{"id":8587,"date":"2019-11-26T16:42:32","date_gmt":"2019-11-26T16:42:32","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=8587"},"modified":"2019-11-26T16:42:32","modified_gmt":"2019-11-26T16:42:32","slug":"artigo-o-sus-esta-vivinho-da-silva-e-o-sonho-de-consumo-em-muitos-paises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2019\/11\/26\/artigo-o-sus-esta-vivinho-da-silva-e-o-sonho-de-consumo-em-muitos-paises\/","title":{"rendered":"ARTIGO: &#8220;O SUS est\u00e1 vivinho da Silva. \u00c9 o sonho de consumo em muitos pa\u00edses&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Viva Bem\/UOL<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Renato Tasca, coordenador de sistemas e servi\u00e7os de sa\u00fade da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPAS) no Brasil, \u00e9 italiano de Turim. N\u00e3o perdeu o sotaque, mas incorporou express\u00f5es e g\u00edrias brasileir\u00edssimas em uma d\u00e9cada de andan\u00e7as pelo pa\u00eds. Observador atento dos sucessos e desafios do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), Tasca acredita que ele est\u00e1 \u201cvivinho da Silva\u201d e precisa ser valorizado pelos brasileiros. \u201cO SUS \u00e9 o sonho de consumo dos cidad\u00e3os de muitos pa\u00edses\u201d.<\/p>\n<p>Por que o sr. diz que o SUS est\u00e1 vivinho da Silva?<\/p>\n<p>Renato Tasca: Existe certa opini\u00e3o negativa em rela\u00e7\u00e3o ao SUS e \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica em geral. Pensam que o Estado tira o dinheiro dos cidad\u00e3os, por meio de impostos, como se isso fosse uma fun\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria. Acham que funcion\u00e1rios p\u00fablicos s\u00e3o parasitas que aquecem cadeiras e se envolvem em corrup\u00e7\u00e3o. Uma das formas de destruir esse mito \u00e9 dar visibilidade aos her\u00f3is silenciosos que trabalham, cotidianamente, em situa\u00e7\u00f5es muito complicadas, com poucos recursos, em contextos dif\u00edceis e com chefes que n\u00e3o ajudam. E, mesmo assim, realizam coisas muito importantes no SUS.<\/p>\n<p>\u00c9 essa for\u00e7a de trabalho t\u00e3o comprometida que mant\u00e9m o SUS vivinho da Silva?<\/p>\n<p>Renato Tasca: O SUS \u00e9 feito de pessoas. N\u00e3o s\u00e3o os equipamentos, os hospitais. S\u00e3o as pessoas: os m\u00e9dicos, as enfermeiras, os profissionais de sa\u00fade etc. \u00c9 fundamental manter a motiva\u00e7\u00e3o deles. O setor p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 como o setor privado, no qual os profissionais s\u00e3o incentivados para produzir lucro. O setor privado produz um valor monet\u00e1rio. As pessoas s\u00e3o recompensadas de acordo com a contribui\u00e7\u00e3o delas para a obten\u00e7\u00e3o desse lucro. Se eu vendo 10 planos de sa\u00fade e o meu colega vende 20, ele vai ter que ganhar mais do que eu. O resultado \u00e9 muito vis\u00edvel.<\/p>\n<p>O desafio de medir desempenho<\/p>\n<p>Medir desempenho no setor p\u00fablico \u00e9 mais dif\u00edcil? Renato Tasca: \u00c9 complicado definir o que \u00e9 performance. O valor que se produz \u00e9 um valor p\u00fablico \u2013 n\u00e3o \u00e9 o lucro. E n\u00e3o basta apenas verificar se a doen\u00e7a foi curada ou controlada. Existe tamb\u00e9m uma parte intang\u00edvel. \u00c9 o caso da humaniza\u00e7\u00e3o, por exemplo. H\u00e1 pessoas (principalmente os idosos) que procuram a unidade de sa\u00fade s\u00f3 para conversar. Fazem isso porque \u00e9 a \u00fanica forma de contato que eles t\u00eam com outras pessoas. Isso \u00e9 efici\u00eancia? Possivelmente, n\u00e3o. Mas tem um valor p\u00fablico enorme. S\u00e3o valores dif\u00edceis de medir com indicadores cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>O et\u00edope Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), diz que a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e9 o lugar onde se ganha ou se perde a batalha da sa\u00fade humana. O sr. concorda?