{"id":7805,"date":"2019-08-19T15:23:21","date_gmt":"2019-08-19T15:23:21","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=7805"},"modified":"2019-08-21T09:41:27","modified_gmt":"2019-08-21T09:41:27","slug":"artigo-medicos-defendem-que-o-termo-burnout-e-um-equivoco-estamos-sofrendo-danos-morais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2019\/08\/19\/artigo-medicos-defendem-que-o-termo-burnout-e-um-equivoco-estamos-sofrendo-danos-morais\/","title":{"rendered":"ARTIGO: M\u00e9dicos defendem que o termo &#8216;burnout&#8217; \u00e9 um equ\u00edvoco: &#8220;estamos sofrendo danos morais&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Medscape<\/p>\n<p>por\u00a0Dra. Wendy Dean; Austin Charles Dean; Dr. Simon G. Talbot.<\/p>\n<p>Seria o\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0o\u00a0<em>gaslighting<\/em>\u00a0da sa\u00fade?<\/p>\n<p><em>Gaslighting<\/em>\u00a0refere-se a um tipo de manipula\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que induz a pessoa a questionar a pr\u00f3pria sanidade com o intuito de obter alguma vantagem. Seja intencional ou n\u00e3o, esta atitude traz repercuss\u00f5es importantes para a pessoa afetada que, neste caso, podem ser os m\u00e9dicos do nosso combalido sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>O termo vem do filme\u00a0<a href=\"http:\/\/www.tcm.com\/tcmdb\/title\/166\/Gaslight\/articles.html\"><em>Gaslight<\/em>\u00a0<\/a>(\u00c0 Meia Luz, em portugu\u00eas), de 1944, no qual o marido da protagonista constantemente aumenta e diminui as luzes dos lampi\u00f5es a g\u00e1s que iluminam a casa, enquanto vai escondido ao s\u00f3t\u00e3o buscar objetos de valor. Quando a mulher questiona a altern\u00e2ncia da luz, o marido insiste que n\u00e3o houve mudan\u00e7a nenhuma e afirma que ela est\u00e1 imaginando coisas. O marido invalida as percep\u00e7\u00f5es da esposa, e a faz duvidar da pr\u00f3pria sanidade.<\/p>\n<p>Atualmente, um fen\u00f4meno semelhante est\u00e1 ocorrendo com os m\u00e9dicos por conta do estresse vivenciado como resultado da sinuca de bico na qual esses profissionais se encontram em fun\u00e7\u00e3o das controversas rela\u00e7\u00f5es de trabalho inerentes ao sistema de sa\u00fade norte-americano. Pesquisas n\u00e3o acad\u00eamicas, elaboradas para identificar o\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0em outras popula\u00e7\u00f5es e adaptadas para o setor sa\u00fade, t\u00eam sido muito usadas. Elas revelaram n\u00edveis impressionantes de estresse no exerc\u00edcio da medicina. No entanto, com muita frequ\u00eancia, esses resultados n\u00e3o se desdobraram no aprofundamento das quest\u00f5es ou na busca de compreender se est\u00e1 correto definir o desgaste dos m\u00e9dicos como\u00a0<em>burnout<\/em>.<\/p>\n<p>O termo\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0sugere que os m\u00e9dicos n\u00e3o s\u00e3o suficientemente resilientes ou eficientes, ou seja, que o problema reside na pessoa, que de alguma forma est\u00e1 deixando a desejar. Os m\u00e9dicos t\u00eam considerado o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o \u00e1rduo, mas n\u00e3o achamos que\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0seja o termo adequado.<\/p>\n<p>N\u00e3o acreditamos que os m\u00e9dicos apresentem\u00a0<em>burnout<\/em>, achamos que eles est\u00e3o sendo v\u00edtimas de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.statnews.com\/2018\/07\/26\/physicians-not-burning-out-they-are-suffering-moral-injury\/\">danos morais<\/a>. O dano moral ocorre quando perpetramos, testemunhamos ou n\u00e3o conseguimos impedir um ato que transgrida nossas cren\u00e7as morais mais profundas. No contexto da sa\u00fade, essa transgress\u00e3o \u00e9 causada pela necessidade de realizar a imposs\u00edvel tarefa de satisfazer o paciente, o hospital, a seguradora e a n\u00f3s mesmos de uma s\u00f3 vez. O dano moral permite determinar a origem do desgaste de forma externa ao m\u00e9dico e como parte do modelo de neg\u00f3cios dos sistemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Os sistemas de sa\u00fade t\u00eam buscado solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis para o estresse do m\u00e9dico, com foco no bem-estar (ioga, retiros e aulas de autocuidado), mas isso \u00e9 um equ\u00edvoco. Encontrar solu\u00e7\u00f5es exige que abordemos o real problema: uma dificuldade inerente \u00e0 estrutura do setor sa\u00fade. Dizer aos m\u00e9dicos que eles t\u00eam\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0sem reconhecer a causa do seu sofrimento configura\u00a0<em>gaslighting<\/em>.