{"id":7651,"date":"2019-07-22T10:25:06","date_gmt":"2019-07-22T10:25:06","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=7651"},"modified":"2019-08-27T09:24:00","modified_gmt":"2019-08-27T09:24:00","slug":"artigo-os-paradoxos-da-medicina-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2019\/07\/22\/artigo-os-paradoxos-da-medicina-contemporanea\/","title":{"rendered":"ARTIGO: Os paradoxos da medicina contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p>fonte: CFM<\/p>\n<p>por\u00a0Wilson Luiz Sanvito e Zied Rasslan,\u00a0professores da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Santa Casa de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Os \u00faltimos 60 anos t\u00eam testemunhado profundas transforma\u00e7\u00f5es em todas as esferas da atividade humana. Vivemos na era da imperman\u00eancia, em que os avan\u00e7os cient\u00edfico-tecnol\u00f3gicos, que se sucedem com espantosa rapidez, causam tal impacto nos fen\u00f4menos sociais que muitas vezes geram situa\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas ou mesmo conflitantes no relacionamento humano. A euforia e o \u201coba-oba\u201d diante dos progressos materiais prostram muitos diante das m\u00e1quinas, em uma atitude fetichista de meros adoradores de \u00eddolos materiais. A aten\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos est\u00e1 voltada, sobretudo, para objetos, e n\u00e3o para o ser humano. A revolu\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, por meio de sua principal arma, que \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o, faz dos cidad\u00e3os comuns meros rob\u00f4s.<\/p>\n<p>Efetivamente, os meios de comunica\u00e7\u00e3o nos bombardeiam diariamente com os prod\u00edgios da medicina, criando uma nova mitologia: a da doen\u00e7a sob controle. A medicina contempor\u00e2nea, balizada pelo complexo m\u00e9dico-industrial (ind\u00fastria de equipamentos m\u00e9dicos\/ind\u00fastria farmac\u00eautica) e ancorada na biologia molecular, vem avan\u00e7ando de modo acelerado em todos os campos. A tecnologia m\u00e9dica tornou o homem transparente mediante o estudo das imagens do seu interior e ainda permite ver o homem pelo avesso, por meio de procedimentos endosc\u00f3picos com microc\u00e2meras. O que antigamente eram apenas t\u00e9cnicas diagn\u00f3sticas v\u00eam se tornando, cada vez mais, procedimentos terap\u00eauticos (radiologia intervencionista, cirurgias laparosc\u00f3picas, coloca\u00e7\u00e3o de pr\u00f3teses endovasculares etc.). Esse avan\u00e7o exponencial provoca um frisson n\u00e3o s\u00f3 no meio m\u00e9dico, mas tamb\u00e9m na sociedade \u2013 e a \u201cescatologia cient\u00edfica\u201d passa a imperar.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 um descompasso entre avan\u00e7os m\u00e9dicos e assist\u00eancia m\u00e9dica de qualidade. Existe uma brecha entre a \u201cmedicina cient\u00edfica\u201d e as necessidades dos pacientes. Outro vi\u00e9s da medicina contempor\u00e2nea \u00e9 o modelo m\u00e9dico adotado pela \u201cmedicina oficial\u201d. O modelo \u00e9 biol\u00f3gico (ou bioc\u00eantrico), no qual o corpo humano \u00e9 considerado m\u00e1quina, que pode ser analisada em suas diferentes pe\u00e7as, e a doen\u00e7a \u00e9 encarada como um mau funcionamento dos mecanismos biol\u00f3gicos. Em linhas gerais, esse modelo (priorizado nas escolas m\u00e9dicas) adota o seguinte figurino: 1) o doente como objeto; 2) o m\u00e9dico como mec\u00e2nico; 3) a doen\u00e7a como avaria; 4) o hospital como oficina de consertos. Mas \u00e9 preciso entender que o homem adoece de suas condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas, sociais, culturais e ambientais. Esse modelo biol\u00f3gico, amparado na tecnologia, tornou a pr\u00e1tica m\u00e9dica segmentada, com o superdimensionamento das \u00e1reas especializadas. A exalta\u00e7\u00e3o da explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e os avan\u00e7os t\u00e9cnicos acabaram determinando a atomiza\u00e7\u00e3o do conhecimento, cuja pulveriza\u00e7\u00e3o tornou o m\u00e9dico