{"id":9703,"date":"2020-05-04T13:07:55","date_gmt":"2020-05-04T13:07:55","guid":{"rendered":"http:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/?p=9703"},"modified":"2020-05-12T11:59:59","modified_gmt":"2020-05-12T11:59:59","slug":"historia-e-pandemia-licoes-de-um-passado-que-se-repete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/2020\/05\/04\/historia-e-pandemia-licoes-de-um-passado-que-se-repete\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria e pandemia: li\u00e7\u00f5es de um passado que se repete"},"content":{"rendered":"<p>fonte: FAPERJ<\/p>\n<p>A pandemia causada pelo coronav\u00edrus, que j\u00e1 provocou mais de cinco mil mortes, apenas no Brasil, n\u00e3o \u00e9 a primeira a assolar a humanidade. Um olhar sobre o passado revela que as epidemias ocorrem em um movimento c\u00edclico, deixando marcas recorrentes na trajet\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. \u201cAntes do coronav\u00edrus, a pandemia mais abrangente e grave foi a Gripe Espanhola, de 1918, causada pelo v\u00edrus Influenza. Estima-se que pelo menos 50 milh\u00f5es de pessoas morreram no mundo. Mas muitas outras epidemias s\u00e3o relatadas ao longo da hist\u00f3ria, como a Praga de Atenas, na Gr\u00e9cia, de 430 a. C, associada \u00e0 febre tifoide; a Peste Negra, que dizimou entre um ter\u00e7o e metade da popula\u00e7\u00e3o da Europa Ocidental durante a Idade M\u00e9dia, causada pela peste bub\u00f4nica, transmitida pela pulga dos ratos; a var\u00edola, com relatos de casos desde a \u00e9poca do Antigo Egito, tendo em vista que m\u00famias, como a de Rams\u00e9s V, de 1157 a.C, apresentam sinais t\u00edpicos de var\u00edola; e a c\u00f3lera, entre tantas outras\u201d, contextualizou o professor Luiz Antonio Teixeira, que \u00e9 pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (COC\/Fiocruz).<\/p>\n<p>Professor da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade da Fam\u00edlia da Universidade Est\u00e1cio de S\u00e1 (Unesa), Teixeira\u00a0lembra que a hist\u00f3ria das epidemias revela padr\u00f5es de comportamento humanos, comuns em situa\u00e7\u00f5es extremas. \u201cO historiador americano Charles Rosenberg, especialista em Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia e da Medicina na Universidade de Harvard, diz que as grandes epidemias s\u00e3o como pe\u00e7as tr\u00e1gicas, com as mesmas estruturas: primeiro, h\u00e1 um grande medo em rela\u00e7\u00e3o ao surgimento da epidemia; depois, ocorre uma tentativa de mistific\u00e1-la, negando a sua exist\u00eancia ou minimizando seu alcance, com o discurso de que a doen\u00e7a n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o forte; e, finalmente, h\u00e1 a aceita\u00e7\u00e3o do problema e a tentativa de resolu\u00e7\u00e3o\u201d, citou o pesquisador, que recebe apoio da FAPERJ para a realiza\u00e7\u00e3o de suas pequisas por meio do programa\u00a0<em>Cientista do Nosso Estado<\/em>.<\/p>\n<p>De acordo com o historiador, essas etapas podem ser encontradas em alguns discursos oficiais na pandemia de hoje, que negam a import\u00e2ncia da quarentena. &#8220;Em janeiro, pensamos que o coronav\u00edrus n\u00e3o ia chegar; depois, que a pandemia n\u00e3o seria t\u00e3o tr\u00e1gica; e, agora, tentamos lidar com a situa\u00e7\u00e3o. Esse comportamento tamb\u00e9m \u00e9 notado durante o estudo da atua\u00e7\u00e3o governamental na \u00e9poca da Gripe Espanhola no Brasil. Na \u00e9poca, houve uma demora por parte de setores da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, do empresariado e at\u00e9 da imprensa em admitir a chegada da Gripe no territ\u00f3rio brasileiro\u201d, resumiu.