{"id":7637,"date":"2019-07-22T09:48:32","date_gmt":"2019-07-22T09:48:32","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=7637"},"modified":"2019-07-24T11:59:51","modified_gmt":"2019-07-24T11:59:51","slug":"medicos-de-areas-violentas-relatam-impacto-de-crimes-na-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2019\/07\/22\/medicos-de-areas-violentas-relatam-impacto-de-crimes-na-saude\/","title":{"rendered":"M\u00e9dicos de \u00e1reas violentas relatam impacto de crimes na sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>Considerada pela OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade) um dos maiores problemas de sa\u00fade p\u00fablica, a\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2019\/05\/angra-tem-tres-baleados-em-tiroteio-intenso-apos-witzel-declarar-fim-da-bandidagem.shtml\">viol\u00eancia<\/a>\u00a0e seus impactos no adoecimento e morte ainda n\u00e3o fazem parte da forma\u00e7\u00e3o e treinamento da maioria dos profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Um estudo da CIMF (Confedera\u00e7\u00e3o Ibero-americana de Medicina de Fam\u00edlia) mostra que 91,3% dos profissionais de sa\u00fade entrevistados no Brasil e em outros 17 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina consideram que n\u00e3o t\u00eam treinamento suficiente ou adequado para lidar com situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, 75% classificam como elevada a percep\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/mauriciostycer\/2018\/12\/serie-sob-pressao-faz-defesa-emocionante-da-saude-publica-no-pais.shtml\">viol\u00eancia\u00a0<\/a>em seu ambiente de trabalho, como as unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade. Viol\u00eancia de g\u00eanero foi a mais citada (67%), com \u00eanfase a contra mulher (72,7%), e a popula\u00e7\u00e3o LGBTI (45%).<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia est\u00e1 na base de muitos processos de adoecimento, por isso \u00e9 necess\u00e1rio incrementar a performance da medicina de fam\u00edlia e da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica\u201d, diz m\u00e9dica de fam\u00edlia Maria Inez Padula Anderson, professora da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e uma das autoras do estudo.<\/p>\n<p>O tema foi discutido durante congresso de medicina de fam\u00edlia e comunidade que ocorreu em Cuiab\u00e1 (MT). Com audit\u00f3rio lotado, v\u00e1rios profissionais se emocionaram ao relatar as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia \u00e0s quais seus pacientes (e muitas vezes eles pr\u00f3prios) s\u00e3o submetidos diariamente.<\/p>\n<p>Por atuarem na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, porta de entrada do SUS, m\u00e9dicos e m\u00e9dicas de fam\u00edlia colecionam in\u00fameras hist\u00f3rias de doen\u00e7as relacionadas \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o casos de m\u00e3es que morrem de tristeza ap\u00f3s o assassinato de filhos, mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica com depress\u00e3o ou ainda as que sofrem estupros e que tentam o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m s\u00e3o comuns relatos de pacientes com crises de hipertens\u00e3o e de ansiedade ap\u00f3s tiroteios em comunidades ou mesmo profissionais que n\u00e3o conseguem trabalhar nesses momentos de tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos primeiros cinco meses deste ano, por exemplo, uma unidade de sa\u00fade no morro da Formiga, no Rio de Janeiro, foi fechada dez vezes em raz\u00e3o de tiroteios.<\/p>\n<p>\u201cNo dia seguinte, a unidade explode de atendimentos, picos hipertensivos, crises de choro. Temos s\u00f3 duas equipes que chegam a fazer cem atendimentos di\u00e1rios\u201d, disse um m\u00e9dico de fam\u00edlia que atua na comunidade.