<\/p>\n<p>Renato Tasca: No futuro, com intelig\u00eancia artificial, n\u00e3o sei como ser\u00e3o as coisas \u2013 pode ser que elas mudem para pior. Mas hoje n\u00e3o h\u00e1 como manter um sistema universal como o SUS sem fortalecer a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Ela \u00e9 o ponto mais pr\u00f3ximo entre o Estado e o cidad\u00e3o. \u00c9 o momento do encontro. \u00c9 ali que voc\u00ea vai interceptar a demanda que chega. \u00c9 por meio dessa primeira porta de acesso que voc\u00ea organiza a rede de servi\u00e7os. Se n\u00e3o tem isso, se a pessoa vai direto a uma unidade\u00a0 de pronto atendimento (UPA), aquilo ali n\u00e3o tem continuidade. \u00c9 um atendimento epis\u00f3dico. Com uma aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria forte, o sistema tem melhor resultado, mais satisfa\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios, menos erros m\u00e9dicos, melhores encaminhamentos. N\u00e3o basta ter apenas aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, mas ela viabiliza o funcionamento org\u00e2nico racional de todos os servi\u00e7os.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade anunciou recentemente um novo formato de financiamento da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Qual \u00e9 a opini\u00e3o do sr. sobre essa mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>Renato Tasca: A opini\u00e3o da OPAS sobre isso n\u00e3o \u00e9 relevante. \u00c9 uma quest\u00e3o muito espec\u00edfica, que diz respeito a mudan\u00e7as de cadastramento e de modelo de financiamento. Acho que o debate n\u00e3o \u00e9 tanto sobre como financiar. O debate \u00e9 se esse novo modelo ter\u00e1 realmente condi\u00e7\u00e3o de fortalecer a APS. A princ\u00edpio n\u00e3o opino, n\u00e3o formo nenhum julgamento. Essa \u00e9 uma medida que tem que ser aprovada e implementada. Depois veremos os resultados. Se eles forem bons, seremos os primeiros a aplaudir. A priori, ningu\u00e9m pode dizer se \u00e9 bom ou ruim.\u00a0Se eu der alguma opini\u00e3o, ser\u00e1 achismo. No papel, toda proposta \u00e9 boa. Concordamos com os pressupostos dessa iniciativa. Ouvi muitas opini\u00f5es contra e muitas a favor. Acho que cada um tem argumentos.<\/p>\n<p>O papel do setor privado<\/p>\n<p>Existe uma onda que defende a privatiza\u00e7\u00e3o como \u00fanica alternativa poss\u00edvel para o SUS?<\/p>\n<p>Renato Tasca: Essa narrativa existe, mas algumas argumenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o m\u00edticas. H\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica segundo a qual o SUS \u00e9 ineficiente, um projeto perdedor. Outro mito \u00e9 a cren\u00e7a de que o SUS n\u00e3o precisa de mais dinheiro. Bastaria torn\u00e1-lo mais eficiente. N\u00e3o \u00e9 verdade. O SUS \u00e9 claramente subfinanciado. Em todos os pa\u00edses que t\u00eam sistema de sa\u00fade universal, a maioria dos gastos em sa\u00fade deveria ser para o setor p\u00fablico. No Brasil, gastamos quase 9% do PIB em sa\u00fade em 2015. S\u00f3 que menos da metade desse dinheiro foi para o SUS.