<\/p>\n<p><strong>A Gripe Espanhola no Rio: a praga, a pol\u00edtica e os costumes<\/strong><\/p>\n<p>Em setembro de 1918, jornais cariocas anunciavam que marinheiros brasileiros, participantes de opera\u00e7\u00f5es da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), haviam sido vitimados pela Gripe no porto de Dacar, capital do Senegal, na \u00c1frica ocidental. No mesmo m\u00eas, surgiram os primeiros casos da doen\u00e7a no Brasil. Por\u00e9m, tanto a imprensa quanto os respons\u00e1veis pelos servi\u00e7os de higiene da \u00e9poca colocavam em d\u00favida o surgimento da Gripe no Pa\u00eds. \u201cA recusa inicial em classificar a gripe como a Influenza, para al\u00e9m de motivos pol\u00edticos, estava relacionada ao desconhecimento sobre a doen\u00e7a\u201d, relata Teixeira, no artigo\u00a0<a href=\"http:\/\/site.ims.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/SESC-059.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medo e morte: sobre a epidemia de Gripe Espanhola de 1918<\/a>. Na primeira semana de outubro, a imprensa come\u00e7ou a noticiar casos da Gripe em locais de grande de maior densidade demogr\u00e1fica. Logo, a doen\u00e7a tornou-se n\u00edtida em v\u00e1rios setores da sociedade. Segundo o jornal\u00a0<em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em>, de 14 e 15 de outubro daquele ano, \u201cn\u00e3o h\u00e1 em toda cidade estabelecimento comercial, caf\u00e9, bar, botequim que n\u00e3o tenha a maior parte de seus empregados enfermos, sendo de notar que j\u00e1 h\u00e1 estabelecimentos fechados (&#8230;). A Light foi for\u00e7ada a readmitir ex-empregados (&#8230;) grevistas\u201d. J\u00e1\u00a0<em>O Correio da Manh\u00e3<\/em>, na mesma data, estampava a seguinte manchete: \u201cA gripe estende os seus tent\u00e1culos a todos os cantos da cidade. Dezenas de milhares de enfermos, e os casos novos aparecem de momento a momento\u201d. Por sua vez, o jornal\u00a0<em>O Pa\u00eds<\/em>, em 16 de outubro, afirmava que s\u00f3 restavam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es coletivas e religiosas para pedir a Deus, por interm\u00e9dio do padroeiro S\u00e3o Sebasti\u00e3o, que nos livre da peste que nos amea\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo, a capital da Rep\u00fablica Velha (1889-1930) ganhou contornos de caos. N\u00e3o havia estrutura, nem caix\u00f5es suficientes, e os corpos passaram a ser recolhidos pela Pol\u00edcia, pela falta de pessoal suficiente nos servi\u00e7os municipais. Muitos eram encontrados abandonados nas ruas e foram enterrados em valas comuns, com a ajuda de presidi\u00e1rios, destacados para suprir o reduzido n\u00famero de coveiros. O professor Ricardo Augusto dos Santos, que assim como Teixeira \u00e9 pesquisador na COC\/Fiocruz, destaca que a popula\u00e7\u00e3o no Rio em 1918 era de aproximadamente um milh\u00e3o de habitantes. \u201cDesse total, morreram oficialmente cerca de 15 mil pessoas. Mas \u00e9 preciso considerar que, como hoje, tamb\u00e9m existia o fen\u00f4meno da subnotifica\u00e7\u00e3o do n\u00famero de \u00f3bitos. Os m\u00e9dicos da \u00e9poca acreditavam que, ao todo, cerca de 600 mil pessoas ficaram doentes na cidade. Por isso, a quarentena ocorreu de forma inevit\u00e1vel, pois as pessoas, acamadas, n\u00e3o conseguiam trabalhar. Houve ainda uma crise de abastecimento, carestia de alimentos e saques aos armaz\u00e9ns\u201d, explicou. Santos \u00e9 um dos autores da colet\u00e2nea\u00a0<em>Os intelectuais e a cidade \u2013 s\u00e9culos XIX e XX,\u00a0<\/em>organizada tamb\u00e9m por Magali Engel e Maria Let\u00edcia Corr\u00eaa, e publicada com apoio da FAPERJ, como resultado do programa\u00a0<em>Cientista do Nosso Estado<\/em>, concedido a Magali. Ele escreveu o artigo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-59702006000100008\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O\u00a0<em>Carnaval, a Peste e a Espanhola<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>O historiador lembrou um fato interessante sobre como a sociedade brasileira lidou com a Gripe Espanhola, e que se repete, de certa forma, no contexto da atual pandemia de coronav\u00edrus: a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es equivocadas, sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sobre possibilidades de tratamento e rem\u00e9dios. Santos ressaltou que crendices populares eram noticiadas como se