<\/p>\n<p>Anos de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e capacita\u00e7\u00e3o \u00e1rduas aumentaram a resili\u00eancia do m\u00e9dico. N\u00f3s sabemos o que \u00e9 preciso para que uma pessoa fique bem. Manter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, ter boas noites de sono, fazer exerc\u00edcios e estar com a fam\u00edlia s\u00e3o boas maneiras de manter o bem-estar f\u00edsico e mental. No entanto, escutamos repetidas vezes que o problema \u00e9 a nossa falta de resili\u00eancia, que estamos frustrados e desiludidos por n\u00e3o cuidarmos suficientemente bem de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Mas, como uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel ou passar um final de semana em um retiro de ioga e medita\u00e7\u00e3o poderia aumentar a nossa capacidade de atuar em um sistema de sa\u00fade falido? Hoje em dia, ser um profissional de sa\u00fade implica administrar os dilemas resultantes de tentar fazer o que \u00e9 certo para os pacientes, o empregador, as seguradoras e para n\u00f3s mesmos, tudo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando confrontados com essas escolhas, n\u00e3o podemos escolher colocar os pacientes em primeiro lugar. Cada vez que precisamos priorizar o empregador, o sistema hospitalar, a situa\u00e7\u00e3o financeira do paciente ou da seguradora em vez das necessidades do paciente, somos lesados no que tange o nosso objetivo maior, que \u00e9 cuidar dos pacientes em primeiro lugar. O ac\u00famulo disso tudo configura dano moral.<\/p>\n<p>Somos um cabo de guerra que est\u00e1 sendo puxado para todos os lados, e praticamente nenhum se aproxima de prestar o melhor atendimento ao paciente, que \u00e9 ao que dedicamos as nossas vidas quando entramos na faculdade de medicina.<\/p>\n<p>N\u00e3o se engane, nenhuma institui\u00e7\u00e3o nefasta \u00e9 a \u00fanica respons\u00e1vel por esta situa\u00e7\u00e3o. Nenhum administrador sozinho est\u00e1 tomando decis\u00f5es com a inten\u00e7\u00e3o de prejudicar a pr\u00f3pria equipe.<\/p>\n<p>Em vez disso, o foco no\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0e no aumento da resili\u00eancia surgiram como resposta \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico. E, na aus\u00eancia de uma alternativa, os pesquisadores adotaram o termo como explica\u00e7\u00e3o, porque os sintomas pareciam os mesmos. Al\u00e9m disso, j\u00e1 existiam programas comercializados utilizados em outras profiss\u00f5es, que os administradores (que tamb\u00e9m estavam sobrecarregados) poderiam usar como solu\u00e7\u00f5es prontas para lidar com o estresse de seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Infelizmente, as pesquisas confirmaram que os m\u00e9dicos estavam com dificuldades, mas a maioria dos invent\u00e1rios de\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0usados n\u00e3o avaliou os problemas dos sistemas de sa\u00fade que os m\u00e9dicos apontavam como a origem desse estresse. Depois que o diagn\u00f3stico de\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0foi feito, todos n\u00f3s falhamos em repensar esta conclus\u00e3o, mesmo quando os m\u00e9dicos continuaram a apresentar\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0apesar dos v\u00e1rios tipos de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es para isso \u00e9 que houve um desgaste da parceria entre m\u00e9dicos, outros profissionais da sa\u00fade, administradores, seguradoras e at\u00e9 parlamentares para a compreens\u00e3o do impacto das mudan\u00e7as nas pol\u00edticas e regula\u00e7\u00f5es sobre a pr\u00e1tica cl\u00ednica. Na maioria dos casos faltou uma contribui\u00e7\u00e3o significativa dos m\u00e9dicos antes que a lideran\u00e7a (em muitos n\u00edveis) tomasse decis\u00f5es sobre como os cuidados seriam prestados, quais seriam os incentivos aos m\u00e9dicos ou como as horas de trabalho seriam alocadas.