ARTIGO: o país das escolas médicas

fonte: Associação Paulista de Medicina

por JOSÉ LUIZ GOMES DO AMARAL – Presidente da APM

Com 334 escolas médicas, até janeiro deste ano, o Brasil, em proporção ao número de habitantes, pode ser considerado o “País das escolas de Medicina” e caminha para o primeiro lugar do planeta também em números absolutos.

Na Índia, com 1,2 bilhão de habitantes, há 381 escolas médicas; na China, com 1,3 bilhão de pessoas, há 150 faculdades de Medicina; e nos Estados Unidos, com 317,6 milhões de cidadãos, há 147. Já no Brasil, desde 2012, autorizou-se mais de 10 mil vagas em quase 150 novos cursos. Não há motivos confessáveis que possam justificar tal disparate.

Houve tempo em que se argumentava faltarem médicos para atender os mais de 200 milhões de brasileiros, mas os 2,1 médicos para 1.000 habitantes hoje disponíveis estão longe de expressar carência deles. Veio a arguição falaciosa da má distribuição de médicos e a doutrina da “necessidade social” como pretexto para a autorização de cursos em áreas com escassez destes profissionais.

O problema é que a educação médica exige equipamentos de Saúde estruturados, que sirvam de cenário de prática clínica e a operação destes requer a presença de profissionais. Onde ambos inexistem, não se faz possível ter escolas médicas, posto que não há com quem aprender e onde praticar.

Por óbvio, a distribuição de profissionais de Saúde não precede o desenvolvimento, mas o acompanha. A principal motivação de um médico qualificado é a possibilidade de exercer seus conhecimentos em prol da saúde do semelhante e, para tanto, é necessário acesso a recursos assistenciais. Além do exposto, a qualidade de vida pessoal e, sobretudo, familiar é fundamental elemento na decisão de fixação geográfica do profissional.

Finalmente, surge a questão do desenvolvimento profissional. O médico qualificado vê atualização como condição primária para a sobrevivência em uma longa carreira. Ele almeja igualmente ascender na profissão e há muito não se tem concursos para acesso ao sistema de saúde pública.

Muito menos há carreira a ser construída. As contratações nesse campo são invariavelmente precárias. Daí o médico não se aventurar onde não lhe reste alternativa que a saúde pública. Sempre que possível, optará por conciliar o SUS com a atividade no sistema suplementar. Não à toa a distribuição dos médicos se sobrepõe àquela dos planos de saúde.

Em realidade, a “necessidade social” serviu apenas de “discurso”, pois a imensa maioria das faculdades novas foi autorizada nas regiões mais desenvolvidas, onde há “mercado” para o próspero negócio da produção de diplomas de Medicina. De todo, resta sem explicação a inércia face à má qualificação das instituições e à falta de avaliação dos egressos. Mais uma vez, veem-se ignorados o interesse e a opinião da população.