tivessem poder de cura, na imprensa da \u00e9poca. \u201cNos jornais daquele per\u00edodo, h\u00e1 diversos an\u00fancios de produtos como xaropes e purgantes que supostamente combateriam a Gripe Espanhola. Havia ainda a cren\u00e7a de que alimentos como ovo e galinha, especialmente quando preparados em forma de canja, seria eficazes contra a doen\u00e7a. Esses alimentos at\u00e9 sofreram aumento de pre\u00e7o nos mercados, pela alta demanda. Hoje, n\u00f3s vemos algumas autoridades recomendando uso de medicamentos de efic\u00e1cia n\u00e3o comprovada ainda pela ci\u00eancia para o tratamento da Covid-19\u201d, comparou.<\/p>\n<p>A Gripe Espanhola tamb\u00e9m resultou em algumas mudan\u00e7as pol\u00edticas durante a Primeira Rep\u00fablica. \u201cO presidente Rodriges Alves, que estava rec\u00e9m-eleito para um segundo mandato, morreu acometido pela Gripe e, em seu lugar, assumiu o vice, Delfim Moreira. Uma elei\u00e7\u00e3o fora de \u00e9poca foi convocada ap\u00f3s a morte de Alves, em janeiro de 1919, e finalmente Epit\u00e1cio Pessoa foi eleito como presidente\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia da Gripe foi a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica nacional voltada para a Sa\u00fade. \u201cO Brasil n\u00e3o tinha um Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ou algum \u00f3rg\u00e3o similar. S\u00f3 depois da epidemia da Gripe Espanhola houve a cria\u00e7\u00e3o,\u00a0em janeiro de 1920, do Departamento Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica, que era uma antiga reivindica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos sanitaristas. Temos que lembrar que os servi\u00e7os p\u00fablicos na ocasi\u00e3o eram prec\u00e1rios e o saneamento, inexistente\u201d, acrescentou Santos.<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia da Gripe afetou ainda o cora\u00e7\u00e3o da cultura carioca. Depois da longa reclus\u00e3o, o Carnaval de 1919 foi considerado uma grande festividade. \u201cO povo participou intensamente e foi \u00e0s ruas, com blocos, carros aleg\u00f3ricos e marchas com versos sobre a epidemia. Era como se estivessem comemorando o fato de estarem vivos e o fim de uma longa quarentena. Na \u00e9poca, as pessoas ficaram completamente isoladas em casa. Hoje, pelo menos, temos contato com o mundo exterior pela Internet e as redes sociais\u201d, disse Santos.<\/p>\n<p>Uma curiosidade foi o uso de r\u00e9plicas de x\u00edcaras de ch\u00e1 nos carros aleg\u00f3ricos, pois espalhou-se o boato popular de que os enfermeiros da Santa Casa serviam um ch\u00e1 letal, \u00e0 meia-noite, para matar os pacientes com Gripe, e, assim, esvaziar mais r\u00e1pido os leitos do hospital. \u201cInfelizmente, esse medo da falta de infraestrutura hospitalar para receber os pacientes internados ainda est\u00e1 bem vivo nos dias de hoje. E como a hist\u00f3ria se repete, a Escola de Samba Viradouro anunciou, h\u00e1 poucos dias, que vai apresentar como tema de desfile, em 2021, uma releitura do Carnaval da Gripe Espanhola, de 1919, ano marcado pelo fim da Primeira Grande Guerra e da Gripe\u201d, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: FAPERJ A pandemia causada pelo coronav\u00edrus, que j\u00e1 provocou mais de cinco mil mortes, apenas no Brasil, n\u00e3o \u00e9 a primeira a assolar a humanidade. Um olhar sobre o passado revela que as epidemias ocorrem em um movimento c\u00edclico, deixando marcas recorrentes na trajet\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. \u201cAntes do coronav\u00edrus, a pandemia mais abrangente e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-9703","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"aioseo_notices":[],"gutentor_comment":0,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9703"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9706,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9703\/revisions\/9706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sobedrj.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}