<\/p>\n<p>Embora qualquer uma das decis\u00f5es isoladas dos reguladores, parlamentares e administradores pare\u00e7a inofensiva, o somat\u00f3rio dessas decis\u00f5es virou um emaranhado de exig\u00eancias contradit\u00f3rias no consult\u00f3rio, o que, por sua vez, levou a uma epidemia de danos morais \u00e0 medida que os m\u00e9dicos tentam fazer o imposs\u00edvel a cada atendimento.<\/p>\n<p>O principal pecado dos administradores \u00e9 n\u00e3o estarem dando aten\u00e7\u00e3o ao que os profissionais na linha de frente est\u00e3o dizendo, e n\u00e3o promoverem mudan\u00e7as significativas em fun\u00e7\u00e3o destes relatos. A principal dificuldade dos m\u00e9dicos \u00e9 o fato de n\u00e3o termos transformado em prioridade falar sobre a nossa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Para as institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade implementarem mudan\u00e7as que realmente melhorem o bem-estar do m\u00e9dico, elas precisam ouvir sobre a experi\u00eancia de trabalho desses profissionais. Os m\u00e9dicos precisam participar de grupos focais, de sess\u00f5es de discuss\u00e3o e de pesquisas dissertativas verdadeiramente confidenciais feitas pela lideran\u00e7a, a fim de saber sobre a real situa\u00e7\u00e3o de trabalho. Eles precisam testemunhar a institui\u00e7\u00e3o onde trabalham se posicionar contra outra avalia\u00e7\u00e3o de desempenho, outro requisito regulat\u00f3rio ou outra pesquisa de satisfa\u00e7\u00e3o. Eles precisam ver mudan\u00e7as no ambiente de trabalho em fun\u00e7\u00e3o do retorno compartilhado com a chefia ou nos recursos alocados para o atendimento. Os m\u00e9dicos precisam perceber que os administradores est\u00e3o fazendo um esfor\u00e7o conjunto para compreender seu sofrimento e para fazer mudan\u00e7as verdadeiras a fim de mitigar os fatores causadores.<\/p>\n<p>Os administradores tamb\u00e9m deveriam ser inclu\u00eddos na presta\u00e7\u00e3o de cuidados como membros regulares da equipe nas visitas, na cl\u00ednica ou na popula\u00e7\u00e3o. Presenciar os m\u00e9dicos tentando criar estrat\u00e9gias terap\u00eauticas enquanto lidam com os dilemas seria \u00fatil. Observ\u00e1-los trabalhando desta forma por 60 horas (ou mais) todas as semanas, o ano inteiro, seria revelador. Isso poderia ajud\u00e1-los a perceber que estamos vivenciando algo maior do que\u00a0<em>burnout<\/em>, e que, ao perpetrar o\u00a0<em>gaslighting<\/em>, dizendo que programas de bem-estar ir\u00e3o resolver o nosso estresse, eles s\u00f3 conseguir\u00e3o alienar os m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Os desafios na sa\u00fade s\u00e3o enormes e afetam a todos \u2013 pacientes, m\u00e9dicos e administradores. \u00c9 hora de fazer um esfor\u00e7o conjunto para entender a perspectiva do m\u00e9dico e esse ambiente de estresse moral. S\u00f3 ent\u00e3o podemos fazer o que \u00e9 realmente necess\u00e1rio: trabalhar juntos a servi\u00e7o dos pacientes que confiam em n\u00f3s para serem cuidados.<\/p>\n<p>Quando os m\u00e9dicos deixam de ouvir os pacientes e de entender suas circunst\u00e2ncias \u00fanicas, correm o risco de perder oportunidades diagn\u00f3sticas e terap\u00eauticas importantes. Quando a lideran\u00e7a organizacional n\u00e3o ouve atentamente as causas do sofrimento dos m\u00e9dicos, nenhum progresso significativo pode ser feito para alivi\u00e1-lo. Nenhum tipo de dieta saud\u00e1vel, descanso ou exerc\u00edcio resolver\u00e1 o que nos aflige.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos superar um sistema de sa\u00fade disfuncional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Medscape por\u00a0Dra. Wendy Dean; Austin Charles Dean; Dr. Simon G. Talbot. Seria o\u00a0burnout\u00a0o\u00a0gaslighting\u00a0da sa\u00fade? Gaslighting\u00a0refere-se a um tipo de manipula\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que induz a pessoa a questionar a pr\u00f3pria sanidade com o intuito de obter alguma vantagem. 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