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica Helena Fernandes Ferraz j\u00e1 vivenciou situa\u00e7\u00f5es semelhantes na comunidade do Salgueiro, tamb\u00e9m no Rio. \u201cO n\u00famero de pessoas com press\u00e3o alta, descompensa\u00e7\u00e3o de insufici\u00eancia card\u00edaca, edema agudo de pulm\u00e3o, aumenta muito ap\u00f3s os conflitos. Muitos pacientes j\u00e1 reconhecem como essas situa\u00e7\u00f5es afetam a sua sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p>Nesse contexto, segundo ela, \u00e9 imposs\u00edvel cuidar apenas do paciente individualmente. \u201cA gente \u00e9 m\u00e9dico de fam\u00edlia e comunidade. Se n\u00e3o cuidamos do nosso territ\u00f3rio, n\u00e3o buscamos caminhos para lidar<br \/>\ncom a viol\u00eancia, n\u00e3o conseguimos cuidar do indiv\u00edduo.\u201d<\/p>\n<p>Ferraz cita o exemplo da viol\u00eancia dom\u00e9stica. \u201cAo mesmo tempo em que a gente acolhe a mulher e a aconselha a denunciar o agressor \u00e0 pol\u00edcia, tamb\u00e9m cuidamos do agressor, j\u00e1 que muitas vezes ele \u00e9 morador na mesma comunidade e nosso paciente.\u201d<\/p>\n<p>Essa proximidade, ali\u00e1s, \u00e9 uma das raz\u00f5es que levam muitos m\u00e9dicos a hesitarem a notificar casos de viol\u00eancia contra mulheres e crian\u00e7as, porque temem que seus nomes cheguem ao agressor.<\/p>\n<p>Para Anderson, da Uerj, o agressor deve ser o primeiro a ser comunicado que est\u00e1 cometendo uma viol\u00eancia. \u201cMuitas vezes essas pessoas nem reconhecem a viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Um dos caminhos proposto pela medicina de fam\u00edlia e comunidade para lidar com a viol\u00eancia \u00e9 trabalhar a cultura da paz.<\/p>\n<p>Helena Ferraz conta, por exemplo, que era comum os pais baterem nos filhos enquanto esperavam atendimento m\u00e9dico na unidade de sa\u00fade em que trabalhava.<\/p>\n<p>Surgiu ent\u00e3o a ideia de formar grupos para dar voz a esses pais que, invariavelmente, t\u00eam uma vida marcada pela viol\u00eancia e acabam reproduzindo-a com os filhos.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, s\u00f3 o espa\u00e7o de escuta e a acolhida n\u00e3o s\u00e3o suficientes para dirimir as dores da vida que desembocam na viol\u00eancia\u201d, afirma a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>O adoecimento tamb\u00e9m \u00e9 atribu\u00eddo \u00e0 viol\u00eancia estrutural, definida como qualquer cen\u00e1rio em que uma estrutura social perpetua desigualdade, causando sofrimento evit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Emocionada, Rosane, uma m\u00e9dica de fam\u00edlia de Belo Horizonte, que trabalha na cracol\u00e2ndia da capital mineira, relatou o caso de uma idosa com constipa\u00e7\u00e3o intestinal cr\u00f4nica que n\u00e3o conseguia adotar uma alimenta\u00e7\u00e3o com mais fibras recomendada por ela.<\/p>\n<p>\u201cFia, eu sustento minha filha e quatro netos com sal\u00e1rio m\u00ednimo. Laranja l\u00e1 em casa \u00e9 s\u00f3 no dia do pagamento. Depois \u00e9 s\u00f3 arroz e feij\u00e3o mesmo e olhe l\u00e1\u201d, relatou a m\u00e9dica com a voz embargada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m contou o caso de uma crian\u00e7a diab\u00e9tica tipo 1 cuja m\u00e3e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de comprar produtos diet e sofre com o agravamento da doen\u00e7a do filho. \u201cComo n\u00e3o adoecer diante de tanta mis\u00e9ria e tanta dor? O que a gente faz com essa sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia?\u201d, perguntou Rosane. Na plateia, muitos colegas enxugaram as l\u00e1grimas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP Considerada pela OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade) um dos maiores problemas de sa\u00fade p\u00fablica, a\u00a0viol\u00eancia\u00a0e seus impactos no adoecimento e morte ainda n\u00e3o fazem parte da forma\u00e7\u00e3o e treinamento da maioria dos profissionais de sa\u00fade. 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