fonte: CREMESP
por Rubens Amaral (nefrologista, mestre em educação, escritor, gestor e comunicador em saúde e qualidade de vida)
Defendo novos rumos para a medicina e a saúde em geral. Gostaria de tecer alguns comentários sobre a formação dos médicos, extremamente focada nas doenças e não nas pessoas, retirando desse jovem estudante, pelo menos parcialmente, os valores humanos que traz consigo, tornando-o, ao final do curso, um especialista em células, órgãos e sistemas. Um cardiologista, um oftalmologista, um nefrologista, enfim, um especialista em doenças e não em saúde e, muito menos, em gente.
Como preparar médicos que gostem de gente, que sejam especialistas em gente se nos currículos médicos não tem antropologia, desconhecem a história do homem, não tem filosofia, não sabem como o homem pensa, não tem sociologia, não conhecem como a sociedade caminha e não tem teologia, não entendem a relação com Deus? Como exigir que esse profissional atenda uma pessoa olhando-a no olho? Queixa comum nos ambientes sociais: “Aquele médico nem me olhou no olho!” Para exemplificar: o único médico especialista que olha no seu olho é o oftalmologista, mas olha no olho órgão e não no olho gente, pessoa. E assim vamos cada vez mais ficando especialistas em doenças nos afastando dos seres humanos que são os portadores dessas mesmas doenças.
– O senhor é médico “de que”? Pergunta a paciente.
– Como “de que”? Interroga o médico.
– Bem, médico do coração, do fígado, dos rins, dos pulmões, enfim, médico “de que”?
– Minha senhora eu sou médico de gente, sou médico que cuida de pessoas e pacientes, porém estou mais treinado e especializado em pneumologia, doenças que acometem os pulmões.
Médico tem que ter, pelo menos, duas especialidades. A primeira é “de quem” e não “de que”. É ser especialista em Gente. Gostar de Gente. Amar as pessoas, conhecer as pessoas, o ser humano, afinal só se ama o que se conhece. Esta primeira e fundamental especialidade que é gostar de Gente começa muito antes do ingresso na faculdade de medicina. Inicia-se no seio familiar, depois na escola e por fim na sociedade. Ser um especialista em Gente, um “Gentecista”, o estudante de medicina já deve trazer em seu cerne ao começar o curso médico e a busca do conhecimento “tecnicista” na faculdade de medicina deve ser uma forma de poder executar seu “Dom Humanista” com mais eficiência e qualidade. O status e o dinheiro não podem fazer parte desta escolha, sob o grande risco de se frustrar expectativas pessoais, profissionais e sociais.
A faculdade de medicina deve contemplar, além das tradicionais especialidades médicas, disciplinas que capacitem, ainda mais, este ser humano tão especial, não por ter escolhido a medicina, mas por ter sido escolhido por ela. Aprofundamentos em Antropologia, Filosofia, Sociologia, Teologia e Relacionamentos Humanos.
Conhecer a fundo as várias dimensões da pessoa humana, para poder se relacionar em primeiro lugar, e, somente depois, diagnosticar, prescrever, tratar e cuidar.
Uma vez “Gentecista” poderá então escolher a outra especialidade técnica, fruto da sua maior afinidade com a disciplina. Teremos então o médico que a sociedade tanto espera: antes de ser especialista “de que” será “de quem”. Médico de Gente, “Gentecista”.