generalista inseguro e, muitas vezes, mero triador de casos para os especialistas. Por seu lado, o especialista s\u00f3 assume a responsabilidade sobre o \u201c\u00f3rg\u00e3o doente\u201d de sua \u00e1rea. \u00c9 mais ou menos como se o paciente fosse o \u201cseu est\u00f4mago\u201d, o \u201cseu pulm\u00e3o\u201d, ou coisa que o valha. Assim, um m\u00e9dico leva a outro. A consulta com v\u00e1rios m\u00e9dicos acaba corrompendo a intera\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, configurando-se nesse caso \u201ca trama do anonimato\u201d. Regra de ouro: \u00e9 preciso que o doente saiba o nome de seu m\u00e9dico, tanto no sistema p\u00fablico como nos servi\u00e7os m\u00e9dicos conveniados. Deve ser a sua refer\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1, enfim, uma deteriora\u00e7\u00e3o crescente da medicina artesanal (anamnese\/exame f\u00edsico) e uma supervaloriza\u00e7\u00e3o dos exames complementares e de atos m\u00e9dicos t\u00e9cnicos. De sorte que o cen\u00e1rio hoje \u00e9 de uma medicina de pareceres especializados e de natureza hospitaloc\u00eantrica. Esse modelo, al\u00e9m de elevar custos, \u00e9 de baixa efici\u00eancia para um sistema de sa\u00fade abrangente. Vejam o que afirma o m\u00e9dico americano Alvan Feinstein: \u201cA anamnese, o procedimento mais sofisticado de medicina, \u00e9 uma t\u00e9cnica de investiga\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria; em pouqu\u00edssimas outras formas de pesquisa cient\u00edfica o objeto investigado fala\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 o doente quem deve estar no centro do sistema, e n\u00e3o a doen\u00e7a. Diz-se que o bom observador \u00e9 aquele que enxerga a floresta, a \u00e1rvore e a folha. A porta de entrada do sistema de sa\u00fade n\u00e3o deve ser o hospital (a n\u00e3o ser para emerg\u00eancias), e o m\u00e9dico generalista deve ser a refer\u00eancia para o primeiro atendimento. Infelizmente essa \u00e9 uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De qualquer modo, vivemos em uma era privilegiada, pois temos uma ci\u00eancia que substitui um \u00f3rg\u00e3o doente por um sadio, manipula genes, nos proporciona esperan\u00e7as de uma vacina contra o c\u00e2ncer e a aids, e nos acena com os prim\u00f3rdios de uma medicina regenerativa de tecidos com o manejo das c\u00e9lulas-tronco. Bisturi-rob\u00f4, terapia g\u00eanica, implantes de pr\u00f3teses artificiais, procedimentos diagn\u00f3sticos preditivos, f\u00e1rmacos inteligentes\u2026 para onde caminha a medicina? Certamente nos avan\u00e7os caminha bem, mas um discurso triunfalista da medicina s\u00f3 se justifica quando essa excel\u00eancia estiver ao alcance de toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea assistencial alguns at\u00e9 se questionam se n\u00e3o estamos caminhando rumo a uma antimedicina. Seria esse o caos de transi\u00e7\u00e3o ao qual sucederia uma nova medicina do paciente? Sabe-se l\u00e1! Segundo as palavras deliciosamente ir\u00f4nicas de um falso prov\u00e9rbio chin\u00eas, \u201c\u00e9 extremamente dif\u00edcil profetizar, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao futuro\u201d. Observa-se at\u00e9 mesmo brecha no relacionamento entre m\u00e9dico generalista e m\u00e9dico especialista. O corpo m\u00e9dico vai se tornando, na linguagem de Franck-Brentano, uma imensa torre de Babel em que cada especialista fala sua l\u00edngua, mais ou menos herm\u00e9tica, a seus colegas. Para remediar essa \u201cbabeliza\u00e7\u00e3o\u201d e proporcionar maior entrosamento entre m\u00e9dicos de v\u00e1rias \u00e1reas, seriam recomend\u00e1veis reuni\u00f5es gerais nos hospitais, al\u00e9m de educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica continuada para m\u00e9dicos generalistas.