Acidentes em crianças: saiba como a endoscopia digestiva pode contribuir no diagnóstico e tratamento
Segundo um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), os acidentes são a principal causa de morte de crianças entre 1 e 14 anos, no país, totalizando cerca de 3,6 mil mortes por ano.
Atropelamentos e afogamentos são os acidentes mais fatais, porém, é preciso redobrar a atenção para possíveis quedas, queimaduras e ingestão de corpos estranhos, que podem levar crianças e adolescentes à internação.
A maior parte desses acidentes acontece na residência da criança ou no seu entorno, e muitos podem ser evitados com medidas simples de prevenção.
A Dra. Paula Peruzzi, médica especialista em Endoscopia Digestiva Pediátrica, explica que cada faixa etária apresenta características do desenvolvimento infantil que aumentam os riscos de determinados acidentes.
“A ingestão de corpos estranhos, por exemplo, é mais frequente entre crianças de seis meses e três anos de idade. Com o início da fase oral, os bebês começam a levar os objetos à boca, havendo maior risco de asfixia e ingestão de corpos estranhos. E nem sempre o acidente é visto por um dos responsáveis, como diz o ditado popular: “criança cega a gente”. Portanto, os pais e, em especial os pediatras, devem ficar atentos para sintomas como: dificuldade ou recusa alimentar, engasgos, salivação e sintomas respiratórios (broncoespasmo, estridor e infecção respiratória de repetição)”, afirma
Dra. Paula Peruzzi, que atua nos Serviços de Endoscopia Digestiva Pediátrica do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e do Hospital Estadual da Criança (HEC), ressalta que alguns corpos estranhos não são radiopacos, ou seja, não são visualizados em um raio-x simples, dificultando ainda mais o diagnóstico.
“Temos alguns casos no IFF, Hospital Materno-Infantil da FIOCRUZ, que é referência em endoscopia pediátrica, em que a criança permaneceu por um longo período com o corpo estranho no trato gastrointestinal, sem diagnóstico. Isto levou a uma série de complicações, inclusive, com necessidade de tratamento cirúrgico em casos que poderiam ser resolvidos apenas com procedimento endoscópico, se o diagnóstico fosse mais precoce. Recentemente, ao fazer a dilatação do esôfago de uma criança de 1 ano, com estreitamento de esôfago pós operatório, nos surpreendemos ao encontrar uma bateria aderida ao esôfago, causando lesão, com sinais de necrose da parede do órgão. O pai nem desconfiava que a menina tinha engolido a bateria”, afirma.
Outro caso alarmante, segundo a Dra. Paula, foi um de um paciente em idade escolar que relatava ter engolido um pequeno boneco de plástico, brinde de uma guloseima.
“Essa criança já havia passado por atendimentos médicos, com dor torácica ao se alimentar, mas como o brinquedo não aparecia no raio-x, demorou para ter o diagnóstico. Conclusão: ela permaneceu com o tal boneco aderido ao esôfago por cerca de um ano. Foi um longo período de sofrimento até solicitarem a endoscopia, quando foi possível visualizar o boneco e o removê-lo”, diz.
Apesar de um levantamento da Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal revelar que 80% a 90% dos objetos ingeridos são eliminados sem a necessidade de intervenção endoscópica ou cirúrgica, Dra. Paula destaca que o cuidado deve ser redobrado com baterias, imãs e objetos pontiagudos e perfurantes.
“As baterias, quando aderidas ao esôfago, podem causar lesão tanto pela liberação de substância cáustica, quanto por descarga elétrica. Os imãs, quando múltiplos, podem ser atraídos e causarem lesões graves no trato gastrointestinal. Felizmente, os casos mais comuns são com moedas, que na maior parte das vezes saem nas fezes dentro de quatro a seis dias, sem complicações”, afirma.
Uma outra causa importante de acidentes em crianças, em que a endoscopia digestiva também tem papel fundamental no tratamento, é a ingestão acidental de agentes corrosivos, como a soda cáustica.
“Frequentemente estes acidentes ocorrem no ambiente doméstico, onde muitas vezes os familiares diluem os agentes corrosivos em uma garrafa para realizar algum tipo de limpeza doméstica. As crianças, mais frequentemente entre dois e seis anos de idade, visualizam aquele líquido na garrafinha, muitas vezes colorido, e ingerem achando que é um suco ou refrigerante. Este tipo de acidente é mais comum do que se possa imaginar, podendo provocar desde queimaduras leves na cavidade oral e no trato gastrointestinal, até lesões graves, algumas vezes irreversíveis, com sequelas por toda vida, ou até mesmo óbito”, destaca Dra. Paula.
Diante de todos estes riscos, os exames endoscópicos são fundamentais para o diagnóstico e o tratamento das crianças, podendo ser realizados, em qualquer faixa etária, incluindo bebês e até recém-natos.
“Os exames endoscópicos são seguros quando realizados com os equipamentos apropriados para cada faixa etária, por endoscopistas e anestesistas treinados em pediatria, e em ambientes com suporte adequado, de acordo com a faixa etária de cada paciente”, ressalta a especialista.
É importante salientar que os exames endoscópicos são fundamentais no diagnóstico e tratamento destas crianças. Eles podem ser realizados, em qualquer faixa etária, incluindo bebês e até recém-natos. São seguros quando realizados com os equipamentos apropriados para cada faixa etária, por endoscopistas e anestesistas treinados em pediatria, e em ambientes com suporte adequado, de acordo com a faixa etária de cada paciente.
Também estamos vivendo um período bastante complicado diante da pandemia da COVID-19, que vem causando efeitos diretos e indiretos na saúde da criança e do adolescente.
“Os efeitos diretos estão relacionados às manifestações clínicas da doença, sendo os mais comuns os sintomas respiratórios e no trato gastrointestinal, como diarréia, vômitos e dor abdominal, até o desenvolvimento de manifestações em outros órgãos e a síndrome inflamatória multissistêmica da criança. Os efeitos indiretos estão relacionados desde as consequências do isolamento social no desenvolvimento infantil, com aumento no sedentarismo, obesidade, crises de ansiedade e depressão, até outras consequências como diminuição na cobertura vacinal, aumento dos acidentes e violência doméstica”, comenta Dra. Paula.
Especialista em Endoscopia Digestiva Pediátrica, e mãe de dois filhos e uma enteada, Dra. Paula finaliza apontando uma publicação recente da Sociedade Brasileira de Pediatria, que ressalta que a atenção com o ambiente doméstico deve ser dobrada nesse momento de pandemia.
“Durante o isolamento social, em que as crianças estão permanecendo mais tempo em casa, o ambiente deve estar seguro e sem riscos para a saúde dos pequenos”, conclui.
