoma e Leucemia).<\/p>\n<p>No Estado de S\u00e3o Paulo, o prazo de 60 dias costuma ser respeitado, diz Paulo Hoff, diretor do Icesp (Instituto do C\u00e2ncer do Estado de S\u00e3o Paulo), que atende 10% dos casos de c\u00e2ncer do SUS estadual. &#8220;Somos refer\u00eancia, exce\u00e7\u00e3o no Brasil. Mas, \u00e0s vezes, ficamos sobrecarregados porque pacientes de Estados vizinhos v\u00eam procurar tratamento aqui&#8221;, explica. &#8220;\u00c9 desumano uma pessoa viajar por horas para achar um hospital que a atenda.&#8221;<\/p>\n<p>Essa dificuldade foi enfrentada pela estudante Let\u00edcia Fernandes, que viajava duas horas e meia de segunda a s\u00e1bado de Mogi das Cruzes, onde vive, at\u00e9 a capital paulista para tratar o linfoma no pesco\u00e7o, descoberto aos 18 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi sua \u00fanica peregrina\u00e7\u00e3o no SUS. Ela esperou um ano para descobrir qual doen\u00e7a tinha, gastou R$ 950 em uma consulta particular e as sess\u00f5es de radioterapia s\u00f3 foram marcadas quatro meses depois do pedido m\u00e9dico, quando esse tratamento n\u00e3o teria mais efeito.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a reapareceu duas vezes. Na primeira, fez um transplante de medula \u00f3ssea, que demorou mais de quatro meses para ser realizado. Na segunda, o servi\u00e7o p\u00fablico j\u00e1 n\u00e3o oferecia nenhuma op\u00e7\u00e3o que funcionasse para ela.<\/p>\n<p>Um rem\u00e9dio importado custou R$ 600 mil e foi pago pela Uni\u00e3o, ap\u00f3s briga judicial de mais um ano. A jovem, hoje com 23 anos, define o processo: ansiedade, medo, desespero e des\u00e2nimo.<\/p>\n<p><b>MAIS CARO<\/b><\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, 55% dos casos s\u00e3o diagnosticados nos est\u00e1gios tr\u00eas e quatro, mais avan\u00e7ados e dif\u00edceis de tratar. No pa\u00eds, s\u00e3o 60%. Essa demora, consequ\u00eancia da lentid\u00e3o, pode custar at\u00e9 19 vezes mais aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Para apressar o diagn\u00f3stico, uma nova lei est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados, estipulando que todas as consultas e exames em casos suspeitos de c\u00e2ncer sejam realizado em at\u00e9 30 dias.<\/p>\n<p>Minas Gerais foi o primeiro Estado a criar legisla\u00e7\u00e3o. A regulamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 aguardada para os pr\u00f3ximos meses. O Estado ter\u00e1 de criar 12 novos centros especializados em diagn\u00f3stico oncol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O tratamento de um c\u00e2ncer de intestino no SUS, em seu est\u00e1gio inicial, custa cerca de R$ 4 mil. Nas fases cr\u00edticas, o valor chega a R$ 76 mil.<\/p>\n<p>&#8220;No c\u00e2ncer, o tempo corre contra. Em casos de leucemia, por exemplo, \u00e9 preciso internar o paciente em poucos dias, mas monitoramos demora de at\u00e9 cinco ou seis meses&#8221; diz Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia.<\/p>\n<p>Para Fernando Maluf, chefe da oncologia do Hospital BP Mirante, em S\u00e3o Paulo e fundador do Instituto Vencer o C\u00e2ncer, a espera tem ainda um fator emocional. &#8220;Para quem tem uma doen\u00e7a, esses dias parecem eternos.&#8221;<\/p>\n<p>Em Brasil\u00e2ndia de Minas, a 500 km de Belo Horizonte, Andreia Alves, 39, vive na pele a tortura. Em mar\u00e7o, a professora ouviu da m\u00e9dica: &#8220;Como voc\u00ea ainda est\u00e1 viva?&#8221;.<\/p>\n<p>Assim como Livian, ela foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin. O resultado da bi\u00f3psia veio no in\u00edcio de julho e, ap\u00f3s cinco meses de busca por exames em outra cidade, Andreia ainda aguarda pelo in\u00edcio do tratamento.<\/p>\n<p>Ela precisava iniciar as sess\u00f5es de quimioterapia e radioterapia imediatamente, mas, prestes a completar dois meses desde que descobriu a doen\u00e7a, quando liga para a Secretaria de Sa\u00fade de Minas Gerais s\u00f3 ouve que n\u00e3o h\u00e1 vagas.<\/p>\n<p>A espera \u00e9 para um tratamento em Belo Horizonte ou Uberaba, a sete horas de onde mora. Para ela, no entanto, o pior \u00e9 n\u00e3o saber quando.<\/p>\n<p>&#8220;No in\u00edcio era apenas um caro\u00e7o, agora j\u00e1 s\u00e3o 12. A m\u00e9dica disse que posso ter morte cerebral a qualquer momento, porque eles est\u00e3o na minha jugular&#8221;, diz Andreia.<\/p>\n<p>A falta de transpar\u00eancia para saber o in\u00edcio do tratamento \u00e9 apontada tamb\u00e9m por Luciana Holtz.<\/p>\n<p>&#8220;O paciente se sente perdido, n\u00e3o h\u00e1 um site que mostre quando o exame foi agendado, quando \u00e9 a pr\u00f3xima consulta, quando come\u00e7a a quimioterapia. Tem que esperar por uma liga\u00e7\u00e3o da central de regula\u00e7\u00e3o da fila.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP Livian Soares, 32, suava \u00e0 noite, tinha febre, dores constantes de cabe\u00e7a e, a cada dia, perdia mais peso. Os m\u00e9dicos em Urua\u00e7u, no interior de Goi\u00e1s, diziam que era anemia. 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