\u00a0Somos um pa\u00eds com um perfil totalmente desequilibrado de gasto em sa\u00fade. Temos um gasto privado muito importante e um gasto p\u00fablico insuficiente. N\u00e3o chegamos a 4% do PIB quando, internacionalmente, se diz que um sistema p\u00fablico universal deveria chegar a 6% do PIB. Estamos muito atr\u00e1s. O subfinanciamento \u00e9 real, mas melhorar a gest\u00e3o \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o papel do setor privado na gest\u00e3o do SUS?<\/p>\n<p>Renato Tasca: O setor privado, quando \u00e9 chamado segundo uma l\u00f3gica saud\u00e1vel, pode contribuir. O SUS j\u00e1 nasceu com o privado em seu DNA, mas acho que dever\u00edamos procurar uma rela\u00e7\u00e3o diferente entre o p\u00fablico e o privado. Hoje parece que eles s\u00e3o dois boxeadores, um tentando acertar o outro primeiro. \u00c9 preciso achar outros caminhos para que seja, realmente, uma rela\u00e7\u00e3o ganha- ganha. N\u00e3o pode ser como \u00e9 hoje, em que ganha um ou ganha o outro, mas a popula\u00e7\u00e3o pode perder. O setor privado pode dar ideias e, de alguma forma, contribuir para a gest\u00e3o. A gest\u00e3o do SUS \u00e9 participativa.\u00a0Todos os agentes sociais (cidad\u00e3os, empresas etc) est\u00e3o envolvidos. Mas o fato de o setor participar diretamente na execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer dizer que ele tenha que participar do planejamento do sistema. At\u00e9 porque h\u00e1 conflitos de interesse a\u00ed. A principal cr\u00edtica feita \u00e0s ag\u00eancias reguladoras \u00e9 que, quando os interesses privados entram nas ag\u00eancias, come\u00e7a a dar problema. O Estado tem que cuidar dos interesses da popula\u00e7\u00e3o. O setor privado tem que pensar na sua responsabilidade social para com o pa\u00eds, mas fundamentalmente, ele pensa no lucro.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o efeito de pol\u00edticas de austeridade, como a Emenda Constitucional 95, de 2016,\u00a0 que congelou os investimentos em sa\u00fade por 20 anos?<\/p>\n<p>Renato Tasca: O \u00faltimo lugar onde eu colocaria austeridade seria em um programa social \u2013 sobretudo na \u00e1rea da sa\u00fade. O SUS tem que ser fortalecido. Ele tem mais impacto que o Bolsa Fam\u00edlia. Para receber o Bolsa Fam\u00edlia, as pessoas precisam vacinar os filhos e cumprir outras exig\u00eancias. Um programa potencializa os efeitos do outro. O Brasil vive uma crise econ\u00f4mica danada que afeta principalmente os mais pobres. Isso se reflete negativamente nos indicadores de sa\u00fade. A perspectiva n\u00e3o \u00e9 positiva.<\/p>\n<p>O problema do SUS \u00e9 a administra\u00e7\u00e3o direta?<\/p>\n<p>Renato Tasca: Esse \u00e9 outro mito. Falam do SUS como se houvesse nele uma inefici\u00eancia intr\u00ednseca. Uma coisa podre que n\u00e3o pode mais melhorar. Segundo esse mito, a \u00fanica forma de tornar o SUS mais eficiente seria tirar a gest\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o direta e passar para outros tipos de organiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou dizendo que as Organiza\u00e7\u00f5es Sociais de Sa\u00fade (OSS) s\u00e3o ruins, mas elas s\u00e3o apenas um instrumento. \u00c9 como um carro. Quem faz a OSS funcionar s\u00e3o as pessoas. H\u00e1 OSS maravilhosas e outras muito ruins \u2013 coisa de tubar\u00f5es, de tiranossauros.\u00a0Alguns servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o uma porcaria, mas o mesmo acontece no setor privado. O privado tem mais efici\u00eancia no que diz respeito \u00e0 flexibilidade operacional, pode contratar recursos humanos e fazer compras mais facilmente.<\/p>\n<p>Ser eficiente ou ser eficaz?<\/p>\n<p>Ser eficiente (fazer mais com o or\u00e7amento dispon\u00edvel) deve ser o foco do SUS?