<\/p>\n<p>A porta de entrada do sistema de sa\u00fade (Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u2013 SUS e conv\u00eanios m\u00e9dicos) deveria ser aberta por m\u00e9dicos generalistas (cl\u00ednicos, ginecologistas, pediatras e cirurgi\u00f5es) bem formados. Eles deveriam ser uma esp\u00e9cie de curinga do sistema de sa\u00fade e, portanto, aptos a lidar com uma sinusite, cefaleia prim\u00e1ria, micose superficial ou pneumonia comunit\u00e1ria, sem necessidade de encaminhamento para especialistas. Por outro lado, os avan\u00e7os da medicina n\u00e3o s\u00e3o acompanhados pelo aumento da satisfa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos. Eles s\u00e3o mal remunerados e precisam (para sobreviver) de v\u00e1rios empregos, onde as condi\u00e7\u00f5es de trabalho nem sempre s\u00e3o adequadas. Al\u00e9m disso, o m\u00e9dico n\u00e3o forma v\u00ednculo com o paciente que \u00e9 usu\u00e1rio de uma institui\u00e7\u00e3o ou de um conv\u00eanio m\u00e9dico. Assim, a intera\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente-fam\u00edlia, que deve tranquilizar, aliviar a dor, o medo, o sofrimento e a apreens\u00e3o, fica arruinada.<\/p>\n<p>Que recurso tecnol\u00f3gico pode substituir esse aspecto humano da medicina? Os elementos contidos nessa intera\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser substitu\u00eddos por nenhuma tecnologia m\u00e9dica, uma vez que s\u00e3o virtudes exclusivas dos seres humanos.<\/p>\n<p>No Brasil, o sistema p\u00fablico de sa\u00fade (SUS) \u00e9 de baixa efici\u00eancia em virtude de fraudes, desperd\u00edcios, modelo de gest\u00e3o inadequado e v\u00edcios estruturais, como a concentra\u00e7\u00e3o de atendimento em hospitais nos m\u00e9dios e grandes centros urbanos. O modelo hospitaloc\u00eantrico encarece o custo por paciente, porque quase todo atendimento acaba se tornando complexo; al\u00e9m disso, ele n\u00e3o \u00e9 de boa qualidade. \u00c9 preciso deslocar o eixo, priorizando a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em uma rede bem gerenciada. O setor p\u00fablico tem que adotar esse modelo, o qual, bem administrado, resolve mais de 80% dos problemas de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. Tem que incentivar a pr\u00e1tica de medicina comunit\u00e1ria, atuar pesadamente na medicina preventiva (vacina\u00e7\u00f5es, saneamento b\u00e1sico etc.), mobilizar recursos financeiros e humanos para o controle das endemias. \u00c9 preciso criar no sistema p\u00fablico de sa\u00fade a carreira do m\u00e9dico, com crit\u00e9rios pautados (para a sua ascens\u00e3o) na produtividade e meritocracia, e n\u00e3o apenas no tempo de servi\u00e7o. Urge remunerar melhor estes profissionais e acabar com os m\u00faltiplos v\u00ednculos, que os levam \u00e0 exaust\u00e3o e, consequentemente, \u00e0 baixa qualidade de assist\u00eancia ao paciente. O modelo vigente penaliza m\u00e9dicos e pacientes.<\/p>\n<p>Lamentavelmente estamos assistindo a uma desumaniza\u00e7\u00e3o crescente da medicina. Muitas vari\u00e1veis concorrem para que esse fen\u00f4meno ocorra: mercantiliza\u00e7\u00e3o da medicina, altos custos operacionais dos atos m\u00e9dicos em um pa\u00eds de recursos escassos, aus\u00eancia de sistema p\u00fablico de sa\u00fade eficiente, subfinanciamento da sa\u00fade p\u00fablica, fal\u00eancia das universidades na sua miss\u00e3o formadora de profissionais da \u00e1rea, baixa remunera\u00e7\u00e3o dos profissionais da sa\u00fade, al\u00e9m de condi\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>Pensamos que, para mudar essa situa\u00e7\u00e3o, um conjunto de medidas deve ser implementado nas \u00e1reas da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Sem uma revolu\u00e7\u00e3o nessas \u00e1reas, n\u00e3o temos futuro como grande pot\u00eancia. \u00c9 preciso fazer alguma coisa, pois como diz um prov\u00e9rbio chin\u00eas (este verdadeiro): \u201cUma caminhada de mil l\u00e9guas come\u00e7a com o primeiro passo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: CFM por\u00a0Wilson Luiz Sanvito e Zied Rasslan,\u00a0professores da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Santa Casa de S\u00e3o Paulo Os \u00faltimos 60 anos t\u00eam testemunhado profundas transforma\u00e7\u00f5es em todas as esferas da atividade humana. 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