<\/p>\n<p>Renato Tasca: Quando fala em efici\u00eancia no SUS, o Banco Mundial, por exemplo, foca muito em efici\u00eancia operacional administrativa: compras, corrup\u00e7\u00e3o, abusos, fraudes etc. Mas eles n\u00e3o se debru\u00e7am sobre o tema da pertin\u00eancia dos servi\u00e7os. Um hospital pode ser muito eficiente em fazer resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. Com um or\u00e7amento X, ele consegue fazer 200 exames de alta qualidade. O problema \u00e9 que, talvez, a maioria dessas resson\u00e2ncias seja desnecess\u00e1ria. O que isso quer dizer? Esse hospital \u00e9 muito eficiente em desperdi\u00e7ar dinheiro. O SUS tem que se preocupar em ser eficaz.Ele tem que resolver os problemas de sa\u00fade. O objetivo principal n\u00e3o deve ser eficiente. Para ser eficiente, o SUS n\u00e3o poderia ser universal. Como vou atender regi\u00f5es ribeirinhas, ir a aldeias ind\u00edgenas? \u00c9 tudo longe, complicado. Se pensarmos em efici\u00eancia, conclu\u00edmos que n\u00e3o vale a pena ir at\u00e9 l\u00e1. Mas a Constitui\u00e7\u00e3o diz que a sa\u00fade \u00e9 para todos. Ou seja: o SUS assume a\u00e7\u00f5es que t\u00eam inefici\u00eancia intr\u00ednseca. Esse papo de que o SUS \u00e9 ineficiente \u00e9 muito superficial. \u00c9 \u00f3bvio que o SUS precisa adotar medidas para ser mais eficiente, mas a efici\u00eancia n\u00e3o pode acabar com os princ\u00edpios de universalidade, integralidade e gratuidade dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>De que forma o SUS ameniza a desigualdade social?<\/p>\n<p>Renato Tasca: O SUS \u00e9 o maior programa social do Brasil. Imagine os pobres, as pessoas sem emprego, as mais afetadas pela crise\u2026 Imagine se elas tivessem que usar o pouco dinheiro que t\u00eam para vacinar os filhos, fazer pr\u00e9-natal e ir ao m\u00e9dico \u2013 tudo no sistema privado. Seria uma coisa terr\u00edvel. Na maioria dos pa\u00edses e, sobretudo, naqueles do tamanho do Brasil (China e \u00cdndia), n\u00e3o existe nada como o SUS. Se o pobre quiser uma cura, tem que pagar. Ter um SUS \u00e9 o grande sonho de consumo dos cidad\u00e3os de muitos pa\u00edses. Nos Estados Unidos, o n\u00famero de fam\u00edlias que se ferram, que perdem tudo por causa de contas de hospital \u00e9 enorme.\u00a0O av\u00f4 teve um AVC, foi para a UTI, morreu, e a fam\u00edlia recebe uma conta de US$ 200 mil ou mais. Tem que vender a casa, o carro, tudo o que tiver. No SUS, isso n\u00e3o acontece. Os brasileiros n\u00e3o percebem, mas o SUS tem uma relev\u00e2ncia enorme no mundo. O Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds com mais de 100 milh\u00f5es de habitantes com um sistema universal que funciona. O SUS foi criado como um programa social que vai muito al\u00e9m da aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. \u00c9 uma pena que hoje todo o esfor\u00e7o na cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do sistema n\u00e3o seja reconhecido. Hoje as pessoas acreditam mais em fake news do que em um artigo cient\u00edfico publicado no\u00a0The Lancet. N\u00e3o podemos desistir. \u00c9 preciso acabar com a narrativa de que o SUS n\u00e3o funciona.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Viva Bem\/UOL O m\u00e9dico Renato Tasca, coordenador de sistemas e servi\u00e7os de sa\u00fade da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPAS) no Brasil, \u00e9 italiano de Turim. N\u00e3o perdeu o sotaque, mas incorporou express\u00f5es e g\u00edrias brasileir\u00edssimas em uma d\u00e9cada de andan\u00e7as pelo pa\u00eds. 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